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sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

► Crônicas do David Coimbra - 20

Lendo a coluna do David Coimbra de hoje (sexta-feira, 13), me deparo com este texto. Ele foi muito feliz no que escreveu. E por isso que reproduzo aqui. Segue:


[AS COISAS QUE NÃO VOU ESCREVER SOBRE O RS]

Estava decidido a escrever que os gaúchos acreditam em bandidos e mocinhos. Que, para os gaúchos, a vida é um Gre-Nal. As coisas são boas ou más, certas ou erradas. É uma existência sem matizes, sem gradação. Tudo é branco ou preto. Donde, o entredevoramento histórico dos rio-grandenses. O governador do PT faz algo, o sucessor anti-PT vai lá e desfaz. E viceversa. O gaúcho acredita MESMO que alguém se alça ao poder só para praticar o Mal. Obviamente, o alguém que é do outro partido. Então, esse alguém não é digno de nenhuma colaboração, para ele só se reserva a oposição explícita e a sabotagem implícita. Pobre Olívio, pobre Yeda, pobres todos os que tentam construir algo no Rio Grande. Eles nunca são julgados com condescendência, para eles não existe a compreensão racional, média e fria. Não. Para eles só há o amor do simpatizante e o ódio do inimigo, e nenhum deles vale muito, porque ambos são incondicionais.

Também estava decidido a escrever sobre o regionalismo obtuso do gaúcho. Em muitos outros lugares do Brasil,como na Bahia, o regionalismo serve para universalizar a cultura, para levar a Bahia ao mundo. Aqui, serve para isolar o Estado do mundo. Não é regionalismo, é provincianismo. Dia desses, um jogador do Botafogo reclamou de um juiz gaúcho, desabafando:

– Eles nem querem fazer parte do Brasil...

Foi criticado pelos gaúchos que não viram,naquela manifestação inocente,o que o resto do Brasil vê nos gaúchos.

Estava decidido também a escrever que essas são as causas do estrondoso atraso do Rio Grande do Sul. Quem quer que visite outros Estados da federação se espanta com isso. As coisas, no Brasil, estão acontecendo. Aqui não. Aqui as estradas estão congestionadas, a Educação regride, as ruas se tornam mais perigosas e os projetos, quaisquer projetos, dormem décadas nas gavetas dos gabinetes. O Rio Grande do Sul ideologizado, ranzinza, rançoso, antropofágico, anda para trás.

Pois bem,estava decidido a escrever isso tudo,mas afinal resolvi que não.Resolvi escrever sobre o Rio Grande do Sul que funciona. Encontrei um. Está lá no alto, na Serra: o complexo Gramado & Canela.

Você pode não gostar de ir a Gramado,mas terá de reconhecer, se lá for: lá existe um movimento orgânico pelo bem comum. A comunidade inteira se envolve no projeto da cidade. Ou da região. A forma como você é tratado nos hotéis e restaurantes, a forma como os motoristas se comportam no trânsito, tudo faz parte de uma consciência coletiva. As pessoas, em Gramado e Canela, trabalham unidas por Gramado e Canela, numa comunhão do poder público com a iniciativa privada que é ágil e funcional. Como eles conseguiram? Como criaram esse oásis de entendimento nesse deserto de eterna oposição? Temos de descobrir isso. Temos de estudar esse fenômeno. Então, talvez haja uma esperança de vida jovem para esse reumático Rio Grande do Sul.



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quarta-feira, 5 de outubro de 2011

► Crônicas do David Coimbra - 19

[A IRRITADA]

- Alô?
- Alô! É você, Alfredo?
Opa. Meio seco aquele "Alfredo". Alfredo não esperava tamanha brusquidão. O que tinha acontecido? Amaciou a voz:
- Está irritada, Jujubinha?
Para os outros, Juliana; para ele, Jujubinha.
- Irritada? Eu não estou irritada! Por que você acha que estou irritada???
Alfredo hesitou por alguns segundos. A irritação na voz da Jujubinha era evidente, fazia tremer o telefone. Não devia ter dito que ela estava irritada. Havia sido um erro. Ele tinha experiência, sabia muito bem que jamais se deve perguntar a uma mulher irritada por que ela está irritada. Mas não se conteve, sucumbiu à tentação. Foi sincero. Ingenuamente sincero. E agora? Precisava de cautela. Arriscou:
- Bom. Desculpe. É que você me pareceu irritada…
- Irritada? Por que você sempre acha que estou irritada?
Ela quase gritava. Alfredo lamentou ter ligado. Mas era tarde. Estava caminhando num terreno minado, ele sabia. Qualquer movimento seria perigoso. Um passo em falso e a terra poderia explodir nos seus fundilhos.
- Não é nada disso. Você entendeu mal. Não fica braba…
- Braba?!?
Alfredo afastou o fone do ouvido. O berro dela lhe doeu no tímpano. A coisa estava malparada. O que havia acontecido? Alfredo fez uma revisão mental de suas últimas ações. Fizera algo que pudesse despertar toda aquela fúria?
- Por que estaria braba??? - o urro dela era um urro rouco, um urro de bicho ferido. - Coisa ridícula, isso! Você está sempre reclamando!
- Eu? Reclamando? Não estou reclamando. Juro.
- Então o que é isso? Hein? O quê?
- Foi só uma impressão. Você está feliz, então?
- Como posso estar feliz, contigo me irritando desse jeito, hein? Como? Estou furiosa! Estou irritada! Por tua causa! Tua!
- Minha? - Alfredo sentiu que o suor lhe escorria em bagas pela fronte. Olhou em volta, procurando algo para se enxugar, mas só havia a Zero do dia, aberta na página de esporte, notícia sobre as contratações da dupla Gre-Nal. - Mas eu não fiz nada - prosseguiu. - Eu… - então a Luz o iluminou. A Luz. Juliana era uma colorada obstinada. As movimentações do Inter em começo de temporada só podiam irritá-la. Tinha de ser isso. Alfredo decidiu fazer um teste.
- Eu só liguei para contar que o Inter contratou o Marcelinho Paraíba e o Riquelme - arriscou.
Cinco segundos de silêncio. Depois:
- Mesmo? - a voz agora leve, irradiando esperança.
- Mesmo…
- Como aconteceu isso, Fredinho? - o mel escorrendo das consoantes. Além disso, ela falou Fredinho. Bom sinal. Alfredo se regozijou. Mas tinha de contar a verdade. Talvez ela nem se importasse com a mentirinha, agora que a raiva havia passado.
- Brincadeiriiiinha! - disse.
CLANG. Juliana desligou. Alfredo ficou com o fone suspenso, fitando o vazio. Tinha certeza: o Inter ainda seria a causa do fim do seu relacionamento.



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quinta-feira, 18 de agosto de 2011

► Crônicas do David Coimbra - 18

Em homenagem ao aniversário de cinco anos da primeira conquista colorada na Libertadores da América, reveja o texto publicado por David Coimbra em Zero Hora, após a vitória do Inter sobre o São Paulo.


[PARA SEMPRE]

O Inter é campeão da América. Existe algum fato mais importante do que esse? O Inter é campeão da América. Depois de quase um século de existência, o clube dos irmãos Poppe, de Antenor Lemos, de Tesourinha e Carlitos, de Larry e Bodinho, de Valdomiro, Figueroa, Falcão e Flávio Minuano, o time de Fernandão, Rafael Sobis e Fernando Carvalho conquistou a Libertadores da América. Empatou com um multicampeão, o São Paulo, em 2 a 2, ontem à noite, no Beira-Rio, ganhou o título com o resultado combinado do Morumbi, classificou-se para a Libertadores de 2007 e entrou para a história mundial do futebol.

Foi uma típica decisão de Libertadores, tensa, cheia de ocorrências, cheia de emoção. O Inter precisou superar não apenas um forte adversário – precisou superar seus próprios nervos. No começo, só um jogador colorado portou-se com naturalidade: Rafael Sobis. Os demais, até o experiente Tinga, pareciam sentir o peso da expectativa dos 50 mil ansiosos colorados que pulavam, gritavam e cantavam na pedra das arquibancadas. Já o São Paulo, pressionado pela necessidade de vitória, atirou-se ao ataque. Aos dois minutos, Aloísio levantou para Edcarlos, mas Clemer defendeu. Aos seis, Aloísio, mais uma vez, passou para o desanimado Danilo, que chutou colocado e Clemer espalmou a escanteio. Na cobrança, Lugano perdeu de marcar a quatro metros da risca de gol. Aos 17, Clemer falhou num escanteio cobrado da esquerda. Exatamente nesse momento, o árbitro paralisou o jogo por causa da fumaça que saía dos sinalizadores usados pelos torcedores colorados. A interrupção durou cinco minutos.

O São Paulo não arrefeceu no tempo em que ficou parado. Logo depois que a bola voltou a rolar, Aloísio deu uma virada da entrada da área, para fora. O Inter se defendia bem, com Bolívar vigiando Aloísio e Índio saindo um pouco mais. Edinho jamais abandonava o campo de defesa e Ceará funcionava como zagueiro. Na frente, apenas ele, Rafael Sobis, valente, atuando bem aberto, como um ponta-direita, valendo-se da sua velocidade para vencer Lugano e ir à linha de fundo. Numa dessas arrancadas, aos 29 minutos, Sobis foi derrubado por Richarlyson quase na linha lateral, no lado direito. Na cobrança, Jorge Wagner levantou para a área, Rogério Ceni soltou a bola e ela espirrou abandonada pela pequena área, até que Fernandão esticou a perna e a empurrou para o gol: 1 a 0.

O São Paulo, agora sim, se perturbou, e o Inter teve alguns momentos de tranquilidade. Não por muito tempo. Aos cinco minutos do segundo tempo, Souza cobrou falta, Lugano tocou para Fabão, que empatou o jogo. O São Paulo pressionava, o São Paulo era melhor. Muricy colocou Thiago e Lenilson em campo. O Inter estava encolhido. Mas, aos 20 minutos, Ceará levantou para a área, Fernandão cabeceou, Ceni espalmou e Tinga apanhou o rebote: 2 a 1. Foi a comemoração mais breve do campeonato. Tinga festejou mostrando uma camiseta com inscrição religiosa debaixo da camisa do clube, levou o segundo cartão amarelo e foi expulso. Como se fosse uma punição extra, Junior chutou cruzado aos 39, Clemer soltou e Lenilson empatou. Os minutos seguintes foram de horror. Clemer praticava uma defesa atrás da outra. Aos 45, Alex Dias cabeceou na pequena área e o goleiro tirou, acrobaticamente. Houve uma sequência de escanteios a favor do São Paulo. Num deles, aos 47 minutos, Abel Braga, aos prantos na área técnica, olhou para o alto e balbuciou:

- Meu pai do céu!

O jogo terminaria 30 segundos depois. E o Inter dos Joões e das Marias, o Inter dos Pedros, dos Paulos, das Carolinas, das Letícias, dos Kennys, dos Marcelos, dos Washingtons e Maicons e Ricardos e Silvias e Diegos e Adroaldos e tantos, tantos, tantos milhões de torcedores em todo o Brasil, esse Inter, afinal, era campeão da América.



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terça-feira, 9 de agosto de 2011

► Crônicas do David Coimbra - 17

[TÚNEL DO TEMPO: ELA FOI EXPERIMENTAR UM BIQUÍNI]

Ela disse que ia só experimentar um biquíni, bem ligeirinho, e entrou na loja. Fiquei na porta, esperando. O que mais poderia fazer, senão ficar na porta, esperando? Suspirei. Olhei para a calçada do outro lado da rua, para me distrair. Um cachorro preto, desses vira-latas, de tamanho médio, dormia enrodilhado em frente a uma padaria fechada. Não havia nada aberto àquela hora, só a loja de biquínis. Voltei-me novamente para dentro da loja.

As atendentes, umas quatro ou cinco, me olhavam lá do fundo. O que estariam pensando? "Aí está mais um babaca na porta, esperando a namorada escolher biquíni". Acho que riam de mim. Só podiam estar rindo. Também, o cara fica mesmo com jeito de abobado esperando alguém numa porta de loja. Tinha apoiado o peso do corpo no pé direito; troquei para o esquerdo. O cachorro preto do outro lado da rua acordou, piscou uma ou duas vezes, mas não fez menção de se levantar.

A namorada havia sumido. Devia estar no provador. Quanto tempo uma mulher leva para experimentar um ou dois biquínis? Um biquíni é tão pequeno… Tirar os chinelos é rápido, zupt, zupt, dois segundos. As calças? Basta baixar o zíper, abrir um botão, arriar uma perna, depois outra. Digamos, cinco segundos. Mais a blusa, puxada pela cabeça, acomodada com critério no gancho da parede, outros cinco segundos. Total: 17 segundos.

Mas deixemos por 20. Trinta, até. Outros 30 para experimentar um biquíni, 30 se mirando no espelho, mais 30 para outro biquíni e 30 se admirando de novo. Operação completa, contando que ela precisa vestir as calças e a blusa de novo, uns quatro minutos. Arredondando, cinco. É bastante, cinco. Tudo bem, as mulheres são demoradas mesmo, cinco é razoável.

Mas já se haviam passado cinco minutos, quem sabe oito ou nove, o cachorro se erguera preguiçosamente e farejava o ar sem grande interesse. Juntei as mãos às costas num gesto que, lembro, meu avô repetia muito. Depois cruzei os braços diante do peito. Levei as mãos à cintura. Cocei a cabeça. Suspirei outra vez.

Ouvi risadas femininas. Ah, mas aquelas gurias da loja estavam tirando o maior sarro de mim, isso era certo. Muito engraçado, de fato, um imbecil parado na frente de uma loja, sem fazer nada, só observando um cachorro preto na calçada. Aliás, onde é que estava o maldito cachorro preto? Como conseguira sumir tão rapidamente? Bom, talvez não tivesse sido tão rápido - eu devia estar há uns 20 minutos ali. Não queria mais olhar lá para dentro, para aquelas atendentes debochadas, e agora o cachorro se fora. Oh, Cristo.

Ah, salvação: uma mosca acabara de pousar na vidraça da vitrine. Uma mosca gorda, dessas de verão, lerdas. São alvos fáceis, essas moscas obesas de verão, ainda mais se pousam em vidraças. Por que as moscas engordam no verão? Nós humanos engordamos no inverno. Feijoada e tal. Tive ganas de esmagá-la, mas não tinha nada à mão, um jornal, nada.

Um jornal viria a calhar, mesmo de anteontem. Para ler algo. Até a lista telefônica seria bem-vinda naquele momento de tédio absoluto, de minutos pastosos e angustiantes, como se estivesse afundando na areia movediça. Deixei a mosca ali, passeando pelo vidro. A namorada não saía do provador. Quanto tempo? Trinta e cinco minutos? Quarenta? Não era possível que demorasse tanto assim para experimentar um biquinizinho minúsculo.

Foi me dando uma irritação. Uma irritação, uma irritação, uma irritação.

Uma irritação.

Li em algum lugar que, se você está sozinho e se aborrece, então você não é boa companhia nem para você mesmo. Provavelmente sou uma péssima companhia, porque estava mortalmente chateado de estar comigo mesmo. Como eu estava me chateando a mim próprio, Jesus. Por que eu tinha de estar naquele lugar, onde o tempo não passava, onde nada acontecia, onde tudo parou? Quanto tempo fiquei ali? Pareceram horas. Quando ela finalmente surgiu, suspirei de alívio. Era como se eu estivesse saindo do presídio. Mas, para minha surpresa, ela veio de mãos vazias.

- E o biquíni? - perguntei, aflito.

E ela, indo-se da loja:
- Não gostei de nada. Vou procurar outra loja, para ver se encontro algo melhor.

Agora compreendo a angústia do torcedor da Dupla Gre-Nal, esperando contratações que não chegam jamais.


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segunda-feira, 20 de junho de 2011

► Crônicas do David Coimbra - 16

Fazia tempo que não rolava um, mas agora vou atualizar o blog com um texto do talentoso David "Galo Cinza" Coimbra. Divirtam-se.

***
[TÚNEL DO TEMPO: HISTÓRIAS PRAIANAS]


Aconteceu em Imbé. Um amigo meu conheceu aquela a quem chamou de A Mulher. Ele conhece várias, acreditem. Sobretudo biblicamente. É um mulherengo tão arraigado que o pessoal da turma o apelidou de Formigão. Pois o Formigão conheceu A Mulher em Imbé. E voltou para Porto Alegre furibundo.

– Igualmente! – ele berrava. – Olha o que eu fui dizer: igualmente!

– Calma – eu pedia. – Não é tão grave assim.

– Não é grave? Como não é grave? Diz a verdade: tu diria igualmente para uma apetitosa?

É assim que o Formigão se refere a uma mulher que considera sensual: apetitosa. Tive de reconhecer. Eu não diria igualmente a uma apetitosa. Ele espumava:

– Está vendo? Está vendo? Pois eu disse! Logo eu! A Mulher falou que tinha adorado me conhecer, e eu, nervoso: “Igualmente”. Vê se isso é coisa de se dizer a uma apetitosa? Por que eu não disse algo mais legal? Algo espirituoso? Igualmente é coisa de velho!

O Formigão não conseguia tirar aquilo da cabeça. Havia tido até um pesadelo. Ele trancado numa sala, atado a uma camisa-de-força. Das paredes, do chão, do teto, ecoava: “Igualmente, igualmente, igualmente”. Tantos igualmentes que ele acordou suado, gritando:

– Igualmente não!

De alguma forma, a história do Formigão me alegrou. Ele ficara nervoso diante de uma mulher. Isto é: o Formigão também fica nervoso, ele também é humano. Porque esses pânicos momentâneos vivem acontecendo a quem não é o Formigão.

Certa feita, eu trabalhava para uma editora e precisava falar com uma professora num colégio de Porto Alegre. Fui lá. Na entrada, perguntei por ela. Na sala dos professores, disseram. Procurei a sala dos professores. Encontrei. A porta estava encostada. Empurrei-a mansamente. Parei na soleira. Quando a porta se escancarou, dei com a visão assombrosa: seis professoras, todas jovens, todas lindas, conversando alegremente, sorrindo. Ao me verem, interromperam a conversa. Olharam-me, todas, 12 conjuntos de cílios longos, seis sorrisos resplandecentes ainda curvando os lábios carmim. Elas eram divinas. Elas brilhavam em volta da mesa coberta por copos de cafezinho e pastas de provas corrigidas. Aquilo me entonteceu. E desnorteou. Fiquei apavorado. O que fazer? Devia ter me penteado antes. Onde colocar as mãos? Queria falar algo inteligente, mas só consegui dizer mais ou menos isso:

– Eu… é… aham… ó… o… tdrbrgh… Onde é o banheiro?

Perguntei onde era o banheiro. Eu sabia onde era o banheiro! Elas me disseram. Dei-lhes as costas e, antes de sumir da visão delas, ainda dei uma tropeçada num parquê mal colocado. Xinguei o parquê e fugi covardemente. Nunca falei com aquela professora, nem ousei retornar ao colégio.

Pânico – foi o que senti. Pânico – foi o que sentiu o Formigão. Que, afinal, mostrava ser um homem comum. Disse isso ao Formigão. Contei-lhe o que me aconteceu no colégio. Não adiantou. Ele só repetia:
– Igualmente! Vê se isso é coisa de se dizer! Igualmente!

Até que tocou o celular dele. O Formigão atendeu. E seu rosto luziu.

– É ela! É A Mulher! – sussurrou para mim, tapando o bocal com a mão. Vibrei. Colei minha orelha ao celular para ouvir a voz dela. Ela dizia estar cumprindo a promessa que fizera na praia, de ligar assim que chegasse a Porto Alegre. O Formigão exultava. Conversou um pouco. Senti que ele ainda estava nervoso. Eu sorria. Ele sorria, corado. O Formigão corado! Marcaram um cinema. Conversaram mais um pouco. Eu, sempre ouvindo e dando-lhe tapinhas nos ombros como congratulação. Ao se despedirem, ela disse:

– Gostei de falar contigo.

Ao que ele escancarou um sorriso de vitória e, confiante, com a segurança do velho Formigão, empostou a voz e tascou:

– Igualmente.



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domingo, 8 de novembro de 2009

► Crônicas do David Coimbra - 15

Fazia tempo que queria postar este texto do grande David Coimbra, e já que agora retomei os posts no blog, segue esta história sobre "coxas femininas", que aliás, compactuando com ele, é uma das coisas que mais mexem comigo em relação à mulheres.

Com vocês...

***

[PERDIDO NA FLORESTA DE PERNAS]


Pernas de mulher são emocionantes. A loirinha Sândi tinha coxas grossas e desenhadas com o capricho com que desenha um Gilmar Fraga. Eu não conseguia não olhar para as coxas dela. Uma vez, estava sentado num banco de pedra lá no fundo da Coorigha, esperando a turma para jogar bola, e a Sândi apareceu, gingando dentro de uma minissaia de quatro dedos de altura. Veio na minha direção, os olhos azuis faiscando. À primeira chicotada de olhar, notei que havia um vergão na parte de trás da coxa direita dela. Por pudor, tentei disfarçar, fazer de conta que não tinha visto. Só que ela mal chegou e já se virou assim de ladinho e miou:

- Viu que estou com um vergãozinho na coxa?

Pronunciava coxa assim: coxxxah. Isso me deixava nervoso. Uma coxa dita desse jeito é muito mais suculenta.

Eu ali, sentado no banco, gaguejei:

- Ver-ver...gão? Não tinha visto...

- Ó aqui ó - ela se virou mais um pouquinho, ficou toda empinada bem ali, a palmo e meio do meu nariz.

Olhei para o risco róseo na carne branca e lisa.

- Nc - comentei.

- Foi o fio da pandorga do meu irmão que passou aqui. Doeu na hora. Agora não mais. Agora está bom. Mas ficou altinho. Quer ver como ficou altinho?

Ergui a cabeça. Encarei-a, aflito. O que ela queria dizer com “quer ver como ficou altinho?” Propunha que olhasse mais de perto? Ou que... oh, Cristo, que tocasse na cicatriz?

Segunda alternativa. Ela sussurrou:

- Passa a mão...

Com um milhão de pandorgas, pipas e papagaios, ela queria que eu passasse a mão no vergãozinho dela!

Aí estiquei o dedo indicador da mão direita, esse mesmo dedo que tecla botões de celular, aperta campainhas e faz o número um, esse que já indicou a professoras que eu queria ir ao banheiro e que já parou táxis e ônibus na rua e que já deflorou bolos de chocolate. Pois estiquei esse dedo e o fiz voar, trêmulo, até aquela marquinha rosada, e esfreguei-o ali, e quase chorei de felicidade. Era a primeira vez que eu tocava numa coxa de mulher.

A segunda vez não foi numa coxa alva de loira. Foi numa coxa bronzeada, da cor de canela, da morena Alice. Nós dois estávamos no Fusca verde do pai dela, estacionado bem em frente à Tenda do Seu Zequinha, e a Alice vestia um short branco que, por Deus, faz parte da história da minha vida. Abracei-a pela cintura e, lentamente, ardilosamente, fui descendo a mão. Descendo, descendo, rumo às... coxas!

Hoje ninguém mais colocaria ponto de exclamação depois de coxas, sei bem disso, hoje qualquer adolescente espinhudo tem vasta experiência em coxas, mas naquele tempo as coxas de uma mulher eram um território que poucos guris podiam se gabar de conhecer com intimidade, faziam parte da nossa mitologia, eram um prêmio quase inatingível. Dizíamos, entre nós:

- Quando vou alisar uma coxa de mulher pela primeira vez?

Por isso, quando finalmente empalmei as coxas de Alice e as acariciei com sofreguidão, pensei: não acredito que isso está acontecendo comigo, não acredito! Obrigado, Deus. Obrigado!

Foi bem isso o que pensei e, ao sair do Fusca verde do pai da Alice, sentia-me tonto de emoção. Fui para casa, deitei-me ao comprido no sofá e, ainda experimentando as vertigens do prazer, disse para mim mesmo que a vida é boa, é boa, é boa.

Coxas de mulher são emocionantes.

Agora calcule a minha situação: certa tarde, estava entre essas quatro coxas, as dourado-escuras de Alice e as dourado-claras de Sândi, mais as bem fornidas de Josie, as compridas de Ariadne, as macias de Débora, todas as gurias vestiam short naquele entardecer de verão, e o mundo parecia tão belo, tudo parecia exatamente em seu lugar, aí o céu azul-Grêmio começou a ficar azul-Cruzeiro e logo se tornou preto-Botafogo e o ar se transformou em um ar pesado e vibrante. Era a tempestade de verão que se aproximava. Olhamos para o céu, eu e as minas, e eu ali, no meio daquela floresta de coxas, só eu de homem entre tantas belas, e sabe o que pensei? Vou confessar exatamente o que pensei. E-xa-ta-men-te: que vontade de jogar bola na chuva! Foi isso que pensei.

Então, como se tivessem ouvido os meus pensamentos, os guris chegaram correndo de algum lugar. Vinham em matilha, o Barnabé, o Plisnou, o Cavalo, o Anão, o Tosão, o Diana, o Zoreia, o Barril, o Languiça, o Mochila, o Apara Peido, o Fio, o Zé Índio, o Beto Zúqui, e outros mais, e alguém levava debaixo do braço a bola vermelha do Zé Fernandes, e eles gritavam:

- David! Vamos jogar na chuva lá no Alim Pedro, David! Vamos! Vamos!

Olhei para as pernas todas das gurias à minha volta. Umas estavam com as pernas cruzadas; outras paradas, com o peso do corpo apoiado numa única perna; uma tinha as mãos à cintura; uma se espreguiçava, adoro ver uma mulher se espreguiçando; e todas aquelas pernas reluziam como um cântico à glória da obra da Mãe Natureza. Mas os guris corriam para o Alim Pedro, e imaginei o jogo na chuva e no barro, a gente escorregando e caindo e rindo e levantando lama e água, e disse:

- Tiau, gurias!

Enquanto corria para o Alim Pedro, ainda ouvi a Alice me chamando:

- Davim...

Elas falavam Davim. Era legal. Mas jogar na chuva também era. Pode não ser o melhor para jogo valendo três pontos, mas que é divertido, isso é.


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terça-feira, 28 de julho de 2009

► Crônicas do David Coimbra - 14

[A TÁTICA INFALÍVEL DE MARIANA]

Mariana nunca havia se sentido tão nua. Mas estava vestida, o corpo bem coberto: calças jeans justas como se tivesse nascido dentro delas, botas de cano alto até os joelhos e uma blusa tão leve quanto a consciência do Wianey Carlet. Ainda assim, sentia-se nua. Os olhares dos homens do lugar arrancavam suas roupas às fatias. Mariana recém chegara ao clube no qual seu marido trabalhava como treinador. Havia estacado à margem do campo de treino, e os olhares dos jogadores a lambiam como se ela estivesse coberta de leite condensado.

Julião, chamava-se o marido técnico. Um durão. Havia sido zagueiro tosco no passado, e o estilo de jogar se lhe infiltrara na alma. Julião era um ser humano tosco que se dizia sincero. Orgulhava-se da sua franqueza, de falar sem subterfúgios, de olhar no olho do interlocutor, aquela coisa. Julião era áspero com todos, era sempre rude. Menos com Mariana. Na frente de Mariana, ele virava suflê. Ela era 30 anos mais jovem, era loira, magra, alta, linda e sorridente. Tratava-o por “Ju”, e só ela podia tratá-lo dessa forma.

Pois um dia Mariana pediu para vê-lo trabalhar. Julião não recusou – não lhe negava nada. Levou-a ao campo.

E foi aí que ela se sentiu nua.

No começo, ficou incomodada. Mas, com o correr do treinamento, os olhares dos jogadores foram cevando-lhe o orgulho de mulher bonita. Era bom ser desejada, era bom saber que os homens cobiçavam seu corpo. Sentiu-se uma pantera, uma cavala, uma cachorra, tudo ao mesmo tempo.

Depois daquela tarde, suas visitas ao clube se tornaram frequentes. Gostava de experimentar a sensação de ser alvo da concupiscência masculina. E cada dia Mariana ia com uma roupa mais ousada. Deixava que antevissem uma faixa de carne dourada de seus ombros redondos, ou um pedaço das suas longas pernas, ou o delicado piercing que lhe feria o umbigo. Eles ensandeciam de desejo. Eles a queriam, como a queriam.

Um dia, de todos, foi o mais especial. Mariana se encostara à porta fechada do vestiário. De repente, ouviu o diálogo entre dois jogadores que estavam parados do outro lado. Um disse:

- O que eu mais queria era ver aquela mulher nua.

Mariana estremeceu. Supunha que falavam dela. Mas seria mesmo? Sentiu palpitações. Apurou o ouvido. O outro jogador como que arfou, e o que disse entre dentes quase a fez desfalecer de contentamento:

- Cara, tudo o que eu quero na vida é ver essa mulher do treinador nuinha! Nuinha em pelo!

E o outro:

- Dou todo o meu salário só para ver aquela mulher sem roupa!

Mariana como que flutuou pelo pátio do estádio. O maior desejo daqueles homens era vê-la nua! O corpo dela suscitava todos aqueles desejos, todas aquelas ânsias. Era maravilhoso. Era um sonho.

Depois disso, Mariana passou a ir ao clube todos os dias. O problema é que o time começou a perder. O grupo de jogadores apresentava dissensões, o vestiário estava desunido. O emprego de Julião entrou em risco. Foi o que ele disse uma noite para Mariana.

- Acho que vou perder o emprego - suspirou, enquanto vestia o pijama de sapinhos que ela lhe dera.

Mariana ficou apreensiva. Não queria que ele trocasse de clube. Não queria perder o contato com os olhares quentes dos jogadores. Mas o time não vencia mais. As brigas no vestiário se sucediam. Ninguém se entendia no clube, e Julião não conseguia mais impor sua autoridade. Até que chegou o dia decisivo.

- Se perdermos domingo, estou na rua - comunicou Julião à sua jovem esposa durante o café da manhã de sexta-feira.

Mariana dormiu mal aquela noite. O sábado ela passou casmurra, em sofrimento silencioso. Na manhã de domingo, resolveu tomar uma atitude. Foi até o hotel onde todos estavam concentrados. Chamou Julião. Ele desceu até o saguão. Antes de lhe dar um beijo de saudação, pegou em seus cotovelos e perguntou:

- Você confia em mim?

Julião estranhou, mas sabia que a mulher falava a sério.

- C-confio - gaguejou.

- Então me deixa falar a sós com os jogadores. Reúna todos em uma sala e depois saia. Preciso de 10 minutos com eles, e nós vamos ganhar o jogo.

Julião quis saber o que ela faria, o que ela diria, mas ela respondeu que não podia contar.

- Dez minutos - repetia, sem cessar. - Preciso apenas de dez minutos para explicar a minha tática.

Julião topou. Não lhe negava nada. Poucos minutos depois, Mariana entrou na sala em que os jogadores foram reunidos. Estavam sentados em cadeiras de ferro. Ela usava um vestidinho de alças e sapatos de salto alto. Parou de pé diante deles. Falou:

- Vou dar agora o que vocês sempre quiseram de mim.

E, com a mão direita, baixou a alça esquerda do vestido, expondo um seio firme de tamanho standard. Com a esquerda, removeu a outra alça, e ambos os seios se mostraram aos jogadores. Formavam um lindo par. Aí ela empurrou o vestido para além da cintura fina, das ilhargas sinuosas, das coxas fortes, dos joelhos redondos, das canelas lisas. O vestido pousou nos escarpins. Os jogadores estavam sem fôlego. Mariana continuou ali parada, só de calcinha, escarpins e piercing. Levou as mãos às tiras das calcinhas. O meia-esquerda começou a gemer baixinho.

- Se nós vencermos hoje - miou ela. - Tiro o resto antes do próximo jogo.

E entrou no vestido outra vez. E foi-se embora.

As preleções de Mariana tornaram-se célebres no clube. O time ganhou o campeonato. E Julião jamais descobriu qual era, afinal, a tática revolucionária concebida por sua mulher.


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sexta-feira, 8 de maio de 2009

► Crônicas do David Coimbra - 13

Essa é para os Psicólogos que acham que sabem alguma coisa.
David Coimbra = crônica perfeita. Acertou em cheio. rsrs

***
[EU? VIVÍPARO?]


Uma vez me chamaram de vivíparo. Fiquei chateado. Não que tenha algo contra os vivíparos, não tenho, até os acho simpáticos. Mas que mania é essa de dizer quem sou ou o que devo fazer?

Tem sido assim a vida toda. As pessoas gostam de classificar as outras pessoas. Sou um grande mamífero; certo. Bípede; tudo bem. Jornalista, filho da dona Diva, pai do Bernardo; até aí estamos no terreno das exatas. Mas e quando vem um gaiato e pergunta se sou um machista ou um tarado ou um comunista ou um neoliberal ou qualquer outra coisa? Tudo muito subjetivo. Aí tenho que ficar me explicando. O que é inútil. Aquela pessoa já me rotulou, catalogou e arquivou na pasta, digamos, dos machistas. E de vez em quando ela vem e reclama:

- Você não pode ser machista, você é um formador de opinião.

Eu? Formador de opinião? Por Deus: nunca formei uma única opinião até hoje. Não que não tenha tentado. Minha mãe, por exemplo, às vezes tento formar a opinião dela. Não consigo. Ela não concorda comigo. Meus amigos, volta e meia esforço-me para dar uma formada nas opiniões deles. Em vão. Eles não mudam um milímetro de ideia. E os leitores. Jamais um leitor admitiu que formei a opinião dele. Não. O leitor vem e diz:

- Que legal aquilo que você escreveu. É exatamente o que eu penso!

Ou seja: ele concordou com a minha opinião porque é a opinião DELE. Ele só concorda com ele mesmo. Logo, não preciso dar explicação sobre o que sou ou deixo de ser. Não faz diferença.

Mesmo assim, admito que às vezes é interessante ouvir a opinião dos outros sobre quem sou. Sobretudo das autoridades.

Em quase todas as empresas nas quais trabalhei, tive de participar de cursos, e aí já estamos na categoria das coisas que as pessoas querem que eu faça. Cursos. Pois bem. Esses cursos, eles são muito interessantes. Uma vez me colocaram num curso de Excel. É um programa de computador aí. Não lembro exatamente como funciona, mas parece ser bastante útil para administradores e tal.

Também assisti a inúmeros cursos de gestão, e foi neles que ouvi opiniões de autoridades sobre a minha pessoa. Por autoridades refiro-me a psicólogos. É espantosa a capacidade dos psicólogos. Havia uma época em que os psicólogos lhe davam uma folha de papel e um lápis e mandavam que você desenhasse uma árvore. O truque era desenhar o chão sob a árvore. Se você não desenhasse o chão, seria reprovado. Todo mundo sabia disso do chão, você tinha de passar por um teste psicológico e as pessoas advertiam:

- Não esquece de desenhar o chão! Tem que desenhar o chão!

Desenhei muito chão em teste psicológico. Depois, imagino que os psicólogos tenham percebido que a história do chão estava manjada e mudaram tudo. Eles agora pegam você e alguns dos seus colegas e colocam todos em uma sala. Depois, dividem a turma em grupos, como no colégio. Dão tarefas para cada grupo: montar uma casa de Lego, formar um tabuleiro de xadrez com algumas peças de madeira, caminhar de olhos fechados sobre uma linha pintada no chão. Você passa 40 minutos fazendo essas coisas e depois disso os psicólogos dizem quem é você, se pode ou não ser chefe, se deve ser demitido ou promovido. Tudo com base na ciência. Impressionante.

Conheço algumas pessoas que foram largadas no meio do mato pelos professores de cursos de gestão, outros que foram obrigados a jogar rúgbi. Terminados os cursos, eles voltaram para suas empresas transformados em ótimos chefes. Ciência pura. Impressionante.

Mesmo assim, estou cansado de todas as pessoas que me dizem o que fazer ou o que sou. Não me importo nem se elas tiverem razão. Um vivíparo? Eu? Não venham me rotular. Não venham me dizer o que fazer. Falem por vocês mesmos.


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quinta-feira, 2 de abril de 2009

► Crônicas do David Coimbra - 12

[O GALO CINZA]

O que um homem quer ouvir de uma mulher? O que um homem re-al-men-te quer ouvir de uma mulher? Nada desse negócio de eu te amo e minha paixão e bibibi. Um homem quer ouvir que ele é uma máquina de produzir orgasmos, que ela nunca em tempo algum deparou com outro que lhe fornecesse tanto prazer, que basta o mero toque dele para que ela se liquefaça em gozo irreprimível. Ele quer ouvir que ele é o galo cinza. Você sabe: o galo mais galo de todos os galos.

Na sexta-feira passada eu dizia isso numa roda de amigos. Amigos e amigas em torno a uma mesa redonda no Quincho, ali perto da Carlos Gomes. Cito o restaurante em homenagem aos seus garçons, que foram bravos naquela sexta-feira. Heroicos, foi o que foram. Porque nossa mesa era uma daquelas mesas que fazem um garçom desistir da profissão. Nossa mesa era a dos caras que nunca vão embora. Ficamos ali, bebendo e rindo e conversando madrugada adentro, e os garçons sorridentes:

- Mais uma rodada?

Aceitávamos. Sempre aceitamos. Entre uma rodada e outra falei disso. Do que um homem re-al-men-te quer ouvir de uma mulher. Ao que uma das presentes, dileta esposa de um personagem muito conhecido da cidade, homem público que há não muito tempo teve seu nome estampado em títulos corpo 68 do jornal, pois essa esposa comportada proferiu uma frase terrível e, pior, na frente dele:

- Ah, isso não existe!

Quer dizer: um homem capaz de conduzir uma mulher ao mais elevado estado de excitação sexual não existe. Meu amigo, o marido da dita cuja, abriu os braços e protestou:

- Pô, amor!

Tarde demais. Ela havia quebrado o encanto. Todos nós homens já pensávamos nisso, que a glória suprema de um macho é ouvir de uma mulher que ele é, precisamente, um macho. Macho, entendeu? Macho.

- Você é o meu macho. É impossível haver homem mais viril do que você. A sua habilidade sexual merecia uma medalha. Um Oscar. Um Nobel.

Mas a mulher do meu amigo disse que isso não existe. As mulheres são assim. São práticas, vivem no mundo real, na superfície dura da Terra. Nós homens estamos sempre sonhando. Sempre fantasiando. João Bosco e Aldir Blanc já revelaram com o que fantasiamos quando escreveram:

“Sem pressa foi cada um pro seu lado

Pensando numa mulher ou num time”.


Os práticos podem repetir que isso não existe. As mulheres podem dizer que o tipo de homem que os homens esperam ser não existe. Pouco importa. Importa é a fantasia. Importa o sonho. Queremos ouvir alguma mentira das nossas mulheres todas as noites.


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terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

► Crônicas do David Coimbra - 11

[O SEGREDO DE LETÍCIA]

Depois da noite encantada em que eles se conheceram e passaram parte conversando, parte se beijando, Leo tomou as mãos de Letícia nas suas e sussurrou:

- Me diga que você é colorada! Por favor! Me diga que você é colorada!

Letícia sorriu. E depois miou:

- Sooou...

Leo olhou para o Firmamento:

- Obrigado, Senhor! Encontrei a mulher perfeita!

Letícia sentiu o peito inflar de alegria. Gostava de ser a mulher perfeita. Só que não era – pelo menos não do ponto de vista de Leo. Na verdade, Letícia sempre fora gremista. Dissera-se colorada porque aquilo parecia tão importante para ele... Além disso, não ligava muito para futebol. Definia-se como gremista, mas estava longe de ser uma militante. Então, por que não fazer a alegria infantil daquele homem tão atencioso?

No encontro seguinte, ele lhe trouxe um mimo: um ursinho de pelúcia do Inter.

- Ó. Do nosso timão.

Letícia apertou o ursinho contra o peito:

- Que amooor...

A partir daquele dia, ele passou a chamá-la de Linda Vermelhinha. Continuaram se vendo cada vez com mais frequência. Começaram a namorar. Ele a levava ao Beira-Rio e a presenteava com novas camisetas do Inter, pratinhos do Inter, buttons do Inter. No aniversário dela, levou-a a um motel de luxo e, lá, deu-lhe de presente... uma calcinha do Inter!

- Veste, Linda Vermelhinha... - pediu, sôfrego, e ele mesmo tirou a roupa, menos os meiões do Inter, que usou durante toda a noite, esticadas até o joelho.

O namoro foi em frente. Com o passar dos anos, Letícia desenvolveu a impressão de que o coloradismo de Leo se acentuara. Ele parecia mais arrebatado a cada temporada. Só falava da sua paixão pelo Inter. Ou do seu horror ao Grêmio. Tamanha obsessão começou a irritá-la. E, aos poucos, ela, que antes era indiferente ao futebol, passou a torcer em silêncio pelo Grêmio... e contra o Inter.

Assim, o gremismo de Letícia foi se cevando surda e dolorosamente. Era um sentimento que crescia, que latejava, e do qual ela queria se livrar. Queria confessar a Leo que não era colorada, que jamais fora colorada e que, ao contrário, justamente por causa dele, tornara-se uma gremista acérrima. Mas outros sentimentos impediam que fizesse a confissão. O principal: ela amava Leo, fazia planos de casar-se com ele. Como poderia decepcioná-lo desta forma?

Angustiada, Letícia passou a gritar ao mundo o seu gremismo. Contava seu caso a todos. Todos: a família, os amigos, os colegas de serviço, a manicure, o porteiro. Em pouco tempo, só Leo não sabia. Leandro, seu melhor amigo, chegou a cogitar de contar tudo a ele, mas foi demovido pelos outros amigos.

- Depois eles reatam e você é que vira o vilão da história - argumentavam.

Letícia ia escondida aos jogos do Grêmio, guardava uniformes retrôs do time de Telê Santana na casa da irmã e escreveu “FBPA” na parte interna da bolsa.

Leo tornou-se motivo de chacota no bairro em que morava, na agência de publicidade em que trabalhava, no bar que frequentava.

Letícia não suportava mais aquela vida dupla. Queria dizer a verdade, queria viver em paz com sua consciência. Um dia, decidiu que contaria a Leo, mas naquele dia, justamente naquele dia, ele a pediu em casamento. Letícia foi acometida por uma crise de choro. Leo achou que fosse de alegria, era de angústia.

Como a maioria dos criminosos, ela passou a dar indícios de seus atos. Só se vestia de azul, arrumava desculpas para não acompanhar Leo nos jogos do Inter, uma manhã pegou-se assobiando vou torcer pro Grêmio bebendo vinho. Leo achava estranho, mas não podia admitir a terrível verdade. Até que, na manhã de um domingo de Gre-Nal, ele descobriu. Da maneira clássica: Letícia havia deixado o celular sobre a mesa e um de seus amigos gremistas enviou-lhe uma mensagem: “Até a pé nós iremos!” E Leo viu. Por algum motivo, desconfiou daquela mensagem que a noiva recebia numa manhã de domingo, tomou o celular e leu a frase. Quando Letícia chegou, vinda de outro aposento da casa, ele estava à beira das lágrimas.

- O que é isso? - gritava, mostrando o celular. - O que é isso??? Não vá me dizer que você é uma... - engoliu em seco - ... uma... uma... gremista!

Letícia entrou em pânico. Fora descoberta. Ia perder seu noivo, seu futuro marido, seu amor. Pensou rápido. E rápido agiu.

- Não! - ela gritou. - Isso é um código. Confesso: eu tenho um amante. Estou deixando dele, não o amo, amo você, mas a verdade é que tenho, tenho sim, tenho um amante! Eu tenho! Me perdoa, Leo! Me perdoa!

Leo ficou arrasado, chorou, descabelou-se, mas disse que a perdoaria. Com uma condição: ela teria que ir ao Gre-Nal com a camiseta do Inter, com a bandeira do Inter, torcer pelo Inter. Letícia foi. Vestiu vermelho e arrastou-se para o Gre-Nal, o coração estilhaçado. Sentados os dois nas arquibancadas, enrolados na bandeira colorada, Leo abraçou Letícia e a beijou no rosto. Achando-se traído por um mero homem de carne e osso, não por uma instituição, ele suspirou, aliviado, e declarou, com lágrimas nos olhos:

- Eu sabia que podia confiar em você, Linda Vermelhinha. Minha Linda Linda Linda Vermelhinha...


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segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

► Crônicas do David Coimbra - 10

Sou fã do David Coimbra. Ponto.

E quando o cara é "O" cara no que faz (no caso dele, um baita escritor), torço pelo sucesso do David, divulgo o trabalho dele, e claro, compro os livros. rsrs. Aliás, nesse post AQUI dou uma dica show de bola (modestamente) pra quem quer uma boa leitura ou presentear alguém.

Enfim, e hoje ao invés de postar aqui apenas um texto do David como eu vinha fazendo, desta vez farei diferente. Postarei 13 capítulos de uma história que ele postou no seu blog. O título? Segue abaixo. Aproveitem, pois a história prende a atenção e vale a pena. David Coimbra na sua melhor fase.


[A NINFETA]
Ela tinha 16 anos.

Quando entrou no meu escritório, algo aconteceu no ambiente. Uma eletricidade diferente no ar, uma alteração de clima. A temperatura aumentou, tive vontade de afrouxar a gravata. Mas me contive. Não ficaria bem.

Ela vinha acompanhada da mãe. Sou advogado, a mãe dela queria fazer uma consulta qualquer. Não lembro o que era. Lembro é da menina. Ficou o tempo todo sentada ao lado da mãe, sem falar nada, sem fazer uma única pergunta ou comentário, apenas me olhando. Bastou aquilo para me deixar completamente atrapalhado.

Não sou nenhum tarado, é preciso deixar bem claro. Sou um homem sério, casado, pai de dois filhos que adoro. Também nunca fui chegado a ninfetas. Prefiro as mulheres mais maduras, mulheres com opinião, que sabem o que estão fazendo e não têm vergonha do que fazem. Mas aquela menina...

Um rostinho de propaganda de Nescau e um corpo de propaganda de cerveja. E as nadeguinhas. Precisava ver as nadeguinhas! Hmmm, empinadas, redondas, perfeitas, ai. E os pequenos seios! Coisa linda aqueles pequenos seios. Devo dizer que gosto de pequenos seios. Essa moda americana de peitões, francamente. Neste caso, sou um nacionalista.

Ela ficava me olhando daquele jeito. Aquele olhar não me enganava. Coquete, diria José de Alencar, e eu repito: coquete, era isso que ela era.

Mal ouvia o que a mãe dela dizia. A mulher falava e falava, eu via que os lábios dela se mexiam, distinguia certo ruído de palavras, mas não entendia lhufas.
Ao nos despedirmos, apertei a mão de uma e outra. A menina me enviou um sorriso suave e miou um tiau que me arrepiou todo. Só isso. Foi-se, deixando-me abobado atrás da escrivaninha, pensando que menina, que menina, que menina...

Achei que nunca mais teria notícias dela, mas uma semana depois a voz taquarenta da minha secretária anunciou pela linha interna:
— Suzi ao telefone.
— Suzi?
— Filha da Dona Ângela.

Tive dificuldades em disfarçar a excitação.
— Ah. Suzi.
— Aquela menina... — disse a secretária. Haveria alguma malícia naquelas reticências? Aquela maldita secretária vivia me dando indiretas. Pensei que deveria demiti-la, qualquer dia desses.
— Vou atender — falei, tentando aparentar dignidade.

Esperei que a secretária passasse a ligação. Passou. Aí aquela vozinha de rouxinol adolescente explicou que precisava entrevistar um advogado para um trabalho colegial. Será que eu poderia recebê-la? Não duraria mais de quinze minutos.

Tentei não parecer muito ansioso ao responder que claro que poderia recebê-la, imagina, seria um prazer. Marcamos para o dia seguinte. Desliguei sentindo-me jovem, sentindo-me vivo, mas sentindo, também, algum medo. Não sabia como tinha motivos para sentir medo. Sim, sim, eu tinha motivos para sentir medo...

2º CAPÍTULO:

No dia seguinte, lá estava ela bem na minha frente, os cabelos presos em maria-chiquinha, os seios juvenis mal contidos por uma blusa decotada demais para sua idade. E minissaia. Claro.

Ela estava de minissaia.

Começou a fazer perguntas. Anotava as respostas num caderno de espiral com a Sandy e o Júnior na capa. Eu olhava para ela, olhava, olhava bem, enquanto ela escrevia com uma esferográfica com pompom, e aquilo me deixava excitado, por Deus que deixava.

Ela tinha um anel no dedão do pé direito. Dedão... Forma de dizer, dedão. Dedinho. Dedinhozinhoinho. Um dedinho meigo, macio, parecia uma batatinha frita, dava vontade de morder. O pezinho dela todo era delicado, um pão cervejinha. Eu olhava para aquele pezinho que balançava devagar — ela estava de pernas cruzadas. Eu olhava e olhava e respirava pesadamente.

Passei a imaginar coisas com aquela coisinha, aquele nenê, aquela garotinha de colégio cheia de negaças e sorrisos de lado. Aí ela me fez uma pergunta atordoante:
— Você acredita no amoh?

Falou assim: amoh. Com agá. Como se fosse carioca. Abri a boca. Aquilo não podia fazer parte do trabalho escolar. Balbuciei:
— Amor? Se eu acredito no amor?

Ela sorria, superior. Tinha 16 anos e já enviava sorrisos de superioridade. Obra do instinto. As mulheres nascem com esse mecanismo de provocação dos homens. Quando chegam à adolescência e o primeiro homem lhes lança o primeiro olhar lúbrico, o instinto é acionado. Como se lhe apertassem um botão.
— Uma dúvida pessoal — justificou ela, levando a caneta aos lábios tenros.

Eu ainda estava perplexo. Que deveria responder? Queria agradar, mas ao mesmo tempo queria dar uma resposta madura, de homem experiente, muito mais sábio do que uma garotinha de 16 anos. Sorri. Ri. Balancei a cabeça:
— Ora, o amor...

Então ela fez um gesto de desdém com a mão e voltou a olhar para o caderno.
— Deixa pra lá - disse. - Não importa mesmo.

Fiquei fitando-a, embasbacado. Havia sido espancado intelectualmente por uma pirralha de 16 anos. Ela tinha açulado a minha concupiscência, depois tinha me deixado embaraçado, em seguida, quando sentiu que fora fisgado, me deixou no ar, como se não se importasse com a minha resposta, como se eu a tivesse desapontado com meu constrangimento.

Ainda estava pensando em como sair com dignidade daquela situação, quando ela encerrou a entrevista.
— Tenho que ir — miou.

Fiquei piscando, perplexo. Ela se levantou, ajeitou a saia com as mãos e sorriu. Fiquei sem saber o que dizer, frustrado, sentindo-me um fracasso. De pé, prestes a se retirar, ela escreveu algo no canto de uma folha do caderno, rasgou um pedaço da folha e esticou o braço na minha direção:
— Esse é meu celular. Se quiser me ligar...

E se foi, me deixando todo espalhado no carpete do escritório. E agora, Senhor? O que deveria fazer? Olhava para aquele número e tornava a me perguntar: o que fazer, o que fazer, o que fazer?

3º CAPÍTULO:

Dezesseis anos! Cara, dezesseis aninhos e ela já demonstrava a malícia de toda mulher. Passei o resto do dia pensando na visita de Suzi. Pensava o seguinte: Suzi, Suzi, Suzi... Era basicamente o que pensava.

Percebi que ela tomara o controle da situação com a velocidade de um ponta de ofício: havia entrado no meu escritório me chamando de senhor, no meio da conversa já era você, quando se despediu o tratamento descambara para o mais reles tu. Ela sabia o que queria. Sabia, a danadinha!

Decidi que ligaria para ela. Mas não no dia seguinte! Ah, não! Nada de mostrar ansiedade. Esperaria uma semana, matreiro, malandro, experiente, deixando cevar nela o desejo, deixando que ela pensasse: "Oh, Deus, aquele homem não ligará para mim? Pudera: ele pode ter a mulher que quiser. Ele não precisa de mim. E eu o quero, oh, Céus, como o quero! Como quero que ele me torne mulher!"

Era assim que eu a deixaria. E faria isso com calma. Com vagar. Com parcimônia. Sorrindo. Paciência: a maior das virtudes, como dizem os japoneses. Paciência, a arma dos sábios. Dos homens maduros, sérios, experientes, dos homens que já viveram tudo, que já viram de tudo, que já tiveram tantas mulheres, mulheres de todas as cores, de todos os tamanhos, de todos os sorrisos. Como eu. O velho Aírton. Velho lobo cheio de cicatrizes. Que não tem mais ilusões. Que não se deixa enganar. Que a fará sofrer um pouco.

Sim, ela provará uma dose do veneno da ansiedade. De não se saber desejada. De chorar olhando para o telefone. Sorri vitorioso ante este pensamento.

No dia seguinte, às oito da manhã, a primeira coisa que fiz ao chegar ao escritório foi ligar para ela. Não foi uma capitulação, nada disso. Tratou-se apenas de uma mudança de estratégia. Achei que a surpreenderia. Ao ouvir o alozinho dela, fiz um alô grave. Um alô de homem adulto, senhor de si, circunspecto, conhecedor do mundo e das coisas da vida:
– Alooou... – coloquei uma pausa entre o alô e minha apresentação, para fazer um suspense: – ...É o Aírton...

Mas, maldição!, ela não ficou nada surpresa. Cumprimentou-me como se minha ligação fosse a coisa mais natural do seu mundinho adolescente, como se eu fosse um de seus amiguinhos espinhentos e não um profissional ocupado, pleno de responsabilidades, fazendo a suprema concessão de ligar para uma meninota mal saída das meias três-quartos.
– Tudo bem? – perguntou casualmente, como se estivesse lixando as unhas.

Aquela irreverência me irritou.
– Tudo. Bom... você pediu para que eu ligasse.
– Pedi?

Mas o que era aquilo? Uma espécie de cilada? Afinal, ela estava interessada em mim ou não? Por que toda aquela cena? Por que viera ao meu escritório? Por que me dera o telefone? Eu devia era desligar na cara dela, isso era o que eu devia fazer. Mas não fiz. Disse, tão-somente:
– Você me deu seu telefone, lembra?
– Ah, é.

A voz dela continuava acentuada por uma casualidade perturbadora. Eu não sabia mais o que dizer. Até ouvir a voz dela, tinha certeza de que ela queria algo comigo. Agora achava estar sendo vítima de uma brincadeira. De criança, obviamente! Brincadeira de criança!

Foi quando ela me surpreendeu outra vez. Sussurrou:
– Quer me ver?

Senti um arrepio na espinha dorsal. Se dissesse que queria, estaria dando um passo perigoso em direção à infidelidade. Pensei na minha mulher, pensei nos meus filhos, pensei que eu, um quarentão, tendo um caso com uma adolescente de 16 anos, seria um escândalo. Seria acusado de tarado.

Pedófilo não, que ela estava longe de ser criança. Tarado, certamente. "Sedução", é o que prevê a lei para esses casos. Eu, um sedutor de menores. Justamente eu, um advogado. Pensei que devia me preservar, que devia fazer o certo, que devia proceder como um homem de verdade. Respondi:
– Quero.
– Imagino que isso não possa acontecer em um local público – finalmente, ela estava facilitando as coisas.
– Seria melhor que não.
– Onde, então?

Onde, onde, onde? Minha vontade era propor de irmos direto para um motel, mas como sugerir isso para uma mulher no primeiro encontro? Ainda mais uma coisinha de 16 anos! Uma menina! Não, um motel estava fora de cogitação. Pelo menos agora. Onde, então?
– Que tal a tua casa? – propôs ela.

Ri. Meu Deus, o que essa menina está pensando??? Num momento, parece compreensiva da minha situação de homem casado, pai de família. No outro, vem com essa história de ir para a minha própria casa. Será que endoidou?
– Na minha casa... Não pode...
– Não pode?... Não vai poder... nunca?
– Algum dia, talvez... – não queria descartar nada, naquele momento.
– Então só tem uma solução – a voz dela era muito decidida.
– Qual?
– A minha casa.
– A sua??? – estremeci. – E a sua mãe?
– Ela me deixa sozinha o dia inteiro. Só volta depois das dez da noite.
– Mas... Sua casa? Não sei, eu...
– Não quer?
– Eu? Quero. Claro...
– Então amanhã. Às quatro. Anota o endereço.

Meio que sem pensar, anotei. Ela ditou o endereço, despediu-se e desligou. Fiquei com o fone na mão, pasmado, pensando o que mais pensava desde que conhecera aquela menina: o que faço? O que faço? O que faço???

4º CAPÍTULO:

Suzi, Suzi, Suzi, só pensava em Suzi.

Ao chegar em casa, olhei bem para a minha mulher. Ela tem comissuras sobre o lábio superior. Pequenas rugas que lhe murcham a boca. E a carne sob os braços está cadente. Por favor! Quando uma mulher chega a essa fase, é o fim. Ou o começo do fim.

Que diferença das carnes rijas e tenras e macias e deliciosas e apetitosas e frescas e rosadas de Suzi. Suzi, Suzi, Suzi. E se Suzi estivesse comigo, aqui, agora, nesse apartamento? Poderia, por que não? Tantos casais se separam...

Pagaria uma boa pensão para a minha mulher, ela cuidaria dos nossos filhos. Até deixaria o apartamento para ela. Iria morar com Suzi na nossa casa em Pinhal. Teria de me afastar um pouco aqui de Porto Alegre, lógico, nosso relacionamento certamente causaria algum escândalo na sociedade, sabe como esta cidade é conservadora.

Imagino-me com Suzi passeando pela praia, ela com um biquíni minúsculo, eu de bermuda de surfista, sem camisa... Sem camisa... Apalpei a cintura. Decidi que vou retomar meus abdominais diários. Vinte no primeiro dia, depois vou aumentando, cinco por dia, até chegar a... quinhentos, talvez? Quinhentos é tanto...

Mas quê! Estou divagando. Imagina deixar minha boa vida de casado, estabelecido, meus dois filhos, a mulher que já me acompanha há 15 anos, deixar tudo isso por uma pirralha, uma menina que nem conheço direito. Como a gente fantasia, meu Deus...

Se bem que a vida é tão curta. Por que não aproveitar um pequeno e doce pedaço dela? Suzi, Suzi, Suzi. Oh, mais uma vez me pergunto: o que fazer, Cristo??? Levei essas reflexões para a cama. Devo ter dormido umas duas horas, durante as quais sonhei com Suzi.

No dia seguinte, acordei cedérrimo e tomei o banho mais demorado da minha vida. Até passei creme. Li na Zero Hora que alguns homens têm passado creme no rosto, então, tasquei creme e saí todo perfumado para o escritório.

O dia inteiro oscilei. Ora decidia que ia ao encontro, ora resolvia que nunca mais a veria. Perto das três horas, finquei pé: não iria. Pronto. Era muito perigoso. Muito arriscado. E tudo por quê? Por uma aventura sem significado? Não, não valeria a pena.

Então, meu celular apitou. Uma mensagem acabara de entrar. Conferi: era ela. Suzi.

Uma única frase. Uma pergunta:

"Você vem?"

Respondi, apressado: "Estou indo!"

Apanhei meu paletó, disse à secretária que não voltaria mais, que tinha uma reunião importante, nem dei bola quando ela ciciou "reunião, é?", pensei que tinha de demiti-la qualquer dia desses, e saí, zunindo.

Encontrar-me-ia com Suzi.

Sim! Suzi, Suzi, Suzi!

5º CAPÍTULO:

Às quinze para as quatro, rodava com meu Palio fúcsia por uma rua sombria do Bairro Sarandi. Ah, essas meninas do subúrbio...São as mais espertinhas, todo mundo sabe.

Parei diante de um prédio encardido. Conferi o número. Aquele mesmo. Desci do carro, caminhei até a porta do prédio, apertei no botão do porteiro eletrônico. Esperei por 10 segundos, 20 segundos, não atenderam. Seria o endereço certo? Conferi mais uma vez. Talvez estivesse chegando cedo demais...

Premi o botão novamente. Agora, sim, ouvi uma voz feminina dizendo alô. Não tinha a certeza de que era ela, mas mesmo assim falei no aparelho:

— É o Aírton!

Como resposta, ouvi o som da fechadura eletrônica se abrindo. Empurrei a porta. Entrei. Ela morava no segundo andar. Não havia elevador. Subi pelas escadas, de dois em dois degraus. Dois, quatro, seis, oito, dez, doze, quatorze, dezesseis.

Parei diante da porta do apartamento. Respirei fundo. Levantei o dedo para premer a campainha. Antes que a tocasse, a porta se abriu. Lentamente. Lentamente. Era ela. Suzi.

Suzi, Suzi, Suzi.

Vestia uma camiseta branca, básica, e só. A camiseta servia-lhe de vestido, descia-lhe até o começo das coxas lisas. Estava de pés descalços e tinha o cabelo molhado. Recém saíra do banho, cheirava a água quente e a sabonete.

Era como se eu estivesse diante da própria primavera. Fiquei com lágrimas nos olhos. Contive-me a custo para não me atirar a seus pés ali mesmo, no corredor, e beijar seus tornozelos perfeitos. Sério: eram os tornozelos mais perfeitos que já vira.

— Entra - ordenou ela, com um sorriso de covinhas.

Entrei, o coração palpitando. Uma sala de estar típica da classe média. Um sofá surrado, uma poltrona mais surrada ainda, um tapete ralo e a indefectível TV. Sobre a mesinha de centro, flores de plástico; sobre a estante, livro nenhum, exceto um pocket do Anonymus Gourmet e a Bíblia.

Aquela singeleza me emocionou. Havia um clima de austeridade naquele lugar. Suzi acomodou-se no sofá, puxando para cima os dois pequenos pés número 35. A camiseta subiu mais um pouco, revelando-lhe mais meio palmo de pernas rosadas. Lindo, aquilo.

— Senta - disse ela.

Sentei-me. Fiquei olhando para ela, olhando bem dentro de seus olhos. Ela sustentou o olhar. Enrubesceu, afinal. Em um segundo, transformou-se numa menininha. Na menininha que era. Baixou a cabeça, sorriu sem jeito.

— Tô com vergonha - miou.

Senti-me enternecido. E ao mesmo tempo excitado. Meu coração batia com força, minhas virilhas formigavam de prazer.

Aproximei-me dela. Ela não se moveu.

Aproximei-me mais. Ela continuou quietinha, encolhida no canto do sofá, uma menininha, uma coisinha.

Abracei-a. Senti seu corpo quente de encontro ao meu. Ela se aninhou no meu peito. Seus braços delicados me envolveram, e eu a envolvi com os meus. O cheiro quente e doce de seu hálito bafejava meu rosto, e era inebriante.

Fitei seus lábios polpudos. Ela respirava com força. Ofegava. Eu ofegava também.

Então a beijei. Eu a beijei. Eu a beijei.

E foi uma das emoções mais plenas que senti na vida, sua língua macia enrodilhando-se na minha, seus dentes brancos se chocando com os meus.

Foi tão bom. Tão bom. Foi aí que ouvi aquele ruído horrendo.

O pior ruído que poderia ouvir num momento como aquele. Que ruído foi? O que aconteceu?


6º CAPÍTULO:

Alguém estava mexendo na fechadura! Cristo, alguém estava tentando entrar! Quem, Senhor? Quem???

Como se eu tivesse feito a pergunta em voz alta, Suzi respondeu:
— É o Tijolo! — e acrescentou, aparentemente em pânico: — Meu Deus, meu Deus!

Saltei do sofá:
— Tijolo? Que Tijolo???
— Meu irmão mais velho! Meu Deus, meu Deus!

Olhei para a porta. O Tijolo continuava forçando a fechadura. Não estava conseguindo entrar.
— Teu irmão?
— Meu Deus, meu Deus!
— Você não me disse que tinha irmão!

O Tijolo continuava girando a chave do lado de fora, em vão.
— Você precisa fugir! Meu Deus, meu Deus!
— Eu? Fugir? Do seu irmãozinho? De jeito nenhum! Sou um adulto, um homem feito, não tenho medo. Não, garota, medo é uma palavra que não consta no meu dicionário. Vamos enfrentar essa situação com maturidade, com hombridade, com...
— Está louco??? — Suzi saltou do sofá. — Meu irmão é uma fera!
— Teu irmãozinho? — sorri. — Por favor...
— Irmãozinho??? Ele tem vinte e cinco anos, um metro e noventa, mais de cem quilos. E luta jiu jitsu!
— Meu Deus, meu Deus!
— Suzi!!! — O Tijolo berrou do lado de fora, e sua voz parecia ser a de um homem forte fisicamente. — Suzi!!! Você deixou a chave na fechadura, Suzi!!! Abre a porta, Suzi!!!
— Pula a janela! — sugeriu Suzi.

Corri para a janela. Olhei para baixo. Dois andares que pareciam vinte.
— Vou me quebrar todo se me jogar daqui!
— Meu Deus, meu Deus!
— Suzi!!! Tem alguém aí contigo, Suzi???
— Meu Deus, meu Deus! — repetiu Suzi.
— Meu Deus, meu Deus! — concordei.
— Suuuuziiii!!! Abre essa porta, Suzi! Vou derrubar a porta, Suzi!!!

Nós dois:
— Meu Deus, meu Deus!!!
— Vou derrubar essa porta, Suzi!!!
— Vem pro quarto! — ela pegou na minha mão.

Corremos para o quarto.
— Debaixo da cama! — ela disse.

A solução clássica. Humilhante. Mas era o que tínhamos para o momento. Agachei-me, olhei e estremeci: a cama era baixa demais.
— Não entro aqui!
— Meu Deus, meu Deeeuuusss!!!
— Suzi! Quem é que está aí contigo??? Quem está aí, Suzi???

Nós corríamos para um lado e para outro, sacudíamos os braços, não sabíamos o que fazer.
— Vou contar até dez, Suzi! Se essa porta não se abrir até o dez, eu vou arrombar, Suzi!
— Meu Deus!
— UM!
— Meu Deus!
— DOIS!
— Quem sabe o banheiro? — especulei.
—TRÊS!
— Ele vai te achar no banheiro!
— QUATRO!
— E o armário?
— CINCO!
— Muito pequeno!
— SEIS!
— Onde, então?
— SEEEETE!
— Meu Deus!
— Na cortina! Atrás da cortina!
— OITO!!!

Acomodei-me atrás da cortina.
— Fica quieto — ordenou Suzi. — Não fala nada! Ai, meu Deus.
— NOVE!!!
— Estou indo — gritou ela. — Estou indo!!! Meudeusmeudeusmeudeus!
— DEZ!!!!!!!!!!!!!!!

7º CAPÍTULO:

Lá estava eu. Escondido atrás de uma cortina de um quarto de menina, tremendo de medo de um irmão brabo que lutava jiu-jitsu e que tinha um metro e noventa de altura e que pesava mais de cem quilos e que, se me descobrisse, ia me transformar num estrogonofe.

Cena mais clichê, impossível. Logo eu, advogado bem constituído, homem sério, com mulher, filhos, uma carreira, um Pálio fúcsia, com mais de dez mil na caderneta de poupança. E por quê? Por causa de uma pirralha de 16 anos. Por causa da luxúria.

Ouvi a voz dela na sala:
— Pra que todo esse escândalo, Tijolo?
E o vozeirão dele:
— Quem taí, Suzi? Quem taí?
— Ninguém... Ficou maluco?
— Ouvi voz de homem, Suzi!
— Era a televisão.
— A televisão está desligada.
— Eu desliguei agora, ué.
— Ah, é? Deixa eu ver...

Supus que o Tijolo ia pôr a mão na TV a fim de constatar se estava quente. Acertei. Um segundo depois, ele exclamou:
— Está fria! Onde está ele?
— Não tem ninguém aqui, Tijolo! Ficou louco?
— Onde está esse safado?
— Pára, Tijolo!
— Eu vou achar! Eu vou achar!

Comecei a suar. E a rezar. Tremer, já estava tremendo. Seria uma humilhação. Seria uma vergonha. Minha mulher, meus filhos, meus amigos, meus colegas, todos iam se decepcionar comigo. E eu ainda ia levar o maior pau daquele brutamontes que bufava e berrava pela casa.

Podia ouvir o som da respiração pesada dele, dos seus passos de mastodonte, do barulho de móveis sendo arrastados, portas de armários sendo abertas, dele urrando:
— Cadê o desgraçado??? Cadê??? Vou matar! Vou matar esse tarado!!!

Era o que eu era. Um tarado. Um quarentão patético que queria se refocilar nas carnes lisas de uma menina de 16 anos. Oh, Deus, talvez eu merecesse aquele fim: ser torturado até a morte por um monstro lutador de jiu-jitsu, ser sovado por manoplas do tamanho de raquetes de tênis, ter minha cara convertida num xis galinha.

Prometi a Jesus, Maria e José ali mesmo que, se saísse daquela, nunca mais me meteria em aventura semelhante. Nunca mais! Transformar-me-ia em modelo de virtude conjugal. Aírton, o marido perfeito.

No instante mesmo que terminara de fazer minha promessa aos céus, percebi alguma movimentação perto de mim. Então, o horror!, a cortina se abriu!

8º CAPÍTULO:

SUZI!!!
Foi Suzi.

Foi ela quem abriu a cortina, graças ao Cavalo Celeste! Mas, naquele átimo de segundo em que o tecido foi afastado, confesso: quase que minha bexiga afrouxou. Foi por uma contração que não me urinei todo. Ia ser um fiasco.
— Vem! — sussurrou ela, num tom evidentemente urgente. — Ele está na área de serviço. Aproveita para fugir. Vem! Vem!

Não contestei, não falei nada, não argumentei. Saí correndo dali, deixando Suzi para trás, sem nem olhar para ela, sem dizer tiau, pensando: meu Deus, meu Deus!

Quando cheguei ao limiar da porta, ouvi o berro:
— QUEM É ESTE VAGABUNDO???

Olhei para trás e vi o Tijolo, que assomava à sala, esbaforido. Cristo! Sabe aquela cena em que o David Banner se transforma em Hulk? Era essa a pose do cara. E o tamanho também. E a cor: ele estava verde de raiva. Gritei:
— Meu Deus!

E deitei o cabelo, passei sebo nas canelas, saí em desabalada corrida, fugi covardemente, enfim, com ele atrás de mim, urrando:
— EU MATO! EU MATO!!!

Não tenho vergonha de dizer que sentia vontade de chorar enquanto corria como uma gazela pelo corredor, despencava escada abaixo e gania de pavor. Ao alcançar a porta do edifício, olhei mais uma vez para trás e vi. VI!

Jesusmariajosé!!! O Tijolo vinha que era uma locomotiva, bufando e resfolgando, vermelho e faiscante. Aquela cena terrível me deu ainda mais forças para correr. Joguei-me para dentro do meu Palio fúcsia, demorei o que me pareceram vinte minutos para acertar a ignição e arranquei, enquanto o Tijogo chutava e socava meu carro, gritando que ia me matar.

A tremedeira não passou antes de 15 minutos. Nem voltei ao escritório. Avisei minha secretária que estava me sentindo mal e que ia para casa. Ela respondeu com alguma ironiazinha que me irritou e me fez pensar que deveria demiti-la qualquer dia desses.

Minha mulher ficou muito surpresa ao me ver chegando em casa numa hora daquelas. Disse-lhe que havia decidido tirar o resto do dia para ficar com a família. Ela piscou, desconfiada, e mais desconfiada ficou quando a convidei para comer bolinho de batata no Schulas.

Não consegui relaxar, naquela noite, Nem dormir direito dormi. Pela manhã, cheguei ao escritório decidido: infidelidade, nunca mais. O advogado Aírton, aqui, acabava de se tornar o maior monógamo do mundo!

Tomei várias resoluções: gastaria mais tempo com minha mulher e meus filhos. Faríamos uma viagem. Cancun. Todos nós. Juntinhos. Ia ser legal. E não dormiria mais tanto nas tardes de domingo. Permaneceria horas e horas e horas com eles. Com minha família. Transformar-me-ia em um pai e em um marido perfeito.

Aírton, o bom marido.
Pensava em tudo isso, quando minha secretária anunciou pela linha interna:
— Dona Ângela está aqui.
— Quem?
— Dona Ângela.
— Não sei quem é.
— Sabe... — percebi a malícia nas reticências da secretária, a desgranida. — É a mãe da Suzi. A menininha — abri a boca quando a maldita secretária acrescentou, cheia de sarcasmo: — E ela está furiosa.

A tremedeira que senti no dia anterior voltou com força. Engoli em seco. Perguntei:
— O Tijolo está junto?
— Tijolo?
— É... O Tijolo...
— Tijolo?... Ei... Peraí, minha senhora! A senhora não pode...

Era óbvio que a mãe da Suzi estava forçando a entranda. Decerto estava com o Tijolo! Que que eu ia fazer? Não havia para onde correr! Saltei da cadeira. A porta se abriu. A mãe de Suzi entrou. Fincou as mãos na cintura. E rosnou:
— SEU TARADO!!! VOCÊ VAI PAGAR PELO QUE FEZ!!!

9º CAPÍTULO:

— Vou chamar a polícia! — avisou minha secretária, postada atrás da mãe de Suzi.

Ela queria, obviamente, assustar a mulher. Mas a última coisa de que eu precisava naquele momento era da intervenção da polícia. Tentei acalmá-la. Tentei acalmar as duas.
— Não! — gritei.
— Não é necessário. Eu resolvo isso.

A mãe de Suzi me olhava com um sorriso debochado, as mãos à cintura.
— Por favor — disse para ela.
— Por favor — fiz um gesto com as duas mãos espalmadas.
— Sente-se. Vamos esclarecer isso tudo. Vamos conversar...

A secretária continuava parada na soleira da porta. Agora não parecia mais espantada. Parecia tão debochada quanto a mãe de Suzi. Irritei-me com o olhar sardônico da maldita secretária. Por que ainda não a demiti? Isso é algo que alguém tem que me explicar.
— Feche a porta, por favor — disse para a secretária.

A mãe de Suzi já acomodara diante de mim, sentada de pernas cruzadas, a bolsa preta no colo, o mesmo sorriso irônico nos lábios.
— O senhor teve um caso com a minha filha. Uma menina de dezesseis anos — ciciou ela, entre dentes, numa voz sussurrada, acusatória, raivosa.
— Não! Não tive! Juro!
— O senhor a agarrou!
— Nããão! Juro que não!
— O senhor bolinou minha menina!
— Não! Não!
— O senhor a apalpou, a acariciou, a sovou!
— Não! Não! Não!
— O senhor despiu minha filha de dezessseis anos!
— Por Deus! Não! Nãããão!
— O senhor a deixou nua! Nua em pêlo! Nua como ela nasceu! Ela que é tão criança...
— Não, não, nããããããããã...
— O senhor a penetrou!!!
— Aaaaaah, nããããão!!!!!!!

Aquilo era uma tortura. Eu suava. Estava prestes a sair correndo dali. Juntei as mãos. Jurei:
— Pelos meus dois filhos: eu não mantive relações com a sua filha! Não mantive!
— Não?
— Não!
— Então o que o senhor estava fazendo no meu apartamento, sozinho com ela?

Pisquei. Senti-me tonto. Tomei ar. Tentei argumentar:
— Eu... Ah... Eu sei que é difícil de explicar...
— O senhor é casado.
— Eu... Sou...
— A sua mulher sabe que o senhor estava no meu apartamento, de tarde, sozinho com minha filha de dezesseis anos?
— Não! — falei um pouco alto demais aquele não.
— Não — repeti, mais calmo. Suspirei. As coisas não estavam bem paradas. Ela tinha o domínio da situação. Precisava inverter o jogo. Precisava levar a discussão para um caminho mais desimpedido para mim.
— Olha... O que a senhora pretende?
— O que eu pretendo... — ela começou a mexer na bolsa. Estremeci. O que ela tiraria daquela bolsa? Puxaria uma arma?
— O que eu pretendo... — continuava olhando para o interior da bolsa. Senti medo, naquele momento. Muito medo.

Comecei a falar rapidamente, tentando ganhar tempo:
— Olha, a senhora precisa acreditar. Não houve nada entre mim e a sua filha. Nada. Por Deus. Juro. É verdade que fui lá. Admito isso. Mas não fizemos nada. Nada, nada, nada. Nem toquei nela. Nunca encostei um dedinho na sua filha. Garanto que...

Ela puxou algo da bolsa. Algo de metal. Preto. Brilhante. Meu Deus, uma arma??? Aquele meio segundo foi uma eternidade, para mim. Mas não era uma arma. Era um celular. Fiquei um pouco mais calmo. Ela manteve o celular na mão fechada. Fitava-me calmamente.
— Vou dizer o que eu pretendo — falou, afinal.
— O quê? — estava ansioso por terminar aquilo de uma vez.
— O que a senhora quer?

Ela levantou uma sobrancelha.
— Simples. Quero o que tudo mundo quer.
— O que todo mundo quer? — não estava entendendo muito bem. Seria sexo? É sexo o que todo mundo quer? Ela ficou subitamente séria.
— Quero dinheiro.

Arregalei os olhos. Não era possível. Aquilo não estava acontecendo comigo. Estava sendo chantageado! Conhecia histórias assim. O chantagista, depois que arranca a primeira importância da vítima, não pára mais. Até arruiná-la. Até liquidá-la. Até sugar todo o sangue dela.

E era exatamente o que estava se sucedendo ali, no meu escritório. Senti-me infeliz. Senti-me um otário. E compreendi: era uma armação. Tinha caído numa cilada. Suzi, desgranida, decerto era a décima vez que fazia aquilo! Oh, Deus, o que ia fazer?

10º CAPÍTULO:

Era chegada a hora de colocar minha cabeça treinada de advogado para funcionar. Tinha um problema diante de mim e precisava resolvê-lo por meio da minha especialidade: a lógica. Sim, nós advogados somos dotados de uma lógica fria, metálica, cortante, invencível.

Nos escassos segundos de que dispunha, pus-me a raciocinar. Todo o poder de minha massa cinzenta foi mobilizado naqueles breves segundos. Em primeiro lugar: o que ela tinha contra mim?
Muito pouco.

Não precisava temer qualquer punição legal. Poderia ser acusado de sedução, mas que juiz condenaria um homem por ter se envolvido com uma moça de 16 anos numa cidade grande? Fosse uma ingenuazinha do interior, talvez, mas uma ladina como aquela Suzi? Por favor! Não, legalmente eu não tinha nada a temer.

Mas e o escândalo? É, o escândalo não seria positivo para mim. Além disso, havia a minha mulher, os meus filhos. Só que, neste caso, eu simplesmente negaria. Diria que nunca tinha havido nada entre nós, eu e Suzi. Quem poderia provar o contrário? Havia só o testemunho do Tijolo, mas eu diria que ele está mentindo a fim de me extorquir. Isso! Essa era a saída! Negar, negar e negar.

Suspirei, um pouco mais aliviado.
Nada como a lógica indúctil dos advogados.
— Minha senhora — estava bem mais tranqüilo ao dirigir-me à megera.
— Pense bem no que a senhora está fazendo — sorri um sorriso superior.
— O que a senhora tem contra mim? Nada. É a minha palavra contra a sua. Só. Não existe nada, nada, nada. Sou eu, um advogado conhecido na praça, contra a senhora, que está tentando me chantagear. Portanto, sugiro que...
— E isso? — ela mostrou o celular que tinha na mão.

Abri a boca. Não estava entendendo. Foi o que disse.
— Não estou entendendo...
— Esse é o celular da minha filha.
— Da sua filha?
— É. Da minha filha. Suzi. Aquela que o senhor seduziu.
— E o que é que tem este celular? — eu realmente não estava entendendo.
— O que é que tem? Vou lhe dizer o que é que tem esse celular: tem registrada uma troca de torpedos entre um quarentão e uma menina de dezesseis anos. O que o senhor acha disso?

Um segundo. Em um único segundo, meu sangue gelou, ferveu, congelou, ferveu de novo. Meu coração ficou petrificado e meu cérebro treinado de advogado virou patê. Ela tinha provas. Eu estava perdido.

Mais uma vez, senti vontade de chorar. Aquilo estava se tornando um hábito. Olhei para a harpia à minha frente. Se tivesse um revólver na gaveta, por Deus, a fuzilaria ali mesmo. Naquele instante, decidi participar da campanha contra o desarmamento.
— Vamos negociar? — sugeriu ela, sorrindo maliciosamente.
— Vamos... — suspirei, derrotado. — Quanto?

Ela abriu ainda mais o sorriso. Achei que ia esfregar as mãos. Tornou a guardar o maldito celular na bolsa.
— Vinte mil — sentenciou a maldita.

Saltei da cadeira:
— Vinte mil?!?
— É pouco. A paz vale mais do que vinte mil.
— Não tenho vinte mil!
— Sente-se.

Eu estava de pé. Continuei de pé.
— A senhora está louca! Eu não tenho vinte mil!
— Sente-se! — desta vez ela elevou a voz.

Obedeci. Sentei-me.
— Não tenho vinte mil... — repeti, quase num sussurro.
— Quanto o senhor tem?

Engoli em seco.
— No máximo, dez mil. É tudo que tenho. É a minha poupança de toda a vida.
— Muito bem — ela se levantou. — Dez mil. Amanhã. Às quatro horas. Volto aqui às quatro horas de amanhã. Passar bem.

E se foi, deixando-me a pensar que aquela família adorava esse horário das quatro horas.

Eles iam me arruinar, era isso que eles iam fazer comigo. Estava à mercê deles. Um patinho. Um otário. Não iam libertar-me jamais, minha vida se transformaria em um inferno, eu estava acabado. Tinha de fazer alguma coisa. Algo radical. Algo definitivo para me livrar daquela prisão. Para liquidar aquela gente. Mas o quê? O quê???

11º CAPÍTULO:

Minha poupança! Meus dez mil! As economias de toda uma vida! Tudo perdido, tudo pelo ralo!
Oh, Senhor! Onde estás, que não respondes? Em que estrela tu te escondes?

Permaneci uns 15 minutos, talvez mais, talvez meia hora, com a testa colada ao tampo da mesa de trabalho, desesperado, rezando, xingando o Cavalo Celeste, rezando outra vez, pensando em me matar, em esgoelar a desgranida da Suzi, em suicidar a mãe dela, em dar um tiro no olho do Tijolo, pensando na minha mulher, nos meus filhos, Cristo!, o que eu faria?
— Probleminhas? — era a voz irônica da secretária, que estava à porta, me olhando com aquela sua cara de deboche.

Olhei para ela. Não tinha forças nem para me irritar.
— Probleminhas? — repetiu.
— Não — respondi, com dificuldade.
— Por favor, feche... a porta...

Ela obedeceu, não sem antes lançar-me um outro olhar sardônico. Por Deus, vou demitir essa bruxa. Ah, vou!

Aí me irritei de verdade. Todas as minhas energias se concentraram na secretária odienta. Comecei a planejar a demissão dela. Faria isso agora mesmo. Chamaria-a ao meu gabinete e diria, brutal e singelamente:
— Arrume suas coisas e suma daqui! A senhora tem três minutos para desaparecer da minha vista!

Sim, era o que eu faria. Era exatamente o que eu faria! Olhei para o telefone, pronto para chamá-la, e o telefone, como se soubesse o que eu iria fazer, tocou. A linha interna.
A secretária.

Com aquela sua vozinha irritante:
— Ligação para o senhor...
— Quem é? – gritei, pouco disposto a aturar qualquer insinuação da bruxa.

Ela esperou alguns segundos até falar. Enfim falou:
— Suzi.

Entesei na cadeira. Suzi? Seria mesmo Suzi?
— É a Suzi?
— Suzi... — aquela vozinha outra vez.

Minha cabeça rodava, rodava mais que os casais.
O que devia fazer? Devia dizer que nunca mais falaria com aquela trapaceira? Sim, era o que eu faria. Daria uma lição na espertinha. Sim! Eu não sou um qualquer! Sou o advogado Aírton! Um homem adulto, maduro, responsável!

Sim!!! Mas... Mas o que ela poderia querer comigo? A curiosidade me acicatava. O que ela poderia querer? Extorquir-me ainda mais do que fez sua mãezinha? Família de pelintras! Ia xingá-la, isso sim! Ia espinafrá-la! Decidi atender.
— Alô.
— Oi... Tudo bem?

Falou como se nada tivesse acontecido, a cínica!
— Tudo — mantive-me duro, frio, impassível. Como o detetive Phillipe Marlowe.
— Tenho uma coisa importante para falar para você.
— O que poderia ser? – agora eu estava sendo tão debochado quanto a minha secretária.
— Ai, estou tão chateada com o que aconteceu lá em casa...
— Imagino — minha fina ironia escorria pelo fio do telefone. Podia congestionar as linhas, minha fina ironia!
— Tenho que pedir desculpas pelo Tijolo. Ele é um bobão. Já conversei com ele. Ele está mais calmo, não vai incomodar.
— Não? — ironia, ironia, a mais fina ironia, a nata da ironia, a ironia das ironias!
— Não... E eu também tinha uma coisa pra te pedir — ela falava como se tudo estivesse normal, uma atriz consumada, aquela menina.
— Pra mim? O quê? — imaginei que agora é que viria a mordida.
— Não liga para o meu celular, tá bem? Minha mãe me tirou o aparelho. O Tijolo contou para ela e ela me tirou o celular. Por enquanto estou sem, mas vou arranjar outro já, já. Prometo. Tenho uma amiga que vai me emprestar o dela amanhã, ela tem dois, aí eu...
— Peraí! — interrompi.
— Como é que é isso?

Agora, sim, é que minha cabeça rodava.
— Isso o quê?
— Você não sabia da sua mãe?
— Sabia do quê?
— Que ela esteve aqui?
— Minha mãe? Esteve aí???
— Esteve! E pediu dinheiro!
— Minha mãe??? Dinheiro? Pra quê?
— Tua mãe fez chantagem comigo! Disse que se eu não lhe der dinheiro ela conta tudo para a minha mulher, para a polícia, para a imprensa, para o FBI, para todo mundo!
— Meu Deus!
— É!
— Meu Deus!
— Pois é!
— Minha mãe... Ai... Olha, tenho que desligar.
— Não! Espera!
— Tenho que desligar. Te ligo de novo mais tarde. Não sai daí, certo?
— Espera, eu... Desligou.

O que ela iria fazer? Será que havia esperança para mim? Oh, Deus, o que vai acontecer? O quê? O quê???

12º CAPÍTULO:

Um minuto é muita coisa. Todos aqueles segundos. Sessenta, mais precisamente, o que significa que são 1 mais 2 mais 3 mais 4 mais 5 mais 6 mais 7...
Você sabe: um tempão.

Eu, no escritório, esperando pelo telefonema de Suzi, contava cada segundo, contava os minutos, e, por mais que contasse, nunca enchia uma hora. Olhava para o telefone e suspirava. Havia um paralelepípedo de angústia no meio da minha garganta e areia nos meus olhos e agulhas espetando meu pequeno cérebro.

No fim da tarde, aconteceu. O telefone tocou.
Tocou, finalmente!

Atendi ao primeiro trim, ansioso.
A voz da secretária:
— Seu Aírton?
— É a Suzi??? — perguntei, apressado.
— A Suzi? — ela riu baixinho. — Não, não é a Suzi... — riu de novo.

Que raiva. Odeio essa secretária! Odeio!
— O que a senhora quer?
— Só queria saber se o senhor deseja... mais alguma coisa. Estou saindo...
— Ah. Nada. Tudo bem.
— Então até amanhã.
— Até amanhã.

Desligou, a pústula. Não tem mãe, essa secretária!
Ficamos eu e o telefone no escritório.

A tarde se foi. A noite chegou. Suzi não ligou.

Oito horas.
E o telefone tocou. Pulei sobre o gancho. Gritei:
— Alô?
— Opa. Que grito é esse? - era a minha mulher.
— Ah... Desculpa... É que estou esperando o telefonema de um cliente...
— Ah... Você vai demorar muito? Vai jantar em casa?
— Mais uma ou duas horas no máximo.
— Tudo isso?
— Muito trabalho.
— Hum. Está bem. Então, tiau. Até mais.
— Até.

E mais uma hora se foi, e outra ainda, e Suzi não ligou. Às dez horas, voltei para casa arrasado, destruído, aniquilado, rebaixado à segunda divisão. No dia seguinte, teria de ir ao banco e raspar minha poupança. Meus dez mil.

Os dez mil da minha mulher e dos meus filhos. Os dez mil com os quais ia fazer uma viagem para Ciudad del Este, ah, como queria conhecer Ciudad del Este e comprar uns aparelhos de DVD... Como sofro, Deus!!!

Naquela noite, só fui dormir às seis da manhã. Às sete, levantei. Às sete e meia, estava saindo de casa. Caminhava como se tivesse bebido uma garrafa inteira de Velho Barreiro, sem vontade, sem sentir nada. Cheguei ao escritório antes das faxineiras. Consultei o saldo da minha poupança pela Internet: R$ 10.356,00. Que iriam para aquela bruxa. Quanta tristeza. Quanta dor.

Resolvi que só retiraria o dinheiro uma hora antes do meu encontro com a maldita mãe de Suzi. Alguma coisa poderia acontecer até lá. Quem sabe?...
Mas não aconteceu. É duro contar: não aconteceu.

Às três da tarde, saquei dez mil reais da minha poupança e voltei para o escritório. Ao passar pela secretária, ela comentou, com o velho tom de deboche:
— Probleminhas?

Minha resposta foi um suspiro. Pensei vagamente que deveria demitir aquela secretária. Entrei no gabinete. Sentei-me. Tirei os dez mil de uma sacola que trouxera do banco. Comecei a contar o dinheiro. Contei e recontei e contei de novo e contei mais uma vez e tornei a contar. Dez mil, dez mil, dez mil. Por que tudo é tão triste? Será que a felicidade ainda existe?

Às quatro em ponto, ocorreu o que eu esperava: o telefone tocou e a voz roufenha da secretária anunciou:
— Visita para o senhor.

Suspirei:
— Manda entrar.

Recostei-me na cadeira. Suspirei mais uma vez. A porta se abriu. E ela entrou.
Ela...
Ela...
Suzi.

De minissaia. De miniblusa. Linda, sedutora, fresca, tenra, primaveril como eu a vira pela primeira vez. Arregalei os olhos. Senti uma dor no peito. Senti o desejo a me formigar nas virilhas. E pensei:
Suzi.
E pensei ainda mais:
Suzi, Suzi, Suzi!

FINAL:

Ó.
Foi o que ela disse: ó.

Tão lindo. Ó. Nunca tinha ouvido ó assim. Pisou com seu pequenino pé o carpete que serve de morada para os ácaros do meu escritório, fez um biquinho, seus lábios rosados se enrugaram docemente, piscou duas vezes e falou, enfim:
— Ó.

E eu fiquei nervoso.
O fato é que desejava aquela menina. Tenho de reconhecer: desejava-a, e muito. Ainda que fosse uma vigarista, ainda que pretendesse me arruinar, roubar meus dez mil, meu Pálio fúcsia, minha reputação, ainda que quisesse me tirar tudo, sentia uma atração invencível por ela. Suzi. Oh, Suzi.

Suzi, Suzi, Suzi.

Aproximou-se da minha mesa. Vestia minissaia e miniblusa. E nem estava tão quente. Primavera em Porto Alegre, sabe como é. Ah, mas ela é que era a primavera.
— Posso sentar? - perguntou, com aquela sua vozinha de bombom Love-me.
— Por favor... — tentei dar à minha voz um tom adulto, maduro, sereno, mas meu coração de advogado batia forte, e não é fácil um coração causídico bater forte assim. Não. Um coração acostumado a data vênias não é qualquer coração.

Sentou-se, Suzi.
Cruzou as pernas lisas, deixando exposta a curva suave das coxas, uma curva mais perigosa que a da pista de Tarumã.

Puxou a cadeira um pouco mais para perto da mesa. Levou a mão à pequena bolsa que havia deitado no colo. Fiquei apreensivo. O que ela tiraria da bolsa? Lembrei do temor que senti quando sua mãe mexeu na bolsa, no dia anterior, sobre aquele mesmo carpete, naquela mesma cadeira.

Suzi puxou um envelope pardo. Depositou-o em minha mesa. Foi com alívio que vi aquele envelope inofensivo. Pelo menos achava que era inofensivo.
— Preciso te contar o que aconteceu — disse ela, debruçando-se em direção à mesa. Com o movimento, o vale de seus seios juvenis surgiu em meio à blusa, e meu coração ficou do tamanho de uma ervilha.
— E o que foi que aconteceu? — tartamudeei, cada vez mais excitado com a visão daquela panterinha.
— Isso com a minha mãe — ela suspirou. — Isso que aconteceu. Confesso que não foi a primeira vez que ela fez algo parecido. Ai, Aírton... — passou a mão nos cabelos e jogou a cabeça para trás. — Minha mãe é um problema, sabe? Ela gosta demais de dinheiro... Dinheiro, dinheiro, dinheiro. Ela faz coisas horríveis... Então, aquele dia, lá em casa... bom... o Tijolo nos pegou, você sabe...
— Sei...
— O Tijolo viu quando você saiu correndo lá de casa.
— Sei, sei.
— E ele ficou furioso.
— Como sei...

— Foi difícil controlar o Tijolo. Só consegui acalmá-lo no dia seguinte, mas, naquela noite, quando a mãe chegou, ele contou tudo pra ela. Aí ela pegou meu celular, disse que ia me castigar por aquilo me tirando o celular. Só que, ai, Aírton, só que eu acho que ela desconfiava que nós tínhamos trocado torpedos. É claro que ela já pensava em algo assim, é claro que pretendia pegar o celular como prova.
— É claro... — não conseguia parar de olhar para o decote dela.
— Pois é. Daí ela tentou fazer aquilo contigo. Te tirar dinheiro...
— É verdade... — como ela era fresca, como ela era tenra. Naquele momento, nem me importava mais com o meu dinheiro.
— Mas, Aírton, eu não sabia de nada.
— Não sabia? — franzi a testa. Não sabia se podia acreditar naquilo.
— Não. Juro! E posso provar.
— Como?
— Com isso aqui — ela apontou para o envelope pardo sobre a mesa. Até já havia esquecido do envelope.
— O que é que tem aí?
— Meu celular.
— Teu celular!
— Aquele celular.
— Aquele!
— Tirei da minha mãe. Sem que ela visse, claro. A essa hora deve estar louca, procurando pelo aparelho, revirando a casa toda — Suzi desenhou um sorrisinho safadinho naquela sua carinha safadinha. — É claro que ela sabe que, sem o celular, ela não tem nada — prosseguiu. — Mas ela nunca vai saber onde o celular está. Até já consegui outro — Mexeu na bolsa de novo, e de lá tirou um pequeno aparelho prateado. Ficou com o aparelho na mão. — É claro, também, que ela ainda vai tentar pedir o seu dinheiro. Aí você vai ter que dizer que duvida que ela tenha provas, vai ter que lidar com ela. Sem falar dessa minha visita, claro.
— Claro, claro!

Estava encantado. Estava emocionado. E o melhor: estava salvo! Suzi me salvara, me arrancara das garras furiosas de sua própria mãe! E eu, que havia duvidado dela! Oh, que menina maravilhosa! Que docinho! Que coisinha! Que anjo! E como era linda, meu Deus...

Ela se levantou. Ajeitou a saia com as mãos. Sorriu, e a sala se iluminou.
— Como você vê, eu não sabia de nada. Nunca menti. Agora vou embora — miou.
— Não! — pulei da cadeira.
— Não? — ela levantou uma sobrancelha.
— Não... — contive-me. — É que... Suzi... Eu queria saber: por que você me ligou aquele dia? Por que quis se encontrar comigo?

Ela abriu ainda mais o sorriso.
— Eu te escolhi — ciciou, e encolheu uma perna, como se estivesse envergonhada. Parecia realmente envergonhada.
— Me escolheu?
— É. Eu queria que meu primeiro homem fosse um homem maduro. Um homem que soubesse o que fazer com uma mulher.

Arregalei os olhos. Enrubesci como uma bandeirante adolescente. Comecei a tossir. Enquanto tossia, desnorteado, pensava: ela é virgem! Meu Deus, ela é virgem! Achava que fosse uma safadinha, uma malandra, uma garota que já tivesse passado por meia dúzia de namorados, e ela é virgem!!!
— Você... — balbuciei, depois de me recuperar. — Você é... é... é...
— Sou — interrompeu ela. — Sou virgem.

Virgem! Intocada! Nenhum homem jamais se cevou naquele corpo rijo e macio. Nenhum! E ela me queria! Ela se ofereceu a mim! Meu Deus! Meu Deus, meu Deus, meu Deus!

Quando limpei o suor da testa, Suzi já estava à porta.
— Tiau — disse ela, lançando-me um último sorriso. — O envelope é teu.

E se foi, rápida como um fantasma.
Ainda pensei em sair correndo atrás dela, mas lembrei da minha secretária. Ela decerto tiraria uma conclusão maliciosa, se eu me jogasse atrás de Suzi, decerto iria contar aquilo para alguém, não duvido que contasse até para a minha mulher. Maldita! Ainda demito aquela secretária.

Comecei a andar pelo escritório, tonto. Cristo, que oportunidade perdida! Que aventura louca! Que vida!!! Bom, mas pelo menos eu havia me saído razoavelmente bem daquela loucura toda...

Apesar de sentir-me aliviado, certa apreensão oprimia-me o peito. Nunca mais veria Suzi, isso era certo. E nem poderia procurá-la, de jeito nenhum. Ela disse que havia sido difícil acalmar o Tijolo. E aquela mãe dela era uma ameaça permanente, ah, era. Uma louca trapaceira, era isso que ela era. Não podia me arriscar. Já havia me arriscado o suficiente.

Mesmo assim, estava triste com o desfecho da história. Estava frustrado. Essa a palavra certa: frustrado.
Caminhei até a mesa. Olhei para o envelope. Sopesei-o, e o abri. Saquei o celular de dentro e, junto com o celular, um papel. Um bilhete de Suzi. Uma despedida, pensei.

Não era um bilhete. Era um número. Oito números, na verdade. Refleti. O que será que... O novo celular dela! Meu coração pulou na garganta. Li e reli aquele número, li e reli, li e reli.

Pensei que seria arriscado, muito arriscado, que não valia a pena tentar, que poderia passar por todo aquele inferno de novo, que já havia me livrado de toda a confusão e que não precisava daquilo para mim, ah, não, eu era um homem feito, um adulto, um advogado bem constituído, com mulher, dois filhos, dez mil na poupança, um Pálio fúcsia, era isso o que eu era.

Por que arriscar tudo isso? Por quê??? Mas aquele número reluzia diante de mim, piscava como um anúncio de néon, e perguntei para mim mesmo: por que não? Afinal, ela é Suzi. Ah, Suzi.

Suzi, Suzi, Suzi.


[Blog do David Coimbra -
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