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quarta-feira, 22 de abril de 2009

► Entrevista - 1 (José Padilha)

Algumas pessoas me perguntam direto: "Jeferson, por que tu não coloca um tópico fixo no teu blog onde tenham entrevistas com personalidades para podermos ler e saber mais sobre tal pessoa? Eu sei que já tem o tópico de Biografias, mas tá faltando um de entrevistas, não acha?"

E foi pensando nisso que hoje, dia 22/04/2009 inauguro o Primeiro tópico de... ENTREVISTAS.

Quem inaugurará? José Padilha te diz algo? Sabe quem é o cara? Pois bem, é o diretor de maior evidência no Brasil atualmente (sim, mais do que Fernando Meirelles). O diretor que bateu (oficialmente, sem contar as cópias piratas, óbvio) o recorde de 3 milhões de pessoas no Brasil com um único filme. O diretor que concebeu o desde já icônico, TROPA DE ELITE!

Nesta entrevista a seguir feita pela SET, Padilha fala de sua volta aos cinemas com o documentário Garapa, abre o jogo sobre seus projetos hollywoodianos e a sequência estrelada pelo Capitão Nascimento.

***
Vamos começar de forma bem direta: Garapa foi feito como uma resposta aos críticos que chamaram Tropa de Elite de fascista?

Garapa não tem nada a ver com Tropa de Elite. Na verdade, ele começou antes do Tropa de Elite, então a pergunta já foi por água abaixo (risos). Os dois filmes foram rodados em paralelo e não pauto meus filmes pelo que as outras pessoas pensam. Se fizesse isso, a quantidade de longas que ia precisar fazer para responder ia ser muito grande. Então, prefiro filmar e deixar as pessoas falarem.

Lembro que não época de Tropa de Elite, Rodrigo Pimentel (co-autor do filme) queria que você fizesse um documentário sobre o quadrilátero da maconha no Nordesta, mas você achou perigoso. Mudou de idéia?

Não, não vou fazer. Você tem de entender que o Rodrigo sempre tenta me matar e eu tento escapar (risos).
(José Padilha à esquerda e Rodrigo Pimentel à direita)
Então qual o tema do próximo documentário?

É sobre antropologia dos índios Ianomâmis. Ou seja, nada a ver com nada. Meus projetos não precisam necessariamente ter uma ligação. A relação entre eles é na escolha do ponto de vista do personagem central da história que estou escrevendo. Não tenho interesse de contar a história da violência policial sob o ponto de vista de um sociólogo. Quero sempre entrar direto no assunto.

Mas como surgiu Garapa?

A idéia do Garapa é o seguinte. Todo mundo sabe que a fome crônica é um problema mundial em larga escala. Acho que para você entender, você precisa ver de perto como a fome afeta uma família. Então, a idéia do filme foi essa: olhar para esse problema do ponto de vista de quem lida com ele através de uma série de construções intelectuais que vêm de fora.

Qual foi a estrutura do documentário?

Na hora de filmar, procurei o Ibase (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas), ONG fundada pelo Betinho, explique o projeto para Francisco Menezes, diretor do Ibase e economista respeitado na área. Ele falou: "Olha, se você for para o Ceará, consegue filmar em Fortaleza, que é uma grande cidade, numa cidade pequena e no meio rural." Você tem trêm condições no mesmo estado, muito embora eu conseguisse rodar no Rio de Janeiro se quisesse. Mas lá tem esse aspecto. Fomos para lá com uma equipe de cinco pessoas e procuramos as ONGs para começar a filmar. Não houve uma triagem de personagens.


Mesmo com o casal de Fortaleza?

Sobretudo o casal de Fortaleza. Ela entrou na ONG, pedimos para filmar e pronto. Houve uma certa aleatoriedade e nem tínhamos dinheiro para ficar viajando de um lado para o outro. Infelizmente, encontrar pessoas com fome não é algo tão difícil. Encontrei várias famílias assim na capital. Vi mães revoltadas porque as aulas não começaram, porque os filhos comem na escola. Garanto que aqui pertinho, no Rio, tem situação parecida.

Em determinado momento do filme, você fala que deu um remédio para um chefe de família tratar o dente de uma das crianças. Você presenciou situações pesasas, mas como fez para não interferir mais, porque é preciso um certo distanciamento?

Primeiro, você tem que entender que interfere. Essa interferência que você citou, em particular, achei importante manter para o público perceber que aquele pai não sabe a diferença entre um anti-inflamatório e um analgésico. A fome não é apenas falta de comida, mas é falta de geladeira, de roupa, de remédio. A gente interferiu mais de uma vez e era difícil filmar mesmo. Acordávamos bem cedo, tomávamos um supercafé da manhã, saía cinco da manhã, passava o dia filmando e ia embora, só jantando à noite. Não levamos comida para as locações, então não havia comida para pegar e doar. E a gente sabia que, quando as filmagens acabassem, poderíamos ajudar propriamente. E, finalmente, seria muito ridículo considerar a mim mesmo. "Ah, tou me sentindo mal pra caralho porque não estou ajudando!" Peraí, e os caras? Qualquer efeito psicológico que isso possa ter tido em mim ou na equipe de filmagem era desprezível e irrelevante em relação ao que está acontecendo com aquelas pessoas. Outra coisa que ajudava era trabalhar sem parar. Eram quinze latas de filme por dia, então não havia como pensar. Foram quatro semanas de filmagens para completar o ciclo da família.

O Fome Zero aparece em algumas situações do filme, mas não é um pingo no oceano de miséria da região?

O filme, por definição, trata de famílias que estão numa condição de insegurança alimentar grave. Se você pegar os dados, verá que o Fome Zero atende cerca de 55 milhões de pessoas. Deste universo, 11 milhões estão em condição de insegurança alimentar grave. Ou seja, para elas, o Fome Zero não resolve. Mas faz uma diferença para 44 milhões. Pode ser a diferença entre a miséria e a pobreza. Então, é preciso tomar cuidado. Não é que não resolva em todos os casos. É preciso olhar para a renda das famílias. Aquela que tem uma renda de 100 reais e recebe 50, pode pensar: "Talvez dê para sobreviver." A família de renda zero e recebe 50 consegue sobreviver doze dias. O restante fica com fome. O projeto não tem um impacto igual em todas as famílias.


As pessoas sabiam quem era você, o que estava acontecendo?

Elas sabiam. Difícil era explicar para as pessoas o que você estava fazendo exatamente. As pessoas entendem quando falo que "quero filmar a vida de vocês." Mas elas imediatamente acham que aquilo vai parar na rede Globo. Então, não é difícil explicar que aquilo vai ser um filme e será visto. Difícil é explicar que ele não vai ser visto (risos)! É o contrário. "Vou filmar sua família". "Quando é que passa?". "Ah, não passa." Todo documentário é assim. Precisa explicar que não vai aparecer na Globo.

Como foi a exibição em Berlim?

Foi superlegal. As exibições estavam lotadas, ninguém saiu da sala, apesar da dureza do filme. Quando acabou, era aquele silêncio sepulcral. Apenas quando eu entrava, todo mundo aplaudia. Então, teve o efeito que imaginamos. Garapa não é um filme para gostar.

Como consegue equilibrar dois projetos simultâneos?

Se você tiver um projeto de cada vez no cinema brasileiro, está liquidado. Porque você pode ficar anos parado. Se você ama filmar, precisa ter mais de uma bola no ar.

Mas você não deve ter esse problema depois de Tropa de Elite.

Não, você sempre precisa ter mais de um projeto no ar. Antes ou depois de Tropa de Elite. Em Hollywood, onde tem mais dinheiro para fazer cinema, de cada 10 projetos apenas um vira filme. Então, se não tiver quatro, cinco, você pode passar anos sem fazer nada. O cinema, no geral, tem de ser assim. O que decide qual projeto ficará pronto primeiro é o dinheiro. Eu não posso reclamar, todo ano tenho um filme. Tropa de Elite, claro, abre portas, facilita. É mais fácil captar recursos para toda a produtora, surgem convites para filmar fora do Brasil. Não resta a menor dúvida. Mas se eu achar que posso ficar sentado que as coisas vão acontecer, vou acabar sentado apenas.


Qual foi sua reação quando Tropa de Elite ganhou Berlim? Foi uma surpresa tão grande?

Não foi tão surpreendente para mim. Quem estava no Brasil ficou surpreendido muito por causa da cobertura da imprensa. Lembro até hoje quando Cidade de Deus estreou em Cannes e um dos maiores jornais do Brasil veio com a manchete: "Longa brasileiro é recebido com frieza". E foi o maior filme do festival. Então, sempre tem esse complexo de vira-lata. A gente teve uma crítica muito ruin da Variety (revista da indústria cinematográfica americana), escrita por um cara que não viu o filme. Ele viu com a legenda em alemão. Quando mostramos o filme com legendas em inglês, a crítica do cara já tinha saído. Então ele olhou para aquele troço, conversou com alguns jornalistas que estavam ali naquela hora e escreveu. Mas Tropa foi o segundo melhor filme numa pesquia que realizaram no festival. A crítica alemã gostou muito, o público também, então achei que poderíamos ganhar algum prêmio. Mas não imagino que um prêmio seja resposta a alguma coisa. Gosto de debater idéias.

O sucesso de Tropa fora do país tem rendido vários boatos com seu nome envolvido. O que há de verdade neles?

Qualquer diretor em Hollywood tem vários projetos, porque o cara sabe que não controla qual vai virar filme. Eu estou fazendo o seguinte: escrevendo um roteiro chamado Marching Powder, adaptação do livro de Thomas McFadden, para a produtora Plan B (produtora de Brad Pitt), cujo ator principal é o Don Cheadle. É sobre um traficante inglês que é preso na Bolívia. Tenho outro projeto na Lionsgate, chamado Agent in Place, e que um roteirista está escrevendo e estou trabalhando com ele neste desenvolvimento. Tenho um projeto na Universal, Sigma Protocol (baseado no livro O Protocolo Sigma, de Robert Ludlum, mesmo escritor da série de espionagem Bourne), que tem os roteiristas de Homem de Ferro. E há um na Warner Bros chamado The Willing Patriot. Isso é normal. Ainda tenho os projetos no Brasil, o roteiro de Tropa de Elite 2, junto com o Bráulio (Mantovani), tenho Nunca Antes na História Deste País (longa sobre a política brasileira), este documentário que estou montando... Todos esses por aqui vão sair, mas não sei o que vai acontecer com os de lá de fora.

Mas você tem uma programação na cabeça, não é?

Depende. Quero filmar Tropa de Elite 2 em Janeiro e Fevereiro ano que vem. E que lançar Nunca Antes na História Deste País em cima das eleições. Vou conseguir? Não sei. Depende de várias coisas. Não sei quando vão rolar os projetos hollywoodianos, então nem fico contando. Quando acontecer, decido o que fazer.


Como você está se sentindo nesta engrenagem americana?

É bem diferente. Aqui eu debato comigo mesmo, com as pessoas com quem trabalho e, no final das contas, eu decido. Em Hollywood, não é assim. O ator vai querer ver o que ele deseja, porque tem poder junto ao estúdio, que por sua vez, vai querer dizer o que quer. É uma negociação. Mas não acho que o cara que trabalha em Hollywood é melhor ou pior que o cara que não trabalha lá, ok? Glauber Rocha nunca filmou em Hollywood e é um dos maiores cineastas da história. É uma besteira. Hollywood não é um objetivo para mim. Agora, pessoalmente, é uma experiência interessante e estou aprendendo bastante ao desenvolver projetos por lá. Coisas que posso aplicar aqui. Você entende porque há tantas fórmulas. A pessoa é muito inocente quando fala que "o cinema americano é formulaico". Como um cara vai investir 100 milhões de dólares sem olhar o ator, o diretor? É normal. E vale lembrar que o cinema independente americano, sem nenhuma ligação com Hollywood e sem as fórmulas, já é maior que todo o cinema brasileiro.

Você falou que deseja rodar Tropa de Elite 2 no começo do ano que vem. Então quer dizer que há um roteiro em estágio avançado?

Não, isso quer dizer que tenho um roteirista muito bom e que confio muito nele (risos). Evidentemente, não vou te dizer sobre o que se trata. A idéia é uma original. Montei uma história na cabeça com a ajuda do Bráulio que achamos ser relevante e importante de ser contada. Conversamos com o pessoal todo envolvido, mas não vou revelar se não você mata o que é o filme. Não queremos fazer Tropa 2 apenas para fazer uma sequência. A gente quer fazer porque temos uma coisa para falar.

Não foi difícil convencer o Wagner Moura a voltar?

O Wagner é como eu, não faz um filme à toa. Ele faz porque interessa. Não é questão de convencimento, mas de achar a idéia boa. O Wagner é um superator que consegue fazer muita coisa, tem banda de rock, faz teatro. Então, qualquer pessoa que queira fazer um longa com ele precisa convencer que a história é interessante. Não daria para fazer Tropa de Elite sem algumas pessoas. Uma delas é o Wagner. Não quero deixar ninguém de fora.


Quer dizer que o elenco original está de volta?

Tem uns que morreram (risos).

Nunca se sabe... Em Hollywoood, tudo é possível.

Ah, mas isso aqui não é Hollywood.



[Fonte: revista SET]

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

► Vale conferir - 11 (Entrevista com Maurício de Sousa)

Táí uma coisa que eu admito que sou fã, tenho coleção e volta e meia me pego lendo: gibis da Turma da Mônica. Aliás, que atire a primeira pedra quem não tem em casa uma única revistinha que seja da Mônica, do Cebolinha, do Cascão, da Magali e/ou do Chico Bento!? Nem que seja pra dar uma lidinha no banheiro? Hein!? Pois então, nostalgia pura é bobagem. Sou fãzaço. E por mais que possa soar piegas, eu falo: os meus filhos futuramente lerão gibis da Turma da Mônica. Assim como minha mãe me criou lendo pra mim as historinhas, farei o mesmo. Acho, ou melhor, não, não acho, tenho certeza que lendo-as, será um bom início para alfabetizar a criança com uma leitura leve, útil e didática. Enfim, continuando...

Só que ultimamente o Maurício de Sousa me surpreendeu. E de uma maneira um tanto chocante. Porque? Simplesmente porque Mônica, Cebolinha, Cascão e Magali... CRESCERAM! Pois é, cresceram. São pré-adolescentes e o gibi tradicional virou um... MANGÁ! Pois é, mangá. E agora eles se veem às voltas com assuntos mais sérios de serem tratatos. Inseguranças, beijos, dúvidas e afins. Confesso que não digeri isso muito bem, mas também não serei radical. Darei um tempo pra ver aonde isso vai dar. Aliás, no que depender das vendas, a idéia do Maurício tá indo muito bem, obrigado. Pois os mangás da Turma estão vendendo quase o dobro dos gibis tradicionais com eles crianças. Enfim, é esperar e ver o resultado, não é mesmo? Portanto, me convença, Maurício. Me mostre que sua ideia veio para ficar. Combinado? rsrs

Abaixo, segue uma entrevista bem esclarecedora com o criador da Turma da Mônica à revista VEJA. Muito boa entrevista por sinal. Por isso que sou fã do cara. Vida longa à Turma da Mônica e à Maurício de Sousa.

***
O desenhista Mauricio de Sousa é o criador do personagem infantil brasileiro de maior sucesso em todos os tempos, a Mônica. Agora, numa manobra incomum no mundo dos quadrinhos, ele acaba de reinventá-la. Na revista Mônica Jovem, já na quinta edição, a menina dentuça e voluntariosa se transformou numa adolescente sensual, que veste minissaia e beija os rapazes na boca. O sucesso da publicação é estrondoso, com 410 000 exemplares vendidos, contra 200 000 que costuma vender o gibi da Mônica ainda criança. A mudança da personagem, alega Mauricio, foi uma forma de se adaptar às transformações de uma sociedade em que a infância é cada vez mais curta. "Se antes adolescentes de 14 anos ainda liam e gostavam dos meus gibis, hoje eles começam a deixar de lê-los aos 7", ele diz. Aos 73 anos, Mauricio falou a VEJA do futuro dos gibis, da experiência dolorosa de ter um filho sequestrado e de sua família numerosa.
Como explicar que os gibis da Mônica adolescente vendam o dobro dos da Mônica criança? Em cinco décadas, uma mudança extraordinária aconteceu no nosso público. Se antes adolescentes de 14 anos ainda liam e gostavam dos meus gibis, hoje eles começam a deixar de lê-los aos 7. Aos poucos, passam a considerar a Turma da Mônica coisa de criança e a comprar mangás japoneses. Quando estão com 10 anos, já se assumem como jovens. São os pré-adolescentes, meninos e meninas com preocupações e vontades diferentes daquelas que havia quando a Mônica foi publicada pela primeira vez. A infância, portanto, encolheu. Há mais ou menos cinco anos, comecei a pensar em uma maneira de não perder esses leitores. Minha solução foi oferecer a eles um pouco do universo jovem, que até então era reservado aos mais velhos. Pegamos os tradicionais personagens da Turma da Mônica e os inserimos em histórias com uma boa dose de relacionamento. Eles agora protagonizam cenas de ciúme, sentem atração pelo outro sexo e ficam inseguros no grupo. Estão com os hormônios pipocando e não sabem o que fazer com isso. No quarto número, colocamos a Mônica beijando na boca o Cebolinha, agora chamado de Cebola. Deu supercerto. Crianças de 7 anos voaram para o mangá como abelhas no mel. Leem as histórias e se projetam nos nossos personagens. As meninas não veem a hora de ser como a Mônica jovem: descolada, bonitinha, moderninha.

Estamos perdendo anos preciosos da infância? Essa melancolia que vejo em muitos adultos não faz sentido. Nada está sendo perdido. A questão é que tudo ficou mais intenso, condensado.
A infância diminuiu em quantidade, mas ganhou em qualidade. As crianças de hoje aproveitam mais e melhor o tempo e se tornam cidadãs e se formam como ser humano antes do tempo. Logo, logo, será preciso adiantar as datas para que possam entrar mais cedo na faculdade. Elas fazem tudo ao mesmo tempo e não se queixam disso. Não têm preguiça. Meu filho Marcelinho, de 10 anos, está passando alguns dias em uma cidade pequena no interior da Bahia. Está adorando conviver com um monte de crianças com bagagem cultural diferente. Brinca na rua, nada no rio, anda de jegue e joga bola livremente. A qualidade dessa experiência pela qual ele está passando é fantástica. O Marcelo está fazendo as coisas que eu fiz quando era pequeno. Mas ele não precisa passar vários anos da vida fazendo isso. Pode ficar apenas dez dias. Quando voltar a São Paulo, retornará para as aulas de inglês e será novamente um dos campeões de xadrez da escola. Jogará videogame e assistirá à novela. Então essa experiência na Bahia se somará às outras. É uma vida vibrante. O Marcelo não é excepcional. Todas as crianças hoje o são, mesmo as que moram em bairros pobres e favelas.
O senhor foi criticado quando criou a Mônica jovem? No Orkut, teve gente dizendo que eu apelei, que estava expondo as crianças a algo nocivo. Pura besteira. Os pequenos não entendem que uma roupa curta ou um decote têm algo a ver com sexualidade. Eles interpretam isso como algo fashion, colorido, quase uma mensagem gráfica. Outros disseram que eu devia estar sob efeito de alguma droga, que eu tinha matado a Mônica. Esquecem ou não percebem que nosso trabalho sempre tem a família como foco principal. Acontece que nas casas de hoje se pode conversar sobre tudo: sexo, drogas, violência. Se o pai não puxa esses assuntos, o filho de 5 anos faz isso por ele. É preciso parar de tratar as crianças como seres inferiores, sem senso crítico, sem experiência de vida. Tudo pode virar tema. Não é preciso censurar, apenas deve-se tomar cuidado para usar uma linguagem correta. Em 2004, decidimos que o Xaveco, amigo do Cebolinha e do Cascão, seria filho de pais separados. Ele passaria alguns dias com o pai e outros com a mãe, normalmente. Depois que publicamos a primeira história do Xaveco, nós nos sentamos e ficamos esperando os e-mails e cartas de reclamação. Não houve um único sequer. É um exemplo claro de como o mundo mudou.

O Menino Maluquinho, criação do cartunista Ziraldo, é filho de pais separados e vai fazer trinta anos em breve... O Ziraldo avança mais do que eu. Tenho de ser mais cuidadoso. No estúdio, no parque de diversões e nos escritórios de apoio, temos 500 pessoas trabalhando. Ainda há os funcionários da gráfica e das empresas que fazem os brinquedos. É uma responsabilidade muito grande. Tem gente pedindo para eu criar um personagem gay. Esse tema ainda é muito novo. Mas eu sei que, no futuro, se essa tendência continuar, será natural ter um homossexual na Turma. No meu estúdio, digo que não devemos levantar uma bandeira e ir à frente de uma passeata. Devemos segurar a bandeira quando ela já está passando. Precisamos falar a língua do dia e da hora, mas tomando certos cuidados. Foi com essa fórmula que construí minha carreira.
O senhor já pensou em criar um personagem rebelde ou fazer histórias para adultos com mais realismo? Confesso que não saberia fazer isso. Minhas histórias sempre têm uma preocupação, uma proposta de futuro. Tenho para com meus personagens uma atitude parecida com a que exerço com meus filhos. Às vezes, convoco um deles para um sermão, pedindo que se comporte melhor. Muita gente reclama que eu deveria mostrar coisas negativas, como miséria e fome. Também não é a nossa proposta. Durante a II Guerra, todos os personagens dos quadrinhos americanos foram para o campo de batalha. Todos menos o Ferdinando, do Al Capp. Quando perguntaram ao desenhista se o personagem era contra os Estados Unidos, Al Capp respondeu que o soldado que lia o jornal na trincheira não queria saber de guerra. Ele precisava, sim, é de algo gostoso, bucólico, que o fizesse lembrar que tinha um lugar para retornar quando o conflito acabasse. É essa, um pouco, a nossa ideia. Promovemos lazer, entretenimento e diversão. O resto, a criança encontra na televisão ou na esquina.

Chico Bento é um personagem rural em um país no qual a maior parte da população é urbana. O personagem ainda faz sentido? Chico Bento não vai sumir, porque as pessoas estão retornando ao campo. Não querem viver em uma tapera, mas almejam um lugar com qualidade de vida, perto da natureza. É isso que o Chico representa. Se pudesse, eu me mudaria para Caçapava, onde tenho uma chácara. Nos últimos anos, expulsei meus roteiristas de São Paulo. Eles trabalham em Porto Alegre, Ribeirão Preto, Jundiaí, Florianópolis e me mandam material diariamente. A cada trinta ou quarenta dias, todos se reúnem para uma conversa. Também não acho que Chico Bento fale de um lugar totalmente utópico ou idílico. Há um monte de cidades povoadas por gente simples, singela como ele. Basta procurar. Na China, o Chico faz mais sucesso que qualquer outro personagem. Os chineses são um povo rural, com a cabeça no campo. Adoram o nosso caipira.

Com a internet, o celular e a preocupação com o consumo de papel, existe um futuro para os gibis? O papel pintado ainda vai durar muito tempo. Há uma diferença gigantesca entre a atenção que as crianças dão ao que está no papel e a dedicada ao que aparece nos equipamentos modernos, como videogame e computador. Meu filho Maurício ouve música com três telas ligadas, joga videogame e estuda ao mesmo tempo. Para quem é mais velho parece estranho, mas as crianças de hoje conseguem fazer isso normalmente. Quando uma criança pega um gibi, contudo, ela se isola totalmente do mundo. Fica completamente mergulhada na história. Com isso, o gibi ou o livro ajudam os pequenos a se concentrar. O cérebro deles estabelece uma prioridade, o que é ótimo para o aprendizado e a memória. Se eles lerem gibis cinco minutos por dia, o papel nunca vai desaparecer.
Seu filho Marcelo foi sequestrado no ano passado. Como ele assimilou o que aconteceu? Apesar de ter ficado quase vinte dias em cativeiro, o Marcelo não carregou nenhuma sequela. Um dos fatores para isso é que ele ficou o tempo todo com um irmão menor e a mãe, que brigou para ir junto. Graças à presença dela, o Marcelo nunca se sentiu totalmente ameaçado ou sem proteção. Isso bloqueou qualquer dano à cabeça dele. Outro fator importante foi que, dois dias depois do estouro do cativeiro, eu peguei meu filho, coloquei-o no avião e o levei para Boston, onde eu tinha uma palestra para fazer na Universidade Harvard. Foi uma viagem maravilhosa. Ele conheceu Nova York, jogou bola e assistiu a minha conferência. Foi uma das melhores coisas que fiz, porque com isso ele aprendeu que os momentos ruins são finitos. Depois, Marcelo juntou tudo o que viveu nesses dias agitados e cresceu um pouquinho mais. As coisas ruins, dramáticas, ficaram na cabeça dele como se houvesse cortinas tapando. Se eu o tivesse prendido em casa, contratado um monte de seguranças e o proibido de sair, apenas teria ampliado aquela experiência traumática. Como não fiz isso, a ferida cicatrizou.

A alta criminalidade nas cidades brasileiras impede as crianças de brincar na rua ou no campinho, como a Mônica e o Cebolinha. Chegou a hora de mudar o cenário das histórias? Detesto me sentir refém em uma cidade como São Paulo. Fico triste quando ando no meu bairro e vejo que as casas viraram casamatas. Imóveis lindos estão completamente cercados por muros. Briguei muito comigo mesmo para aceitar blindar meu carro. Não queria fazer isso. Tenho ainda um Fusquinha amarelo que não é blindado. Quando o dirijo, o pessoal da empresa me chama de louco. Viver acuado é aceitar uma violência contra nós mesmos. É paradoxal. Evoluímos com tanta firmeza, criando tantas coisas para as crianças, e ao mesmo tempo mostramos tanta fraqueza diante da violência. São coisas que não batem. As crianças devem ter o direito de brincar na rua com segurança. Viajo muito por outros países e percebo que as pessoas não sentem essa tensão que vivemos aqui. Um dia temos de dar um jeito nessa situação.

O senhor tem dez filhos com quatro mulheres, onze netos e um bisneto. Como se lida com uma família tão numerosa? Ninguém pode pensar hoje que casou por toda a vida. As crianças perceberam isso. Pela minha experiência, quando os pais resolvem bem a situação entre eles, os pequenos não estão nem aí. São fortes, adaptam-se. Mesmo se porventura levam uma pancada, recobram-se e voltam ao normal. Quando meus filhos se juntam, são irmãos do mesmo jeito. Claro que às vezes um deles pode ficar com ciúme. É inevitável. Mas dá para contornar. Hoje somos um núcleo familiar em que há hierarquia e disciplina. Há inúmeros casos como o meu. Ao atravessarem essas mudanças, as crianças de hoje em dia ganham muito em autoestima. Aprendem que são capazes de resistir às mudanças e até de ensinar lições aos pais.



[Fonte: revista VEJA]
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