Vocês já leram este post aqui mesmo no Cultura Pop sobre Tudo e Nada:
"... Já me perguntaram várias vezes o que uma mulher precisa pra ser promovida de ficante à namorada! Eu sei lá! Acontece e pronto! Mas abaixo listo alguns motivos reais porque acabamos (eu e os homens no geral, meus amigos, amigos de amigos, etc...) terminando com algumas gurias; muitas delas legais, mas que por um detalhezinho, não rolava!
Eu sei que alguns são motivos fúteis, mas não precisam queimar sutiãs por aí! Já aguentamos "defeitos" piores do que os listados quando gostávamos da pessoa! Sem química, qualquer coisa vira uma desculpa! Alguns exemplos são meus, outros deles, etc...
PS: levem na boa, meninas! Aprendam a rir e a levar na boa situações assim; até porque; aposto que devem ter umas 500 listas circulando por aí enumerando um "Não rolou namoro com ele porque..."! É ou não é?! rsrs*. Enfim..."
Pois chegou a vez DELAS. Em colaboração com duas colegas minhas (Aline e Taynar), segue uma lista de: "Ele não virou namorado porque..." Aliás, se por acaso mais alguma mulher que lê este blog quiser mandar sua contribuição, será postado. Juro. =)
PS: levem na boa agora, cuecas. rsrs
***
* Quando tirava os sapatos, parecia que o caminhão da Comlurb tinha encostado do meu lado;
* Queria namorar agarradinho durante Pulp Fiction;
* Falou 'adEvogado';
* Chegou num encontro com as unhas mais cuidadas que as minhas (com BASE) e as sobrancelhas tão perfeitas quanto as de uma modelo;
* Tinha pêlos maiores que a minha franja;
* Achava que mulher bem-sucedida era mal-amada e que mulher pra casar tinha que ser dona de casa. Eu acho que fui até 1952 naquela noite e nem percebi;
* Depois de ficarmos uma vez, na night, mandou mais mensagens que a própria operadora de celular, no dia seguinte. Ou como diria uma amiga, “como uma puta sem cliente”;
* Era absolutamente passivo quanto às minhas atitudes, mesmo as mais loucas (tomadas a fim de testar, depois que eu percebi essa característica);
* Não gostava de rock e adorava Bruno & Marrone – pára tudo;
* Achava “House” ‘um metido a besta sem-noção’. Essa foi uma das maiores heresias que já escutei;
* Me levou pra jantar pela primeira vez num restaurante maravilhoso e chique... E me fez pagar a minha parte! Ok, eu sou muito a favor de cada um na sua, mas primeiro encontro é primeiro encontro, ora bolas;
* Tinha ombros mais finos que os meus, apesar de ser bem mais alto;
* O ciúme dele era uma coisa absolutamente patológica – daqueles que tem ciúme de irmão, sabe?
* Era do tipo 'venha a nós e você que se vire', sexualmente;
* Não admitia o chopp com as amigas;
* Era mais emotivo do que eu fico na TPM. Não dá...
* Quando me beijava, parecia que eu tinha beijado um São Bernardo na boca, de tão babada que ficava;
* Tinha uma mania horrível de palitar os dentes. Mesmo discretamente, só em casa, né?
* Usava cueca furada;
* Ficava nu e de meias. É a pior visão pra uma mulher...
* Mandou um 'vamos curtir o momento' me cantando (esse foi com uma amiga, mas é imperdoável);
* Estava com uma cueca de lycra (?!) quando saímos;
* Tinha um 'brinquedinho' imenso (pequeno até vai, desde que saiba usar);
* Pêlos na orelha;
* Disse que livros estavam ultrapassados e que “ler é coisa de gente velha e sozinha”. Tá bom, então te vira ouvindo o Créu que tu vai longe;
* Cismou que era meu endocrinologista e fiscal de dieta. Ajudar é bom, mas ouvir um “não acha que comeu demais já?” no meio da galera?! Vá sefu! Detalhe: eu estava no menor peso que tive. E comprovo;
* Era tão calado e quieto na hora H que dava pra ouvir até os mosquitos voando;
* Se vestia como não tivesse trocado a roupa com a qual dormiu, independente de onde fosse;
* Era mais delicado que qualquer menina ao pegar em mim com as mãos;
* Não tinha senso de humor algum;
* Queria me apresentar pra família depois de termos ficado uma vez. E depois ficava me mandando mensagem de cinco em cinco minutos, dizendo que me adorava. Razão número dois pra espantar mulher;
* Me chamou com o nome de outra. E não foi ato falho;
* Era psicopata. Me ligou durante uns quatro meses todas as horas, de número suprimido. Nunca fiquei tão feliz como quando eu soube que o celular dele tinha sido roubado, olha;
* Beijava com a boca ultra-aberta. Parecia que eu tava sendo puxada pra um buraco negro. Medonho;
* Usava roupa mais colada que a minha, e rebolava demais. Não, não era gay, quer dizer, eu acho, né...
* Beijava igual à um sapo. Sabe quando o sapo só coloca uma pontinha da língua pra fora e só de vez em quando?
* Queria ficar comigo, ao mesmo tempo em que mantinha entreverios com todas as mulheres do planeta. Ah tá bom!
* Me deixou esperando no cinema, sozinha e depois disse que tinha dormido e esquecido. Que pelo menos me inventasse uma desculpa, né?
* Me deixava esperando pra assistir jogo de futebol. E nem era de time grande. Qualquer futebol que estivesse passando. Vinte e dois machos fedorentos, ao invés de uma mulher linda e arrumada??
* Disse que nunca tinha conhecido ninguém que tivesse por hobby ler. Segue pra luz, filho;
* Foi chamando a minha mãe de sogra, na segunda vez que a gente tinha ficado;
* Dava em cima de mim e de uma amiga, sem que soubéssemos uma da outra. Com tanta mulher nesse mundo...
* Me largou no meio do show pra ir comer cachorro-quente. Eu. Arrumada. Super afim dele. Ele. Cachorro-quente. Passar bem!
* Ficava esfregando na minha cara que usava um perfume que custava mais de 900 reais. E fazia questão de tomar banho com ele pra que eu soubesse que ele não tava mentindo;
* Só sabia falar de marca de carro importado, de celular caro. Sério, era só isso do que ele falava. Ainda ficou chateado quando o chamei de playboy;
* Falava mal das minhas amigas. Tchau!
* Usava o meu celular pra falar com a outra. Ora vá tomar no...
* Não queria desgrudar. Chegou a ir pro salão comigo. Pro salão, minha gente;
* Ficou com raiva por eu ter ficado com um conhecido dele, antes mesmo d'eu saber que ele existia.
sábado, 14 de fevereiro de 2009
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
► Vídeos que recomendo - 16 (Alanis Morissette - "Head Over Feat")
Aproveitando a passagem da Alanis Morissette aqui por Porto Alegre, segue o vídeo dum musicaço dela, do primeiro CD 'Jagged Little Pill'. O nome? "Head Over Feat".
Alanis na sua melhor fase, né não?
Alanis na sua melhor fase, né não?
► Vale conferir - 11 (Entrevista com Maurício de Sousa)
Táí uma coisa que eu admito que sou fã, tenho coleção e volta e meia me pego lendo: gibis da Turma da Mônica. Aliás, que atire a primeira pedra quem não tem em casa uma única revistinha que seja da Mônica, do Cebolinha, do Cascão, da Magali e/ou do Chico Bento!? Nem que seja pra dar uma lidinha no banheiro? Hein!? Pois então, nostalgia pura é bobagem. Sou fãzaço. E por mais que possa soar piegas, eu falo: os meus filhos futuramente lerão gibis da Turma da Mônica. Assim como minha mãe me criou lendo pra mim as historinhas, farei o mesmo. Acho, ou melhor, não, não acho, tenho certeza que lendo-as, será um bom início para alfabetizar a criança com uma leitura leve, útil e didática. Enfim, continuando...
Só que ultimamente o Maurício de Sousa me surpreendeu. E de uma maneira um tanto chocante. Porque? Simplesmente porque Mônica, Cebolinha, Cascão e Magali... CRESCERAM! Pois é, cresceram. São pré-adolescentes e o gibi tradicional virou um... MANGÁ! Pois é, mangá. E agora eles se veem às voltas com assuntos mais sérios de serem tratatos. Inseguranças, beijos, dúvidas e afins. Confesso que não digeri isso muito bem, mas também não serei radical. Darei um tempo pra ver aonde isso vai dar. Aliás, no que depender das vendas, a idéia do Maurício tá indo muito bem, obrigado. Pois os mangás da Turma estão vendendo quase o dobro dos gibis tradicionais com eles crianças. Enfim, é esperar e ver o resultado, não é mesmo? Portanto, me convença, Maurício. Me mostre que sua ideia veio para ficar. Combinado? rsrs
Abaixo, segue uma entrevista bem esclarecedora com o criador da Turma da Mônica à revista VEJA. Muito boa entrevista por sinal. Por isso que sou fã do cara. Vida longa à Turma da Mônica e à Maurício de Sousa.
***
O desenhista Mauricio de Sousa é o criador do personagem infantil brasileiro de maior sucesso em todos os tempos, a Mônica. Agora, numa manobra incomum no mundo dos quadrinhos, ele acaba de reinventá-la. Na revista Mônica Jovem, já na quinta edição, a menina dentuça e voluntariosa se transformou numa adolescente sensual, que veste minissaia e beija os rapazes na boca. O sucesso da publicação é estrondoso, com 410 000 exemplares vendidos, contra 200 000 que costuma vender o gibi da Mônica ainda criança. A mudança da personagem, alega Mauricio, foi uma forma de se adaptar às transformações de uma sociedade em que a infância é cada vez mais curta. "Se antes adolescentes de 14 anos ainda liam e gostavam dos meus gibis, hoje eles começam a deixar de lê-los aos 7", ele diz. Aos 73 anos, Mauricio falou a VEJA do futuro dos gibis, da experiência dolorosa de ter um filho sequestrado e de sua família numerosa.
Como explicar que os gibis da Mônica adolescente vendam o dobro dos da Mônica criança? Em cinco décadas, uma mudança extraordinária aconteceu no nosso público. Se antes adolescentes de 14 anos ainda liam e gostavam dos meus gibis, hoje eles começam a deixar de lê-los aos 7. Aos poucos, passam a considerar a Turma da Mônica coisa de criança e a comprar mangás japoneses. Quando estão com 10 anos, já se assumem como jovens. São os pré-adolescentes, meninos e meninas com preocupações e vontades diferentes daquelas que havia quando a Mônica foi publicada pela primeira vez. A infância, portanto, encolheu. Há mais ou menos cinco anos, comecei a pensar em uma maneira de não perder esses leitores. Minha solução foi oferecer a eles um pouco do universo jovem, que até então era reservado aos mais velhos. Pegamos os tradicionais personagens da Turma da Mônica e os inserimos em histórias com uma boa dose de relacionamento. Eles agora protagonizam cenas de ciúme, sentem atração pelo outro sexo e ficam inseguros no grupo. Estão com os hormônios pipocando e não sabem o que fazer com isso. No quarto número, colocamos a Mônica beijando na boca o Cebolinha, agora chamado de Cebola. Deu supercerto. Crianças de 7 anos voaram para o mangá como abelhas no mel. Leem as histórias e se projetam nos nossos personagens. As meninas não veem a hora de ser como a Mônica jovem: descolada, bonitinha, moderninha.
Estamos perdendo anos preciosos da infância? Essa melancolia que vejo em muitos adultos não faz sentido. Nada está sendo perdido. A questão é que tudo ficou mais intenso, condensado.
A infância diminuiu em quantidade, mas ganhou em qualidade. As crianças de hoje aproveitam mais e melhor o tempo e se tornam cidadãs e se formam como ser humano antes do tempo. Logo, logo, será preciso adiantar as datas para que possam entrar mais cedo na faculdade. Elas fazem tudo ao mesmo tempo e não se queixam disso. Não têm preguiça. Meu filho Marcelinho, de 10 anos, está passando alguns dias em uma cidade pequena no interior da Bahia. Está adorando conviver com um monte de crianças com bagagem cultural diferente. Brinca na rua, nada no rio, anda de jegue e joga bola livremente. A qualidade dessa experiência pela qual ele está passando é fantástica. O Marcelo está fazendo as coisas que eu fiz quando era pequeno. Mas ele não precisa passar vários anos da vida fazendo isso. Pode ficar apenas dez dias. Quando voltar a São Paulo, retornará para as aulas de inglês e será novamente um dos campeões de xadrez da escola. Jogará videogame e assistirá à novela. Então essa experiência na Bahia se somará às outras. É uma vida vibrante. O Marcelo não é excepcional. Todas as crianças hoje o são, mesmo as que moram em bairros pobres e favelas.
O senhor foi criticado quando criou a Mônica jovem? No Orkut, teve gente dizendo que eu apelei, que estava expondo as crianças a algo nocivo. Pura besteira. Os pequenos não entendem que uma roupa curta ou um decote têm algo a ver com sexualidade. Eles interpretam isso como algo fashion, colorido, quase uma mensagem gráfica. Outros disseram que eu devia estar sob efeito de alguma droga, que eu tinha matado a Mônica. Esquecem ou não percebem que nosso trabalho sempre tem a família como foco principal. Acontece que nas casas de hoje se pode conversar sobre tudo: sexo, drogas, violência. Se o pai não puxa esses assuntos, o filho de 5 anos faz isso por ele. É preciso parar de tratar as crianças como seres inferiores, sem senso crítico, sem experiência de vida. Tudo pode virar tema. Não é preciso censurar, apenas deve-se tomar cuidado para usar uma linguagem correta. Em 2004, decidimos que o Xaveco, amigo do Cebolinha e do Cascão, seria filho de pais separados. Ele passaria alguns dias com o pai e outros com a mãe, normalmente. Depois que publicamos a primeira história do Xaveco, nós nos sentamos e ficamos esperando os e-mails e cartas de reclamação. Não houve um único sequer. É um exemplo claro de como o mundo mudou.
O Menino Maluquinho, criação do cartunista Ziraldo, é filho de pais separados e vai fazer trinta anos em breve... O Ziraldo avança mais do que eu. Tenho de ser mais cuidadoso. No estúdio, no parque de diversões e nos escritórios de apoio, temos 500 pessoas trabalhando. Ainda há os funcionários da gráfica e das empresas que fazem os brinquedos. É uma responsabilidade muito grande. Tem gente pedindo para eu criar um personagem gay. Esse tema ainda é muito novo. Mas eu sei que, no futuro, se essa tendência continuar, será natural ter um homossexual na Turma. No meu estúdio, digo que não devemos levantar uma bandeira e ir à frente de uma passeata. Devemos segurar a bandeira quando ela já está passando. Precisamos falar a língua do dia e da hora, mas tomando certos cuidados. Foi com essa fórmula que construí minha carreira.
O senhor já pensou em criar um personagem rebelde ou fazer histórias para adultos com mais realismo? Confesso que não saberia fazer isso. Minhas histórias sempre têm uma preocupação, uma proposta de futuro. Tenho para com meus personagens uma atitude parecida com a que exerço com meus filhos. Às vezes, convoco um deles para um sermão, pedindo que se comporte melhor. Muita gente reclama que eu deveria mostrar coisas negativas, como miséria e fome. Também não é a nossa proposta. Durante a II Guerra, todos os personagens dos quadrinhos americanos foram para o campo de batalha. Todos menos o Ferdinando, do Al Capp. Quando perguntaram ao desenhista se o personagem era contra os Estados Unidos, Al Capp respondeu que o soldado que lia o jornal na trincheira não queria saber de guerra. Ele precisava, sim, é de algo gostoso, bucólico, que o fizesse lembrar que tinha um lugar para retornar quando o conflito acabasse. É essa, um pouco, a nossa ideia. Promovemos lazer, entretenimento e diversão. O resto, a criança encontra na televisão ou na esquina.
Chico Bento é um personagem rural em um país no qual a maior parte da população é urbana. O personagem ainda faz sentido? Chico Bento não vai sumir, porque as pessoas estão retornando ao campo. Não querem viver em uma tapera, mas almejam um lugar com qualidade de vida, perto da natureza. É isso que o Chico representa. Se pudesse, eu me mudaria para Caçapava, onde tenho uma chácara. Nos últimos anos, expulsei meus roteiristas de São Paulo. Eles trabalham em Porto Alegre, Ribeirão Preto, Jundiaí, Florianópolis e me mandam material diariamente. A cada trinta ou quarenta dias, todos se reúnem para uma conversa. Também não acho que Chico Bento fale de um lugar totalmente utópico ou idílico. Há um monte de cidades povoadas por gente simples, singela como ele. Basta procurar. Na China, o Chico faz mais sucesso que qualquer outro personagem. Os chineses são um povo rural, com a cabeça no campo. Adoram o nosso caipira.
Com a internet, o celular e a preocupação com o consumo de papel, existe um futuro para os gibis? O papel pintado ainda vai durar muito tempo. Há uma diferença gigantesca entre a atenção que as crianças dão ao que está no papel e a dedicada ao que aparece nos equipamentos modernos, como videogame e computador. Meu filho Maurício ouve música com três telas ligadas, joga videogame e estuda ao mesmo tempo. Para quem é mais velho parece estranho, mas as crianças de hoje conseguem fazer isso normalmente. Quando uma criança pega um gibi, contudo, ela se isola totalmente do mundo. Fica completamente mergulhada na história. Com isso, o gibi ou o livro ajudam os pequenos a se concentrar. O cérebro deles estabelece uma prioridade, o que é ótimo para o aprendizado e a memória. Se eles lerem gibis cinco minutos por dia, o papel nunca vai desaparecer.
Seu filho Marcelo foi sequestrado no ano passado. Como ele assimilou o que aconteceu? Apesar de ter ficado quase vinte dias em cativeiro, o Marcelo não carregou nenhuma sequela. Um dos fatores para isso é que ele ficou o tempo todo com um irmão menor e a mãe, que brigou para ir junto. Graças à presença dela, o Marcelo nunca se sentiu totalmente ameaçado ou sem proteção. Isso bloqueou qualquer dano à cabeça dele. Outro fator importante foi que, dois dias depois do estouro do cativeiro, eu peguei meu filho, coloquei-o no avião e o levei para Boston, onde eu tinha uma palestra para fazer na Universidade Harvard. Foi uma viagem maravilhosa. Ele conheceu Nova York, jogou bola e assistiu a minha conferência. Foi uma das melhores coisas que fiz, porque com isso ele aprendeu que os momentos ruins são finitos. Depois, Marcelo juntou tudo o que viveu nesses dias agitados e cresceu um pouquinho mais. As coisas ruins, dramáticas, ficaram na cabeça dele como se houvesse cortinas tapando. Se eu o tivesse prendido em casa, contratado um monte de seguranças e o proibido de sair, apenas teria ampliado aquela experiência traumática. Como não fiz isso, a ferida cicatrizou.
A alta criminalidade nas cidades brasileiras impede as crianças de brincar na rua ou no campinho, como a Mônica e o Cebolinha. Chegou a hora de mudar o cenário das histórias? Detesto me sentir refém em uma cidade como São Paulo. Fico triste quando ando no meu bairro e vejo que as casas viraram casamatas. Imóveis lindos estão completamente cercados por muros. Briguei muito comigo mesmo para aceitar blindar meu carro. Não queria fazer isso. Tenho ainda um Fusquinha amarelo que não é blindado. Quando o dirijo, o pessoal da empresa me chama de louco. Viver acuado é aceitar uma violência contra nós mesmos. É paradoxal. Evoluímos com tanta firmeza, criando tantas coisas para as crianças, e ao mesmo tempo mostramos tanta fraqueza diante da violência. São coisas que não batem. As crianças devem ter o direito de brincar na rua com segurança. Viajo muito por outros países e percebo que as pessoas não sentem essa tensão que vivemos aqui. Um dia temos de dar um jeito nessa situação.
O senhor tem dez filhos com quatro mulheres, onze netos e um bisneto. Como se lida com uma família tão numerosa? Ninguém pode pensar hoje que casou por toda a vida. As crianças perceberam isso. Pela minha experiência, quando os pais resolvem bem a situação entre eles, os pequenos não estão nem aí. São fortes, adaptam-se. Mesmo se porventura levam uma pancada, recobram-se e voltam ao normal. Quando meus filhos se juntam, são irmãos do mesmo jeito. Claro que às vezes um deles pode ficar com ciúme. É inevitável. Mas dá para contornar. Hoje somos um núcleo familiar em que há hierarquia e disciplina. Há inúmeros casos como o meu. Ao atravessarem essas mudanças, as crianças de hoje em dia ganham muito em autoestima. Aprendem que são capazes de resistir às mudanças e até de ensinar lições aos pais.
[Fonte: revista VEJA]
Só que ultimamente o Maurício de Sousa me surpreendeu. E de uma maneira um tanto chocante. Porque? Simplesmente porque Mônica, Cebolinha, Cascão e Magali... CRESCERAM! Pois é, cresceram. São pré-adolescentes e o gibi tradicional virou um... MANGÁ! Pois é, mangá. E agora eles se veem às voltas com assuntos mais sérios de serem tratatos. Inseguranças, beijos, dúvidas e afins. Confesso que não digeri isso muito bem, mas também não serei radical. Darei um tempo pra ver aonde isso vai dar. Aliás, no que depender das vendas, a idéia do Maurício tá indo muito bem, obrigado. Pois os mangás da Turma estão vendendo quase o dobro dos gibis tradicionais com eles crianças. Enfim, é esperar e ver o resultado, não é mesmo? Portanto, me convença, Maurício. Me mostre que sua ideia veio para ficar. Combinado? rsrsAbaixo, segue uma entrevista bem esclarecedora com o criador da Turma da Mônica à revista VEJA. Muito boa entrevista por sinal. Por isso que sou fã do cara. Vida longa à Turma da Mônica e à Maurício de Sousa.
***
O desenhista Mauricio de Sousa é o criador do personagem infantil brasileiro de maior sucesso em todos os tempos, a Mônica. Agora, numa manobra incomum no mundo dos quadrinhos, ele acaba de reinventá-la. Na revista Mônica Jovem, já na quinta edição, a menina dentuça e voluntariosa se transformou numa adolescente sensual, que veste minissaia e beija os rapazes na boca. O sucesso da publicação é estrondoso, com 410 000 exemplares vendidos, contra 200 000 que costuma vender o gibi da Mônica ainda criança. A mudança da personagem, alega Mauricio, foi uma forma de se adaptar às transformações de uma sociedade em que a infância é cada vez mais curta. "Se antes adolescentes de 14 anos ainda liam e gostavam dos meus gibis, hoje eles começam a deixar de lê-los aos 7", ele diz. Aos 73 anos, Mauricio falou a VEJA do futuro dos gibis, da experiência dolorosa de ter um filho sequestrado e de sua família numerosa.
Como explicar que os gibis da Mônica adolescente vendam o dobro dos da Mônica criança? Em cinco décadas, uma mudança extraordinária aconteceu no nosso público. Se antes adolescentes de 14 anos ainda liam e gostavam dos meus gibis, hoje eles começam a deixar de lê-los aos 7. Aos poucos, passam a considerar a Turma da Mônica coisa de criança e a comprar mangás japoneses. Quando estão com 10 anos, já se assumem como jovens. São os pré-adolescentes, meninos e meninas com preocupações e vontades diferentes daquelas que havia quando a Mônica foi publicada pela primeira vez. A infância, portanto, encolheu. Há mais ou menos cinco anos, comecei a pensar em uma maneira de não perder esses leitores. Minha solução foi oferecer a eles um pouco do universo jovem, que até então era reservado aos mais velhos. Pegamos os tradicionais personagens da Turma da Mônica e os inserimos em histórias com uma boa dose de relacionamento. Eles agora protagonizam cenas de ciúme, sentem atração pelo outro sexo e ficam inseguros no grupo. Estão com os hormônios pipocando e não sabem o que fazer com isso. No quarto número, colocamos a Mônica beijando na boca o Cebolinha, agora chamado de Cebola. Deu supercerto. Crianças de 7 anos voaram para o mangá como abelhas no mel. Leem as histórias e se projetam nos nossos personagens. As meninas não veem a hora de ser como a Mônica jovem: descolada, bonitinha, moderninha.Estamos perdendo anos preciosos da infância? Essa melancolia que vejo em muitos adultos não faz sentido. Nada está sendo perdido. A questão é que tudo ficou mais intenso, condensado.
A infância diminuiu em quantidade, mas ganhou em qualidade. As crianças de hoje aproveitam mais e melhor o tempo e se tornam cidadãs e se formam como ser humano antes do tempo. Logo, logo, será preciso adiantar as datas para que possam entrar mais cedo na faculdade. Elas fazem tudo ao mesmo tempo e não se queixam disso. Não têm preguiça. Meu filho Marcelinho, de 10 anos, está passando alguns dias em uma cidade pequena no interior da Bahia. Está adorando conviver com um monte de crianças com bagagem cultural diferente. Brinca na rua, nada no rio, anda de jegue e joga bola livremente. A qualidade dessa experiência pela qual ele está passando é fantástica. O Marcelo está fazendo as coisas que eu fiz quando era pequeno. Mas ele não precisa passar vários anos da vida fazendo isso. Pode ficar apenas dez dias. Quando voltar a São Paulo, retornará para as aulas de inglês e será novamente um dos campeões de xadrez da escola. Jogará videogame e assistirá à novela. Então essa experiência na Bahia se somará às outras. É uma vida vibrante. O Marcelo não é excepcional. Todas as crianças hoje o são, mesmo as que moram em bairros pobres e favelas.
O senhor foi criticado quando criou a Mônica jovem? No Orkut, teve gente dizendo que eu apelei, que estava expondo as crianças a algo nocivo. Pura besteira. Os pequenos não entendem que uma roupa curta ou um decote têm algo a ver com sexualidade. Eles interpretam isso como algo fashion, colorido, quase uma mensagem gráfica. Outros disseram que eu devia estar sob efeito de alguma droga, que eu tinha matado a Mônica. Esquecem ou não percebem que nosso trabalho sempre tem a família como foco principal. Acontece que nas casas de hoje se pode conversar sobre tudo: sexo, drogas, violência. Se o pai não puxa esses assuntos, o filho de 5 anos faz isso por ele. É preciso parar de tratar as crianças como seres inferiores, sem senso crítico, sem experiência de vida. Tudo pode virar tema. Não é preciso censurar, apenas deve-se tomar cuidado para usar uma linguagem correta. Em 2004, decidimos que o Xaveco, amigo do Cebolinha e do Cascão, seria filho de pais separados. Ele passaria alguns dias com o pai e outros com a mãe, normalmente. Depois que publicamos a primeira história do Xaveco, nós nos sentamos e ficamos esperando os e-mails e cartas de reclamação. Não houve um único sequer. É um exemplo claro de como o mundo mudou.O Menino Maluquinho, criação do cartunista Ziraldo, é filho de pais separados e vai fazer trinta anos em breve... O Ziraldo avança mais do que eu. Tenho de ser mais cuidadoso. No estúdio, no parque de diversões e nos escritórios de apoio, temos 500 pessoas trabalhando. Ainda há os funcionários da gráfica e das empresas que fazem os brinquedos. É uma responsabilidade muito grande. Tem gente pedindo para eu criar um personagem gay. Esse tema ainda é muito novo. Mas eu sei que, no futuro, se essa tendência continuar, será natural ter um homossexual na Turma. No meu estúdio, digo que não devemos levantar uma bandeira e ir à frente de uma passeata. Devemos segurar a bandeira quando ela já está passando. Precisamos falar a língua do dia e da hora, mas tomando certos cuidados. Foi com essa fórmula que construí minha carreira.
O senhor já pensou em criar um personagem rebelde ou fazer histórias para adultos com mais realismo? Confesso que não saberia fazer isso. Minhas histórias sempre têm uma preocupação, uma proposta de futuro. Tenho para com meus personagens uma atitude parecida com a que exerço com meus filhos. Às vezes, convoco um deles para um sermão, pedindo que se comporte melhor. Muita gente reclama que eu deveria mostrar coisas negativas, como miséria e fome. Também não é a nossa proposta. Durante a II Guerra, todos os personagens dos quadrinhos americanos foram para o campo de batalha. Todos menos o Ferdinando, do Al Capp. Quando perguntaram ao desenhista se o personagem era contra os Estados Unidos, Al Capp respondeu que o soldado que lia o jornal na trincheira não queria saber de guerra. Ele precisava, sim, é de algo gostoso, bucólico, que o fizesse lembrar que tinha um lugar para retornar quando o conflito acabasse. É essa, um pouco, a nossa ideia. Promovemos lazer, entretenimento e diversão. O resto, a criança encontra na televisão ou na esquina.Chico Bento é um personagem rural em um país no qual a maior parte da população é urbana. O personagem ainda faz sentido? Chico Bento não vai sumir, porque as pessoas estão retornando ao campo. Não querem viver em uma tapera, mas almejam um lugar com qualidade de vida, perto da natureza. É isso que o Chico representa. Se pudesse, eu me mudaria para Caçapava, onde tenho uma chácara. Nos últimos anos, expulsei meus roteiristas de São Paulo. Eles trabalham em Porto Alegre, Ribeirão Preto, Jundiaí, Florianópolis e me mandam material diariamente. A cada trinta ou quarenta dias, todos se reúnem para uma conversa. Também não acho que Chico Bento fale de um lugar totalmente utópico ou idílico. Há um monte de cidades povoadas por gente simples, singela como ele. Basta procurar. Na China, o Chico faz mais sucesso que qualquer outro personagem. Os chineses são um povo rural, com a cabeça no campo. Adoram o nosso caipira.
Com a internet, o celular e a preocupação com o consumo de papel, existe um futuro para os gibis? O papel pintado ainda vai durar muito tempo. Há uma diferença gigantesca entre a atenção que as crianças dão ao que está no papel e a dedicada ao que aparece nos equipamentos modernos, como videogame e computador. Meu filho Maurício ouve música com três telas ligadas, joga videogame e estuda ao mesmo tempo. Para quem é mais velho parece estranho, mas as crianças de hoje conseguem fazer isso normalmente. Quando uma criança pega um gibi, contudo, ela se isola totalmente do mundo. Fica completamente mergulhada na história. Com isso, o gibi ou o livro ajudam os pequenos a se concentrar. O cérebro deles estabelece uma prioridade, o que é ótimo para o aprendizado e a memória. Se eles lerem gibis cinco minutos por dia, o papel nunca vai desaparecer.
Seu filho Marcelo foi sequestrado no ano passado. Como ele assimilou o que aconteceu? Apesar de ter ficado quase vinte dias em cativeiro, o Marcelo não carregou nenhuma sequela. Um dos fatores para isso é que ele ficou o tempo todo com um irmão menor e a mãe, que brigou para ir junto. Graças à presença dela, o Marcelo nunca se sentiu totalmente ameaçado ou sem proteção. Isso bloqueou qualquer dano à cabeça dele. Outro fator importante foi que, dois dias depois do estouro do cativeiro, eu peguei meu filho, coloquei-o no avião e o levei para Boston, onde eu tinha uma palestra para fazer na Universidade Harvard. Foi uma viagem maravilhosa. Ele conheceu Nova York, jogou bola e assistiu a minha conferência. Foi uma das melhores coisas que fiz, porque com isso ele aprendeu que os momentos ruins são finitos. Depois, Marcelo juntou tudo o que viveu nesses dias agitados e cresceu um pouquinho mais. As coisas ruins, dramáticas, ficaram na cabeça dele como se houvesse cortinas tapando. Se eu o tivesse prendido em casa, contratado um monte de seguranças e o proibido de sair, apenas teria ampliado aquela experiência traumática. Como não fiz isso, a ferida cicatrizou.A alta criminalidade nas cidades brasileiras impede as crianças de brincar na rua ou no campinho, como a Mônica e o Cebolinha. Chegou a hora de mudar o cenário das histórias? Detesto me sentir refém em uma cidade como São Paulo. Fico triste quando ando no meu bairro e vejo que as casas viraram casamatas. Imóveis lindos estão completamente cercados por muros. Briguei muito comigo mesmo para aceitar blindar meu carro. Não queria fazer isso. Tenho ainda um Fusquinha amarelo que não é blindado. Quando o dirijo, o pessoal da empresa me chama de louco. Viver acuado é aceitar uma violência contra nós mesmos. É paradoxal. Evoluímos com tanta firmeza, criando tantas coisas para as crianças, e ao mesmo tempo mostramos tanta fraqueza diante da violência. São coisas que não batem. As crianças devem ter o direito de brincar na rua com segurança. Viajo muito por outros países e percebo que as pessoas não sentem essa tensão que vivemos aqui. Um dia temos de dar um jeito nessa situação.
O senhor tem dez filhos com quatro mulheres, onze netos e um bisneto. Como se lida com uma família tão numerosa? Ninguém pode pensar hoje que casou por toda a vida. As crianças perceberam isso. Pela minha experiência, quando os pais resolvem bem a situação entre eles, os pequenos não estão nem aí. São fortes, adaptam-se. Mesmo se porventura levam uma pancada, recobram-se e voltam ao normal. Quando meus filhos se juntam, são irmãos do mesmo jeito. Claro que às vezes um deles pode ficar com ciúme. É inevitável. Mas dá para contornar. Hoje somos um núcleo familiar em que há hierarquia e disciplina. Há inúmeros casos como o meu. Ao atravessarem essas mudanças, as crianças de hoje em dia ganham muito em autoestima. Aprendem que são capazes de resistir às mudanças e até de ensinar lições aos pais.
[Fonte: revista VEJA]
terça-feira, 10 de fevereiro de 2009
De volta ao passado - 2 (U2)
Mais uma da série...
... de volta ao passado! Estrelando: U2
(Clique para ampliar)
[Fonte: Kibe Loco]
... de volta ao passado! Estrelando: U2
(Clique para ampliar) [Fonte: Kibe Loco]
Centro de Porto Alegre: Antes e Depois
Um projeto de quase três décadas para retirar os vendedores ambulantes que congestionam as ruas centrais começou a tomar forma às 9h, com a inauguração do Camelódromo. Localizado entre a Rua Voluntários da Pátria e a Avenida Julio de Castilhos, o Centro Popular de Compras – como é conhecido formalmente o Camelódromo – abriga cerca de 800 lojas, pertencentes a camelôs que possuíam barracas em frente ao Mercado Público, na área mais central da cidade. Agora as bancas estão proibidas de se instalar ali e a praça foi devolvida ao convívio da comunidade. Duas viaturas da BM e uma da Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC) têm fiscalizado a região, para impedir que os ambulantes voltem a se instalar.
Os planos da prefeitura são ambiciosos, beiram a nostalgia. A ideia é fazer com que a Praça XV volte 40 anos no tempo. Na década de 60, charmosas mulheres e elegantes senhores em fatiotas desfrutavam de saladas de fruta ou chopes à sombra de árvores que emolduravam os vários cafés da região.
[Fonte: Humberto Trezzi]
***
Eu confesso: odeio andar no Centro de Porto Alegre. Segurança nota zero, atrolho de gente se pexando e acima de tudo, nada que me saltasse aos olhos em termos de lazer (PS: porque só o Centro de POA é assim? Porque em outros estados tu ainda tem algo pra fazer, sair, etc? Um dia ainda entenderei isso). O que eu faço no Centro se resume a algumas consultas no meu médico que tem consultório lá, uma ida ao Tudo Fácil pra atualizar um documento ou então... err... nada mais, eu acho.
E o meu repúdio pelo Centro se devia em grande parte aos... CAMELÔS. Mas de antemão já digo: até não tenho nada contra os mesmos (até porque algo CONTRA mesmo, só tenho contra os flanelinhas. Esses sim, eu tenho ódio e pavor. Mas isso já é assunto prum outro post), mas andar por lá tendo que desviar de bancas irregulares, produtos piratas e diabo a quatro, é(era) dose. Graças a Deus portanto que fizeram esse Camelódromo e que eles foram pra lá. Acabou a bagunça no Centro, e agora talvez o Centro saia da nota "zero" e vá pra "cinco" em termos de acessibilidade, segurança e calma.
1x0 pro responsável por essa "limpeza" nas proximidades do Mercado Público - Praça XV. Espero que agora; quando tiver que ir ao Centro; eu possa ir mais tranquilo e não ter que me desviar de nada, pois era o fim da picada. Demorou, mas enfim saiu. Parabéns pelo projeto, que o Camelódromo fique bem bonitinho lá aonde ele tá agora e muito obrigado por revitalizarem o Centro de POA. Aleluia.
► Crônicas do David Coimbra - 11
[O SEGREDO DE LETÍCIA]
Depois da noite encantada em que eles se conheceram e passaram parte conversando, parte se beijando, Leo tomou as mãos de Letícia nas suas e sussurrou:
- Me diga que você é colorada! Por favor! Me diga que você é colorada!
Letícia sorriu. E depois miou:
- Sooou...
Leo olhou para o Firmamento:
- Obrigado, Senhor! Encontrei a mulher perfeita!
Letícia sentiu o peito inflar de alegria. Gostava de ser a mulher perfeita. Só que não era – pelo menos não do ponto de vista de Leo. Na verdade, Letícia sempre fora gremista. Dissera-se colorada porque aquilo parecia tão importante para ele... Além disso, não ligava muito para futebol. Definia-se como gremista, mas estava longe de ser uma militante. Então, por que não fazer a alegria infantil daquele homem tão atencioso?
No encontro seguinte, ele lhe trouxe um mimo: um ursinho de pelúcia do Inter.
- Ó. Do nosso timão.
Letícia apertou o ursinho contra o peito:
- Que amooor...
A partir daquele dia, ele passou a chamá-la de Linda Vermelhinha. Continuaram se vendo cada vez com mais frequência. Começaram a namorar. Ele a levava ao Beira-Rio e a presenteava com novas camisetas do Inter, pratinhos do Inter, buttons do Inter. No aniversário dela, levou-a a um motel de luxo e, lá, deu-lhe de presente... uma calcinha do Inter!
- Veste, Linda Vermelhinha... - pediu, sôfrego, e ele mesmo tirou a roupa, menos os meiões do Inter, que usou durante toda a noite, esticadas até o joelho.
O namoro foi em frente. Com o passar dos anos, Letícia desenvolveu a impressão de que o coloradismo de Leo se acentuara. Ele parecia mais arrebatado a cada temporada. Só falava da sua paixão pelo Inter. Ou do seu horror ao Grêmio. Tamanha obsessão começou a irritá-la. E, aos poucos, ela, que antes era indiferente ao futebol, passou a torcer em silêncio pelo Grêmio... e contra o Inter.
Assim, o gremismo de Letícia foi se cevando surda e dolorosamente. Era um sentimento que crescia, que latejava, e do qual ela queria se livrar. Queria confessar a Leo que não era colorada, que jamais fora colorada e que, ao contrário, justamente por causa dele, tornara-se uma gremista acérrima. Mas outros sentimentos impediam que fizesse a confissão. O principal: ela amava Leo, fazia planos de casar-se com ele. Como poderia decepcioná-lo desta forma?
Angustiada, Letícia passou a gritar ao mundo o seu gremismo. Contava seu caso a todos. Todos: a família, os amigos, os colegas de serviço, a manicure, o porteiro. Em pouco tempo, só Leo não sabia. Leandro, seu melhor amigo, chegou a cogitar de contar tudo a ele, mas foi demovido pelos outros amigos.
- Depois eles reatam e você é que vira o vilão da história - argumentavam.
Letícia ia escondida aos jogos do Grêmio, guardava uniformes retrôs do time de Telê Santana na casa da irmã e escreveu “FBPA” na parte interna da bolsa.
Leo tornou-se motivo de chacota no bairro em que morava, na agência de publicidade em que trabalhava, no bar que frequentava.
Letícia não suportava mais aquela vida dupla. Queria dizer a verdade, queria viver em paz com sua consciência. Um dia, decidiu que contaria a Leo, mas naquele dia, justamente naquele dia, ele a pediu em casamento. Letícia foi acometida por uma crise de choro. Leo achou que fosse de alegria, era de angústia.
Como a maioria dos criminosos, ela passou a dar indícios de seus atos. Só se vestia de azul, arrumava desculpas para não acompanhar Leo nos jogos do Inter, uma manhã pegou-se assobiando vou torcer pro Grêmio bebendo vinho. Leo achava estranho, mas não podia admitir a terrível verdade. Até que, na manhã de um domingo de Gre-Nal, ele descobriu. Da maneira clássica: Letícia havia deixado o celular sobre a mesa e um de seus amigos gremistas enviou-lhe uma mensagem: “Até a pé nós iremos!” E Leo viu. Por algum motivo, desconfiou daquela mensagem que a noiva recebia numa manhã de domingo, tomou o celular e leu a frase. Quando Letícia chegou, vinda de outro aposento da casa, ele estava à beira das lágrimas.
- O que é isso? - gritava, mostrando o celular. - O que é isso??? Não vá me dizer que você é uma... - engoliu em seco - ... uma... uma... gremista!
Letícia entrou em pânico. Fora descoberta. Ia perder seu noivo, seu futuro marido, seu amor. Pensou rápido. E rápido agiu.
- Não! - ela gritou. - Isso é um código. Confesso: eu tenho um amante. Estou deixando dele, não o amo, amo você, mas a verdade é que tenho, tenho sim, tenho um amante! Eu tenho! Me perdoa, Leo! Me perdoa!
Leo ficou arrasado, chorou, descabelou-se, mas disse que a perdoaria. Com uma condição: ela teria que ir ao Gre-Nal com a camiseta do Inter, com a bandeira do Inter, torcer pelo Inter. Letícia foi. Vestiu vermelho e arrastou-se para o Gre-Nal, o coração estilhaçado. Sentados os dois nas arquibancadas, enrolados na bandeira colorada, Leo abraçou Letícia e a beijou no rosto. Achando-se traído por um mero homem de carne e osso, não por uma instituição, ele suspirou, aliviado, e declarou, com lágrimas nos olhos:
- Eu sabia que podia confiar em você, Linda Vermelhinha. Minha Linda Linda Linda Vermelhinha...
[Blog do David Coimbra - www.clicrbs.com.br/blogdodavid]
Depois da noite encantada em que eles se conheceram e passaram parte conversando, parte se beijando, Leo tomou as mãos de Letícia nas suas e sussurrou:- Me diga que você é colorada! Por favor! Me diga que você é colorada!
Letícia sorriu. E depois miou:
- Sooou...
Leo olhou para o Firmamento:
- Obrigado, Senhor! Encontrei a mulher perfeita!
Letícia sentiu o peito inflar de alegria. Gostava de ser a mulher perfeita. Só que não era – pelo menos não do ponto de vista de Leo. Na verdade, Letícia sempre fora gremista. Dissera-se colorada porque aquilo parecia tão importante para ele... Além disso, não ligava muito para futebol. Definia-se como gremista, mas estava longe de ser uma militante. Então, por que não fazer a alegria infantil daquele homem tão atencioso?
No encontro seguinte, ele lhe trouxe um mimo: um ursinho de pelúcia do Inter.
- Ó. Do nosso timão.
Letícia apertou o ursinho contra o peito:
- Que amooor...
A partir daquele dia, ele passou a chamá-la de Linda Vermelhinha. Continuaram se vendo cada vez com mais frequência. Começaram a namorar. Ele a levava ao Beira-Rio e a presenteava com novas camisetas do Inter, pratinhos do Inter, buttons do Inter. No aniversário dela, levou-a a um motel de luxo e, lá, deu-lhe de presente... uma calcinha do Inter!
- Veste, Linda Vermelhinha... - pediu, sôfrego, e ele mesmo tirou a roupa, menos os meiões do Inter, que usou durante toda a noite, esticadas até o joelho.
O namoro foi em frente. Com o passar dos anos, Letícia desenvolveu a impressão de que o coloradismo de Leo se acentuara. Ele parecia mais arrebatado a cada temporada. Só falava da sua paixão pelo Inter. Ou do seu horror ao Grêmio. Tamanha obsessão começou a irritá-la. E, aos poucos, ela, que antes era indiferente ao futebol, passou a torcer em silêncio pelo Grêmio... e contra o Inter.
Assim, o gremismo de Letícia foi se cevando surda e dolorosamente. Era um sentimento que crescia, que latejava, e do qual ela queria se livrar. Queria confessar a Leo que não era colorada, que jamais fora colorada e que, ao contrário, justamente por causa dele, tornara-se uma gremista acérrima. Mas outros sentimentos impediam que fizesse a confissão. O principal: ela amava Leo, fazia planos de casar-se com ele. Como poderia decepcioná-lo desta forma?
Angustiada, Letícia passou a gritar ao mundo o seu gremismo. Contava seu caso a todos. Todos: a família, os amigos, os colegas de serviço, a manicure, o porteiro. Em pouco tempo, só Leo não sabia. Leandro, seu melhor amigo, chegou a cogitar de contar tudo a ele, mas foi demovido pelos outros amigos.
- Depois eles reatam e você é que vira o vilão da história - argumentavam.
Letícia ia escondida aos jogos do Grêmio, guardava uniformes retrôs do time de Telê Santana na casa da irmã e escreveu “FBPA” na parte interna da bolsa.
Leo tornou-se motivo de chacota no bairro em que morava, na agência de publicidade em que trabalhava, no bar que frequentava.
Letícia não suportava mais aquela vida dupla. Queria dizer a verdade, queria viver em paz com sua consciência. Um dia, decidiu que contaria a Leo, mas naquele dia, justamente naquele dia, ele a pediu em casamento. Letícia foi acometida por uma crise de choro. Leo achou que fosse de alegria, era de angústia.
Como a maioria dos criminosos, ela passou a dar indícios de seus atos. Só se vestia de azul, arrumava desculpas para não acompanhar Leo nos jogos do Inter, uma manhã pegou-se assobiando vou torcer pro Grêmio bebendo vinho. Leo achava estranho, mas não podia admitir a terrível verdade. Até que, na manhã de um domingo de Gre-Nal, ele descobriu. Da maneira clássica: Letícia havia deixado o celular sobre a mesa e um de seus amigos gremistas enviou-lhe uma mensagem: “Até a pé nós iremos!” E Leo viu. Por algum motivo, desconfiou daquela mensagem que a noiva recebia numa manhã de domingo, tomou o celular e leu a frase. Quando Letícia chegou, vinda de outro aposento da casa, ele estava à beira das lágrimas.
- O que é isso? - gritava, mostrando o celular. - O que é isso??? Não vá me dizer que você é uma... - engoliu em seco - ... uma... uma... gremista!
Letícia entrou em pânico. Fora descoberta. Ia perder seu noivo, seu futuro marido, seu amor. Pensou rápido. E rápido agiu.
- Não! - ela gritou. - Isso é um código. Confesso: eu tenho um amante. Estou deixando dele, não o amo, amo você, mas a verdade é que tenho, tenho sim, tenho um amante! Eu tenho! Me perdoa, Leo! Me perdoa!
Leo ficou arrasado, chorou, descabelou-se, mas disse que a perdoaria. Com uma condição: ela teria que ir ao Gre-Nal com a camiseta do Inter, com a bandeira do Inter, torcer pelo Inter. Letícia foi. Vestiu vermelho e arrastou-se para o Gre-Nal, o coração estilhaçado. Sentados os dois nas arquibancadas, enrolados na bandeira colorada, Leo abraçou Letícia e a beijou no rosto. Achando-se traído por um mero homem de carne e osso, não por uma instituição, ele suspirou, aliviado, e declarou, com lágrimas nos olhos:
- Eu sabia que podia confiar em você, Linda Vermelhinha. Minha Linda Linda Linda Vermelhinha...
[Blog do David Coimbra - www.clicrbs.com.br/blogdodavid]
sábado, 7 de fevereiro de 2009
De volta ao passado - 1 (Garrincha)
Já imaginaram o que poderia ser lido em um blog de uma médica que serviu durante a Segunda Guerra Mundial? Ou, quem sabe, a página de um jornalista durante a crise de 1929? E se pudéssemos ler os tópicos de uma comunidade no Orkut de quem... sei lá... viu Garrincha jogar?
(Clique para ampliar)
Como sou fã de pessoas inteligentes e tiradas criativas, reproduzo aqui no Cultura Pop sobre Tudo e Nada uma brincadeira que o Antonio Tabet do Kibe Loco faz no blog dele. Humor e criatividade de qualidade, vale a pena divulgar. E vai virar post fixo aqui. Acompanhem. Hilário.
(Clique para ampliar)Como sou fã de pessoas inteligentes e tiradas criativas, reproduzo aqui no Cultura Pop sobre Tudo e Nada uma brincadeira que o Antonio Tabet do Kibe Loco faz no blog dele. Humor e criatividade de qualidade, vale a pena divulgar. E vai virar post fixo aqui. Acompanhem. Hilário.
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