E foi pensando nisso que hoje, dia 22/04/2009 inauguro o Primeiro tópico de... ENTREVISTAS.
Quem inaugurará? José Padilha te diz algo? Sabe quem é o cara? Pois bem, é o diretor de maior evidência no Brasil atualmente (sim, mais do que Fernando Meirelles). O diretor que bateu (oficialmente, sem contar as cópias piratas, óbvio) o recorde de 3 milhões de pessoas no Brasil com um único filme. O diretor que concebeu o desde já icônico, TROPA DE ELITE!
Nesta entrevista a seguir feita pela SET, Padilha fala de sua volta aos cinemas com o documentário Garapa, abre o jogo sobre seus projetos hollywoodianos e a sequência estrelada pelo Capitão Nascimento.***
Vamos começar de forma bem direta: Garapa foi feito como uma resposta aos críticos que chamaram Tropa de Elite de fascista?
Garapa não tem nada a ver com Tropa de Elite. Na verdade, ele começou antes do Tropa de Elite, então a pergunta já foi por água abaixo (risos). Os dois filmes foram rodados em paralelo e não pauto meus filmes pelo que as outras pessoas pensam. Se fizesse isso, a quantidade de longas que ia precisar fazer para responder ia ser muito grande. Então, prefiro filmar e deixar as pessoas falarem.
Lembro que não época de Tropa de Elite, Rodrigo Pimentel (co-autor do filme) queria que você fizesse um documentário sobre o quadrilátero da maconha no Nordesta, mas você achou perigoso. Mudou de idéia?
Não, não vou fazer. Você tem de entender que o Rodrigo sempre tenta me matar e eu tento escapar (risos).
(José Padilha à esquerda e Rodrigo Pimentel à direita) Então qual o tema do próximo documentário?
É sobre antropologia dos índios Ianomâmis. Ou seja, nada a ver com nada. Meus projetos não precisam necessariamente ter uma ligação. A relação entre eles é na escolha do ponto de vista do personagem central da história que estou escrevendo. Não tenho interesse de contar a história da violência policial sob o ponto de vista de um sociólogo. Quero sempre entrar direto no assunto.
Mas como surgiu Garapa?
A idéia do Garapa é o seguinte. Todo mundo sabe que a fome crônica é um problema mundial em larga escala. Acho que para você entender, você precisa ver de perto como a fome afeta uma família. Então, a idéia do filme foi essa: olhar para esse problema do ponto de vista de quem lida com ele através de uma série de construções intelectuais que vêm de fora.
Qual foi a estrutura do documentário?
Na hora de filmar, procurei o Ibase (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas), ONG fundada pelo Betinho, explique o projeto para Francisco Menezes, diretor do Ibase e economista respeitado na área. Ele falou: "Olha, se você for para o Ceará, consegue filmar em Fortaleza, que é uma grande cidade, numa cidade pequena e no meio rural." Você tem trêm condições no mesmo estado, muito embora eu conseguisse rodar no Rio de Janeiro se quisesse. Mas lá tem esse aspecto. Fomos para lá com uma equipe de cinco pessoas e procuramos as ONGs para começar a filmar. Não houve uma triagem de personagens.

Mesmo com o casal de Fortaleza?
Sobretudo o casal de Fortaleza. Ela entrou na ONG, pedimos para filmar e pronto. Houve uma certa aleatoriedade e nem tínhamos dinheiro para ficar viajando de um lado para o outro. Infelizmente, encontrar pessoas com fome não é algo tão difícil. Encontrei várias famílias assim na capital. Vi mães revoltadas porque as aulas não começaram, porque os filhos comem na escola. Garanto que aqui pertinho, no Rio, tem situação parecida.
Em determinado momento do filme, você fala que deu um remédio para um chefe de família tratar o dente de uma das crianças. Você presenciou situações pesasas, mas como fez para não interferir mais, porque é preciso um certo distanciamento?
Primeiro, você tem que entender que interfere. Essa interferência que você citou, em particular, achei importante manter para o público perceber que aquele pai não sabe a diferença entre um anti-inflamatório e um analgésico. A fome não é apenas falta de comida, mas é falta de geladeira, de roupa, de remédio. A gente interferiu mais de uma vez e era difícil filmar mesmo. Acordávamos bem cedo, tomávamos um supercafé da manhã, saía cinco da manhã, passava o dia filmando e ia embora, só jantando à noite. Não levamos comida para as locações, então não havia comida para pegar e doar. E a gente sabia que, quando as filmagens acabassem, poderíamos ajudar propriamente. E, finalmente, seria muito ridículo considerar a mim mesmo. "Ah, tou me sentindo mal pra caralho porque não estou ajudando!" Peraí, e os caras? Qualquer efeito psicológico que isso possa ter tido em mim ou na equipe de filmagem era desprezível e irrelevante em relação ao que está acontecendo com aquelas pessoas. Outra coisa que ajudava era trabalhar sem parar. Eram quinze latas de filme por dia, então não havia como pensar. Foram quatro semanas de filmagens para completar o ciclo da família.
O Fome Zero aparece em algumas situações do filme, mas não é um pingo no oceano de miséria da região?
O filme, por definição, trata de famílias que estão numa condição de insegurança alimentar grave. Se você pegar os dados, verá que o Fome Zero atende cerca de 55 milhões de pessoas. Deste universo, 11 milhões estão em condição de insegurança alimentar grave. Ou seja, para elas, o Fome Zero não resolve. Mas faz uma diferença para 44 milhões. Pode ser a diferença entre a miséria e a pobreza. Então, é preciso tomar cuidado. Não é que não resolva em todos os casos. É preciso olhar para a renda das famílias. Aquela que tem uma renda de 100 reais e recebe 50, pode pensar: "Talvez dê para sobreviver." A família de renda zero e recebe 50 consegue sobreviver doze dias. O restante fica com fome. O projeto não tem um impacto igual em todas as famílias.

As pessoas sabiam quem era você, o que estava acontecendo?
Elas sabiam. Difícil era explicar para as pessoas o que você estava fazendo exatamente. As pessoas entendem quando falo que "quero filmar a vida de vocês." Mas elas imediatamente acham que aquilo vai parar na rede Globo. Então, não é difícil explicar que aquilo vai ser um filme e será visto. Difícil é explicar que ele não vai ser visto (risos)! É o contrário. "Vou filmar sua família". "Quando é que passa?". "Ah, não passa." Todo documentário é assim. Precisa explicar que não vai aparecer na Globo.
Como foi a exibição em Berlim?
Foi superlegal. As exibições estavam lotadas, ninguém saiu da sala, apesar da dureza do filme. Quando acabou, era aquele silêncio sepulcral. Apenas quando eu entrava, todo mundo aplaudia. Então, teve o efeito que imaginamos. Garapa não é um filme para gostar.
Como consegue equilibrar dois projetos simultâneos?
Se você tiver um projeto de cada vez no cinema brasileiro, está liquidado. Porque você pode ficar anos parado. Se você ama filmar, precisa ter mais de uma bola no ar.
Mas você não deve ter esse problema depois de Tropa de Elite.
Não, você sempre precisa ter mais de um projeto no ar. Antes ou depois de Tropa de Elite. Em Hollywood, onde tem mais dinheiro para fazer cinema, de cada 10 projetos apenas um vira filme. Então, se não tiver quatro, cinco, você pode passar anos sem fazer nada. O cinema, no geral, tem de ser assim. O que decide qual projeto ficará pronto primeiro é o dinheiro. Eu não posso reclamar, todo ano tenho um filme. Tropa de Elite, claro, abre portas, facilita. É mais fácil captar recursos para toda a produtora, surgem convites para filmar fora do Brasil. Não resta a menor dúvida. Mas se eu achar que posso ficar sentado que as coisas vão acontecer, vou acabar sentado apenas.

Qual foi sua reação quando Tropa de Elite ganhou Berlim? Foi uma surpresa tão grande?
Não foi tão surpreendente para mim. Quem estava no Brasil ficou surpreendido muito por causa da cobertura da imprensa. Lembro até hoje quando Cidade de Deus estreou em Cannes e um dos maiores jornais do Brasil veio com a manchete: "Longa brasileiro é recebido com frieza". E foi o maior filme do festival. Então, sempre tem esse complexo de vira-lata. A gente teve uma crítica muito ruin da Variety (revista da indústria cinematográfica americana), escrita por um cara que não viu o filme. Ele viu com a legenda em alemão. Quando mostramos o filme com legendas em inglês, a crítica do cara já tinha saído. Então ele olhou para aquele troço, conversou com alguns jornalistas que estavam ali naquela hora e escreveu. Mas Tropa foi o segundo melhor filme numa pesquia que realizaram no festival. A crítica alemã gostou muito, o público também, então achei que poderíamos ganhar algum prêmio. Mas não imagino que um prêmio seja resposta a alguma coisa. Gosto de debater idéias.
O sucesso de Tropa fora do país tem rendido vários boatos com seu nome envolvido. O que há de verdade neles?
Qualquer diretor em Hollywood tem vários projetos, porque o cara sabe que não controla qual vai virar filme. Eu estou fazendo o seguinte: escrevendo um roteiro chamado Marching Powder, adaptação do livro de Thomas McFadden, para a produtora Plan B (produtora de Brad Pitt), cujo ator principal é o Don Cheadle. É sobre um traficante inglês que é preso na Bolívia. Tenho outro projeto na Lionsgate, chamado Agent in Place, e que um roteirista está escrevendo e estou trabalhando com ele neste desenvolvimento. Tenho um projeto na Universal, Sigma Protocol (baseado no livro O Protocolo Sigma, de Robert Ludlum, mesmo escritor da série de espionagem Bourne), que tem os roteiristas de Homem de Ferro. E há um na Warner Bros chamado The Willing Patriot. Isso é normal. Ainda tenho os projetos no Brasil, o roteiro de Tropa de Elite 2, junto com o Bráulio (Mantovani), tenho Nunca Antes na História Deste País (longa sobre a política brasileira), este documentário que estou montando... Todos esses por aqui vão sair, mas não sei o que vai acontecer com os de lá de fora.
Mas você tem uma programação na cabeça, não é?
Depende. Quero filmar Tropa de Elite 2 em Janeiro e Fevereiro ano que vem. E que lançar Nunca Antes na História Deste País em cima das eleições. Vou conseguir? Não sei. Depende de várias coisas. Não sei quando vão rolar os projetos hollywoodianos, então nem fico contando. Quando acontecer, decido o que fazer.

Como você está se sentindo nesta engrenagem americana?
É bem diferente. Aqui eu debato comigo mesmo, com as pessoas com quem trabalho e, no final das contas, eu decido. Em Hollywood, não é assim. O ator vai querer ver o que ele deseja, porque tem poder junto ao estúdio, que por sua vez, vai querer dizer o que quer. É uma negociação. Mas não acho que o cara que trabalha em Hollywood é melhor ou pior que o cara que não trabalha lá, ok? Glauber Rocha nunca filmou em Hollywood e é um dos maiores cineastas da história. É uma besteira. Hollywood não é um objetivo para mim. Agora, pessoalmente, é uma experiência interessante e estou aprendendo bastante ao desenvolver projetos por lá. Coisas que posso aplicar aqui. Você entende porque há tantas fórmulas. A pessoa é muito inocente quando fala que "o cinema americano é formulaico". Como um cara vai investir 100 milhões de dólares sem olhar o ator, o diretor? É normal. E vale lembrar que o cinema independente americano, sem nenhuma ligação com Hollywood e sem as fórmulas, já é maior que todo o cinema brasileiro.
Você falou que deseja rodar Tropa de Elite 2 no começo do ano que vem. Então quer dizer que há um roteiro em estágio avançado?
Não, isso quer dizer que tenho um roteirista muito bom e que confio muito nele (risos). Evidentemente, não vou te dizer sobre o que se trata. A idéia é uma original. Montei uma história na cabeça com a ajuda do Bráulio que achamos ser relevante e importante de ser contada. Conversamos com o pessoal todo envolvido, mas não vou revelar se não você mata o que é o filme. Não queremos fazer Tropa 2 apenas para fazer uma sequência. A gente quer fazer porque temos uma coisa para falar.
Não foi difícil convencer o Wagner Moura a voltar?
O Wagner é como eu, não faz um filme à toa. Ele faz porque interessa. Não é questão de convencimento, mas de achar a idéia boa. O Wagner é um superator que consegue fazer muita coisa, tem banda de rock, faz teatro. Então, qualquer pessoa que queira fazer um longa com ele precisa convencer que a história é interessante. Não daria para fazer Tropa de Elite sem algumas pessoas. Uma delas é o Wagner. Não quero deixar ninguém de fora.

Quer dizer que o elenco original está de volta?
Tem uns que morreram (risos).
Nunca se sabe... Em Hollywoood, tudo é possível.
Ah, mas isso aqui não é Hollywood.
[Fonte: revista SET]




