Você é fã do Coringa que nem eu? Acha-o " "O" Vilão dos Vilões "? Curte os gibis do Batman? É fissurado nas histórias em quadrinhos A Piada Mortal, Asilo Arkham e O Cavaleiro das Trevas? Achou a interpretação (depois que viu a de Heath Ledger) de Jack Nicholson meia-boca? Salivou e ficou pasmo com o que o próprio Ledger fez com o Coringa? Então este é o seu post
Porque? Pois bem, abaixo listo (citando a revistaSET como fonte) 10 gibis + histórias do Coringa que são obrigatórias para você que é fã do Palhaço do Crime.
E não é só isso - já diria o 011 14 06 (he he he) - você ainda leva de brinde um resumão de oito versões do Coringa! Seja nos gibis, na TV e no cinema. Imperdível, né?
E sem mais delongas, vamos ao que interessa...
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[AS HISTÓRIAS ESSENCIAIS DO PALHAÇO DO CRIME]
[A PIADA MORTAL] (1998) De: Alan Moore e Brian Bolland
Apesar de a origem do Coringa ser desconhecida e não-aprovada pela DC, essa graphic novel é a história mais próxima de desvendar o passado do personagem. Alan Moore dá uma dimensão trágica aos fatos que levaram à criação do Coringa (morte da esposa grávida, falta de dinheiro). Aqui, o palhaço deseja provar que a insanidade é produto do meio, aleijando a filha adotiva do comissário Gordon e capturando o próprio.
[ASILO ARKHAM] (1989) De: Grant Morrison e Dave McKean
O britânico Grant Morrison transformou a eterna luta do Batman contra o Coringa num jogo psicológico com toques obsessivos e até homossexuais. A trama alterna um pouco a história do Asilo Arkham, hospício que abriga os vilões insanos do Morcegão, e a chegada do herói ao local tomado pelos pacientes - eles ameaçam matar os funcionários caso o Cavaleiro das Trevas não apareça para servir de saco de pancada. Passou anos como a edição de luxo mais vendida da DC (500 mil cópias), parte por causa da magnífica arte de Dave McKean.
[BATMAN Nº1] (1940) De: Bob Kane, Bill Finger e Jerry Robinson
O visual mais tétrico e ameaçador do Coringa surgiu ainda nos primeiros anos do Batman. Neste, nada de armadilhas pitorescas. O vilão era assassino em série (mata cerca de quarenta pessoas em três revistas) com a face do ator Conrad Veidt. Heath Ledger disse que essa fase inicial foi sua grande inspiração.
[THE JOKER'S FIVE WAY REVENGE] (1973) De: Dennis O'Neil e Neal Adams
Após duas décadas de palhaçadas infantis (nos anos 60, o Coringa nunca matava inocentes) e planos de dar inveja a Scooby-Doo, o vilão volta às raízes letais. Esse arco que marca a era do Batman mais dark, detetivesco e sério coloca o Palhaço do Crime assassinando seus antigos comparsas em busca de vingança contra quem o dedurou para a polícia. Insanidade, investigação e morte em plenos anos 70, quando o mundo dos gibis era somente cores e alegria.
[BATMAN - O CAVALEIRO DAS TREVAS] (1986) De: Frank Miller
No futuro, o Coringa encontra-se em estado catatônico, mas acorda ao saber da volta do Batman. Posando de regenerado e levando seu psiquiatra na conversa, o vilão arranja uma entrevista na TV e mata todos os presentes. O duelo final ocorre num parque de diversões, quando o herói imagina quantas vidas poderia ter salvado caso tivesse destruído o psicopata anos antes e parte para colocar um ponto final na história de crimes.
[MORTE EM FAMÍLIA] (1988-1989) De: Jim Starlin e Jim Amparo
O enredo em si não tem grandes méritos, mas é representativo para quem quer conhecer a história do Coringa: aqui o vilão mata o segundo Robin, Jason Todd, com um pé-de-cabra. A trama usa referência sobre terrorismo, com o vilão de posse de uma bomba nuclear.
[BATMAN: O HOMEM QUE RI] (2005) De: Ed Brubaker e Doug Mahnke
"Remake" do primeiro encontro do Batman com o Coringa, com o estilo noir do roteirista Ed Brubaker atualizando o duelo, colocando-o na continuidade estabelecida em Batman: Ano Um.
[BATMAN: LOUCO AMOR] (1994) De: Paul Dini e Bruce Timm
Baseado no desenho animado produzido pela dupla nos Anos 90, o álbum mostra que o Coringa não precisa ser proibido para menores. Sua loucura é triplicada e, com ela, vai embora a sanidade da médica Harleen Quinzel, que se apaixona pelo vilão, tornando-se a vilã Arlequina - que depois foi incorporada aos gibis do Batman.
[LIGA DA JUSTIÇA: O PREGO] (1998) De: Alan Davis
História de um universo paralelo, onde o Coringa toma posse de armamentos kriptonianos e mata Robin e a Batgirl na frente do herói, que surta e assassina o vilão com as próprias mãos diante das câmeras de TV.
[THE LAUGHING FISH] (1977-1978) De: Steve Englehart e Marshall Rogers
Publicada em dois capítulos em Detective Comics, a trama mostra um Coringa mais ardiloso, atirando uma substância no mar que dá aos peixes seu "sorriso". Aproveitando a jogada ele adquire os direitos sobre os bichos e exige que todos os pescadores paguem cotas. Quando os políticos rejeitam o plano, o Palhaço começa a matar um a um.
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[DO TRAÇO DE BOB KANE À INTERPRETAÇÃO ICÔNICA DE HEATH LEDGER, OS PASSOS PARA O CORINGA TORNAR-SE UM DOS VILÕES MAIS QUERIDOS DA CULTURA POP]
[O ORIGINAL]
Área de atuação: história em quadrinhos
1ª aparição: Batman Nº1
Ano: 1940 A origem do maior vilão dos quadrinhos (e não apenas do Batman) é cercada de controvérsia. Apesar de todos os envolvidos concordarem que a face vem do filme The Man Who Laughs, mais precisamente do ator Conrad Veidt, Bob Kane - criador do Cavaleiro das Trevas - alega que o visual é idéia dele e Bill Finger e que Jerry Robinson tinha apenas mostrado a carta de baralho como referência! Robinson, por sua vez, declara que fez os rascunhos do personagem e que eles teriam lembrado Finger da cara congelada de Veidt no longa-metragem. Polêmicas à parte, o Coringa estreou nos quadrinhos no primeiro número de Batman, título que dividiria com o existente Detective Comics as aventuras do Homem-Morcego. A aparência inconográfica não mudou ao longo dos anos: lábios vermelhos, pele esbranquiçada, cabelos verdes e sorriso assustador. O método de atuação ainda era meio direto, sem tramóias. O Coringa original era um genocida frio e armado com duas pistolas.
[VISUAL DEFINITIVO]
Área de atuação: histórias em quadrinhos
1ª aparição: Batman 251
Ano: 1973
O maníaco homicida retorna às origens no começo dos Anos 70, quando o desenhista Neal Adams começou sua jornada no Batman mais dark dos gibis até a chegada de O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller. O Coringa assassino em séries, entretanto, não foi a mudança mais reconhecível nessa fase. Foi Adams que alongou seu queixo de forma monstruosa, aumentou a estatura do personagem e introduziu uma espécie de uniforme roxo. O visual solidificou a imagem do vilão para sempre.
[O EXAGERADO]
Área de atuação: TV
1ª aparição: Batman - Episódio 5
Ano: 1966
Com o sucesso da série de TV galhofagem do Batman, não demorou muito para o Palhaço do Crime ganhar sua versão kitsch. Ao lado de Adam West (Batman) e Burt Ward (Robin), o descendente de hispânicos Cesar Romero topou estrelar o episódio "The Joker Is Wild" com uma condição: seu famoso bigode não poderia ser raspado. O resultado é que a maquiagem branca do bandido foi aplicada de forma tosca por cima dos pêlos e o sorriso era delineado apenas pelo batom. Apesar do esforço do simpático Romero, o vilão parecia um arremedo do original. Sua preocupação era apenas em criar armadilhas idiotas e seu gás do riso nem ao menos era mortal. A versão do latino durou dois anos e 18 capítulos - além de um longa.
[O ASTRO]
Área de atuação: cinema
1ª aparição: Batman, de Tim Burton
Ano: 1989
Quando Tim Burton foi o escolhido para dar vida ao Caveleiro das Trevas, ainda assombrado pela série de TV cômica, ele não estava vivificando um herói, mas dando um novo pontapé nas adaptações de quadrinhos para o cinema. Escalado para o papel quando o filme estava em fase de gestação, o super-hiper-mega astro Jack Nicholson fez o contraponto ao parceiro de Burton em Beetlejuice, Michael Keaton, no papel de Bruce Wayne/Batman. O Coringa de Nicholson - que embolsou uma fatia dos lucros do longa e recebeu um dos maiores salários pagos para um ator em todos os tempos - tem pitada da origem trágica mostrada em A Piada Mortal, graphic novel escrita por Alan Moore, mas com certa ingenuidade dos Anos 60, exemplo do uso de armas fantásticas e brinquedos mortais. O roteiro transformou o Coringa no responsável direto pela criação do Batman, quando, ainda como o ladrão Jack Napier, matou os pais de Bruce. O problema aqui não era apenas o exagerado tom cômico, mas tentar esquecer que era Jack Nicholson com um sorriso deformado e a pela branca por causa de um acidente químico.
[O ANIMADO]
Área de atuação: TV
1ª aparição: Batman - A Série Animada
Ano: 1992 Se os fãs ficaram decepcionados com o Batman sem ação e travado de Burton, a encarnação do personagem na animação supervisionada e escrita por Paul Dini e Bruce Timm lavou a alma. O mesmo pode-se dizer do Coringa. Os ecos da versão de Nicholson foram embora e o vilão voltou a pagar tributo à criação de Kane, Finger e Robinson. Como bons viciados em gibis, as referências não param apenas no visual mais atarracado e quadrado do bandido. Há a flor que jorra ácido, invenção setentista; uma namorada malucona, toque moderninho; e as bugigangas dos Anos 60. Além disso, é dublado por Mark Hamill (o Luke Skywalker de Star Wars), numa "interpretação" que muitos consideram melhor que todas as feitas no cinema e TV. Esse Coringa também foi pouco mudado para os desenhos do Batman (inclusive, Batman Beyond, no qual reaparece violento e de cabelo raspado no longa O Retorno do Coringa) e da Liga da Justiça.
[O DESPERCEBIDO]
Área de atuação: TV
1ª aparição: Birfs of Prey
Ano: 2002
Numa tentativa de situar a série estrelada pela filha do Batman, Helena Kyle (fruto da união com a Mulher-Gato), Barbara Gordon (a Batgirl do passado) e Dinah Lance (Canário Negro, nos quadrinhos), os roteiristas mostraram de forma rápida como o Coringa (o desconhecido Roger Stoneburner) aleijou Barbara numa luta com o Batman! Na tentativa de chamar os nerds, Stoneburner foi dublado por Hamill.
[O INOVADOR]
Área de atuação: TV
1ª aparição: The Batman
Ano: 2004
A animação sobre os primeiros anos do Batman trás o Coringa mais diferente de todas as encarnações. Cabelos verdes rastafári, língua azul, olhos vermelhos e sorriso quebrado somam-se a um uniforme baseado em camisas-de-força de um hospício. Suas ações tornam-se cada vez mais pessoais contra o herói e revelam uma ligação maior entre os dois antagonistas.
[O DESTRUIDOR! O ICÔNICO! O CORINGA DEFINITIVO]
Área de atuação: cinema
1ª aparição: Batman - O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight)
Ano: 2008
O diretor Christopher Nolan, ao contrário de Burton, não está preocupado com a origem do Coringa no seu Batman - O Cavaleiro das Trevas! Para ele, o personagem é um agente do caos, que aparece sem avisar e causando destruição. Para o falecido Heath Ledger (que viria a ganhar o Globo de Ouro e quem sabe o Oscar(?) pelo papel), o personagem é um psicótico (anda com facas nos bolsos) inspirado nas primeiras histórias de Bob Kane e Bill Finger. Aliás, o próprio Ledger diz ter se inspirado também no cantor Sid Vicious e no papel do ator Malcolm McDowell em Laranja Mecânica. O estilo realista de Nolan também é influência sobre a nova encarnação! Seu sorriso é formado por duas cicatrizes nos cantos da boca, cobertas com batom borrado. O uso das cores verde e roxo também permanecem, ganhando tons mais escuros e sujos, combinando com a maquiagem mal aplicada e os cabelos verde-musgo. Enfim, o Coringa definitivo. É fato.
E quando o cara é "O" cara no que faz (no caso dele, um baita escritor), torço pelo sucesso do David, divulgo o trabalho dele, e claro, compro os livros. rsrs. Aliás, nesse post AQUI dou uma dica show de bola (modestamente) pra quem quer uma boa leitura ou presentear alguém.
Enfim, e hoje ao invés de postar aqui apenas um texto do David como eu vinha fazendo, desta vez farei diferente. Postarei 13 capítulos de uma história que ele postou no seu blog. O título? Segue abaixo. Aproveitem, pois a história prende a atenção e vale a pena. David Coimbra na sua melhor fase.
[A NINFETA] Ela tinha 16 anos.
Quando entrou no meu escritório, algo aconteceu no ambiente. Uma eletricidade diferente no ar, uma alteração de clima. A temperatura aumentou, tive vontade de afrouxar a gravata. Mas me contive. Não ficaria bem.
Ela vinha acompanhada da mãe. Sou advogado, a mãe dela queria fazer uma consulta qualquer. Não lembro o que era. Lembro é da menina. Ficou o tempo todo sentada ao lado da mãe, sem falar nada, sem fazer uma única pergunta ou comentário, apenas me olhando. Bastou aquilo para me deixar completamente atrapalhado.
Não sou nenhum tarado, é preciso deixar bem claro. Sou um homem sério, casado, pai de dois filhos que adoro. Também nunca fui chegado a ninfetas. Prefiro as mulheres mais maduras, mulheres com opinião, que sabem o que estão fazendo e não têm vergonha do que fazem. Mas aquela menina...
Um rostinho de propaganda de Nescau e um corpo de propaganda de cerveja. E as nadeguinhas. Precisava ver as nadeguinhas! Hmmm, empinadas, redondas, perfeitas, ai. E os pequenos seios! Coisa linda aqueles pequenos seios. Devo dizer que gosto de pequenos seios. Essa moda americana de peitões, francamente. Neste caso, sou um nacionalista.
Ela ficava me olhando daquele jeito. Aquele olhar não me enganava. Coquete, diria José de Alencar, e eu repito: coquete, era isso que ela era.
Mal ouvia o que a mãe dela dizia. A mulher falava e falava, eu via que os lábios dela se mexiam, distinguia certo ruído de palavras, mas não entendia lhufas.
Ao nos despedirmos, apertei a mão de uma e outra. A menina me enviou um sorriso suave e miou um tiau que me arrepiou todo. Só isso. Foi-se, deixando-me abobado atrás da escrivaninha, pensando que menina, que menina, que menina...
Achei que nunca mais teria notícias dela, mas uma semana depois a voz taquarenta da minha secretária anunciou pela linha interna:
— Suzi ao telefone.
— Suzi?
— Filha da Dona Ângela.
Tive dificuldades em disfarçar a excitação.
— Ah. Suzi.
— Aquela menina... — disse a secretária. Haveria alguma malícia naquelas reticências? Aquela maldita secretária vivia me dando indiretas. Pensei que deveria demiti-la, qualquer dia desses.
— Vou atender — falei, tentando aparentar dignidade.
Esperei que a secretária passasse a ligação. Passou. Aí aquela vozinha de rouxinol adolescente explicou que precisava entrevistar um advogado para um trabalho colegial. Será que eu poderia recebê-la? Não duraria mais de quinze minutos.
Tentei não parecer muito ansioso ao responder que claro que poderia recebê-la, imagina, seria um prazer. Marcamos para o dia seguinte. Desliguei sentindo-me jovem, sentindo-me vivo, mas sentindo, também, algum medo. Não sabia como tinha motivos para sentir medo. Sim, sim, eu tinha motivos para sentir medo...
2º CAPÍTULO:
No dia seguinte, lá estava ela bem na minha frente, os cabelos presos em maria-chiquinha, os seios juvenis mal contidos por uma blusa decotada demais para sua idade. E minissaia. Claro.
Ela estava de minissaia.
Começou a fazer perguntas. Anotava as respostas num caderno de espiral com a Sandy e o Júnior na capa. Eu olhava para ela, olhava, olhava bem, enquanto ela escrevia com uma esferográfica com pompom, e aquilo me deixava excitado, por Deus que deixava.
Ela tinha um anel no dedão do pé direito. Dedão... Forma de dizer, dedão. Dedinho. Dedinhozinhoinho. Um dedinho meigo, macio, parecia uma batatinha frita, dava vontade de morder. O pezinho dela todo era delicado, um pão cervejinha. Eu olhava para aquele pezinho que balançava devagar — ela estava de pernas cruzadas. Eu olhava e olhava e respirava pesadamente.
Passei a imaginar coisas com aquela coisinha, aquele nenê, aquela garotinha de colégio cheia de negaças e sorrisos de lado. Aí ela me fez uma pergunta atordoante:
— Você acredita no amoh?
Falou assim: amoh. Com agá. Como se fosse carioca. Abri a boca. Aquilo não podia fazer parte do trabalho escolar. Balbuciei:
— Amor? Se eu acredito no amor?
Ela sorria, superior. Tinha 16 anos e já enviava sorrisos de superioridade. Obra do instinto. As mulheres nascem com esse mecanismo de provocação dos homens. Quando chegam à adolescência e o primeiro homem lhes lança o primeiro olhar lúbrico, o instinto é acionado. Como se lhe apertassem um botão.
— Uma dúvida pessoal — justificou ela, levando a caneta aos lábios tenros.
Eu ainda estava perplexo. Que deveria responder? Queria agradar, mas ao mesmo tempo queria dar uma resposta madura, de homem experiente, muito mais sábio do que uma garotinha de 16 anos. Sorri. Ri. Balancei a cabeça:
— Ora, o amor...
Então ela fez um gesto de desdém com a mão e voltou a olhar para o caderno.
— Deixa pra lá - disse. - Não importa mesmo.
Fiquei fitando-a, embasbacado. Havia sido espancado intelectualmente por uma pirralha de 16 anos. Ela tinha açulado a minha concupiscência, depois tinha me deixado embaraçado, em seguida, quando sentiu que fora fisgado, me deixou no ar, como se não se importasse com a minha resposta, como se eu a tivesse desapontado com meu constrangimento.
Ainda estava pensando em como sair com dignidade daquela situação, quando ela encerrou a entrevista.
— Tenho que ir — miou.
Fiquei piscando, perplexo. Ela se levantou, ajeitou a saia com as mãos e sorriu. Fiquei sem saber o que dizer, frustrado, sentindo-me um fracasso. De pé, prestes a se retirar, ela escreveu algo no canto de uma folha do caderno, rasgou um pedaço da folha e esticou o braço na minha direção:
— Esse é meu celular. Se quiser me ligar...
E se foi, me deixando todo espalhado no carpete do escritório. E agora, Senhor? O que deveria fazer? Olhava para aquele número e tornava a me perguntar: o que fazer, o que fazer, o que fazer?
3º CAPÍTULO:
Dezesseis anos! Cara, dezesseis aninhos e ela já demonstrava a malícia de toda mulher. Passei o resto do dia pensando na visita de Suzi. Pensava o seguinte: Suzi, Suzi, Suzi... Era basicamente o que pensava.
Percebi que ela tomara o controle da situação com a velocidade de um ponta de ofício: havia entrado no meu escritório me chamando de senhor, no meio da conversa já era você, quando se despediu o tratamento descambara para o mais reles tu. Ela sabia o que queria. Sabia, a danadinha!
Decidi que ligaria para ela. Mas não no dia seguinte! Ah, não! Nada de mostrar ansiedade. Esperaria uma semana, matreiro, malandro, experiente, deixando cevar nela o desejo, deixando que ela pensasse: "Oh, Deus, aquele homem não ligará para mim? Pudera: ele pode ter a mulher que quiser. Ele não precisa de mim. E eu o quero, oh, Céus, como o quero! Como quero que ele me torne mulher!"
Era assim que eu a deixaria. E faria isso com calma. Com vagar. Com parcimônia. Sorrindo. Paciência: a maior das virtudes, como dizem os japoneses. Paciência, a arma dos sábios. Dos homens maduros, sérios, experientes, dos homens que já viveram tudo, que já viram de tudo, que já tiveram tantas mulheres, mulheres de todas as cores, de todos os tamanhos, de todos os sorrisos. Como eu. O velho Aírton. Velho lobo cheio de cicatrizes. Que não tem mais ilusões. Que não se deixa enganar. Que a fará sofrer um pouco.
Sim, ela provará uma dose do veneno da ansiedade. De não se saber desejada. De chorar olhando para o telefone. Sorri vitorioso ante este pensamento.
No dia seguinte, às oito da manhã, a primeira coisa que fiz ao chegar ao escritório foi ligar para ela. Não foi uma capitulação, nada disso. Tratou-se apenas de uma mudança de estratégia. Achei que a surpreenderia. Ao ouvir o alozinho dela, fiz um alô grave. Um alô de homem adulto, senhor de si, circunspecto, conhecedor do mundo e das coisas da vida:
– Alooou... – coloquei uma pausa entre o alô e minha apresentação, para fazer um suspense: – ...É o Aírton...
Mas, maldição!, ela não ficou nada surpresa. Cumprimentou-me como se minha ligação fosse a coisa mais natural do seu mundinho adolescente, como se eu fosse um de seus amiguinhos espinhentos e não um profissional ocupado, pleno de responsabilidades, fazendo a suprema concessão de ligar para uma meninota mal saída das meias três-quartos.
– Tudo bem? – perguntou casualmente, como se estivesse lixando as unhas.
Aquela irreverência me irritou.
– Tudo. Bom... você pediu para que eu ligasse.
– Pedi?
Mas o que era aquilo? Uma espécie de cilada? Afinal, ela estava interessada em mim ou não? Por que toda aquela cena? Por que viera ao meu escritório? Por que me dera o telefone? Eu devia era desligar na cara dela, isso era o que eu devia fazer. Mas não fiz. Disse, tão-somente:
– Você me deu seu telefone, lembra?
– Ah, é.
A voz dela continuava acentuada por uma casualidade perturbadora. Eu não sabia mais o que dizer. Até ouvir a voz dela, tinha certeza de que ela queria algo comigo. Agora achava estar sendo vítima de uma brincadeira. De criança, obviamente! Brincadeira de criança!
Foi quando ela me surpreendeu outra vez. Sussurrou:
– Quer me ver?
Senti um arrepio na espinha dorsal. Se dissesse que queria, estaria dando um passo perigoso em direção à infidelidade. Pensei na minha mulher, pensei nos meus filhos, pensei que eu, um quarentão, tendo um caso com uma adolescente de 16 anos, seria um escândalo. Seria acusado de tarado.
Pedófilo não, que ela estava longe de ser criança. Tarado, certamente. "Sedução", é o que prevê a lei para esses casos. Eu, um sedutor de menores. Justamente eu, um advogado. Pensei que devia me preservar, que devia fazer o certo, que devia proceder como um homem de verdade. Respondi:
– Quero.
– Imagino que isso não possa acontecer em um local público – finalmente, ela estava facilitando as coisas.
– Seria melhor que não.
– Onde, então?
Onde, onde, onde? Minha vontade era propor de irmos direto para um motel, mas como sugerir isso para uma mulher no primeiro encontro? Ainda mais uma coisinha de 16 anos! Uma menina! Não, um motel estava fora de cogitação. Pelo menos agora. Onde, então?
– Que tal a tua casa? – propôs ela.
Ri. Meu Deus, o que essa menina está pensando??? Num momento, parece compreensiva da minha situação de homem casado, pai de família. No outro, vem com essa história de ir para a minha própria casa. Será que endoidou?
– Na minha casa... Não pode...
– Não pode?... Não vai poder... nunca?
– Algum dia, talvez... – não queria descartar nada, naquele momento.
– Então só tem uma solução – a voz dela era muito decidida.
– Qual?
– A minha casa.
– A sua??? – estremeci. – E a sua mãe?
– Ela me deixa sozinha o dia inteiro. Só volta depois das dez da noite.
– Mas... Sua casa? Não sei, eu...
– Não quer?
– Eu? Quero. Claro...
– Então amanhã. Às quatro. Anota o endereço.
Meio que sem pensar, anotei. Ela ditou o endereço, despediu-se e desligou. Fiquei com o fone na mão, pasmado, pensando o que mais pensava desde que conhecera aquela menina: o que faço? O que faço? O que faço???
4º CAPÍTULO:
Suzi, Suzi, Suzi, só pensava em Suzi.
Ao chegar em casa, olhei bem para a minha mulher. Ela tem comissuras sobre o lábio superior. Pequenas rugas que lhe murcham a boca. E a carne sob os braços está cadente. Por favor! Quando uma mulher chega a essa fase, é o fim. Ou o começo do fim.
Que diferença das carnes rijas e tenras e macias e deliciosas e apetitosas e frescas e rosadas de Suzi. Suzi, Suzi, Suzi. E se Suzi estivesse comigo, aqui, agora, nesse apartamento? Poderia, por que não? Tantos casais se separam...
Pagaria uma boa pensão para a minha mulher, ela cuidaria dos nossos filhos. Até deixaria o apartamento para ela. Iria morar com Suzi na nossa casa em Pinhal. Teria de me afastar um pouco aqui de Porto Alegre, lógico, nosso relacionamento certamente causaria algum escândalo na sociedade, sabe como esta cidade é conservadora.
Imagino-me com Suzi passeando pela praia, ela com um biquíni minúsculo, eu de bermuda de surfista, sem camisa... Sem camisa... Apalpei a cintura. Decidi que vou retomar meus abdominais diários. Vinte no primeiro dia, depois vou aumentando, cinco por dia, até chegar a... quinhentos, talvez? Quinhentos é tanto...
Mas quê! Estou divagando. Imagina deixar minha boa vida de casado, estabelecido, meus dois filhos, a mulher que já me acompanha há 15 anos, deixar tudo isso por uma pirralha, uma menina que nem conheço direito. Como a gente fantasia, meu Deus...
Se bem que a vida é tão curta. Por que não aproveitar um pequeno e doce pedaço dela? Suzi, Suzi, Suzi. Oh, mais uma vez me pergunto: o que fazer, Cristo??? Levei essas reflexões para a cama. Devo ter dormido umas duas horas, durante as quais sonhei com Suzi.
No dia seguinte, acordei cedérrimo e tomei o banho mais demorado da minha vida. Até passei creme. Li na Zero Hora que alguns homens têm passado creme no rosto, então, tasquei creme e saí todo perfumado para o escritório.
O dia inteiro oscilei. Ora decidia que ia ao encontro, ora resolvia que nunca mais a veria. Perto das três horas, finquei pé: não iria. Pronto. Era muito perigoso. Muito arriscado. E tudo por quê? Por uma aventura sem significado? Não, não valeria a pena.
Então, meu celular apitou. Uma mensagem acabara de entrar. Conferi: era ela. Suzi.
Uma única frase. Uma pergunta:
"Você vem?"
Respondi, apressado: "Estou indo!"
Apanhei meu paletó, disse à secretária que não voltaria mais, que tinha uma reunião importante, nem dei bola quando ela ciciou "reunião, é?", pensei que tinha de demiti-la qualquer dia desses, e saí, zunindo.
Encontrar-me-ia com Suzi.
Sim! Suzi, Suzi, Suzi!
5º CAPÍTULO:
Às quinze para as quatro, rodava com meu Palio fúcsia por uma rua sombria do Bairro Sarandi. Ah, essas meninas do subúrbio...São as mais espertinhas, todo mundo sabe.
Parei diante de um prédio encardido. Conferi o número. Aquele mesmo. Desci do carro, caminhei até a porta do prédio, apertei no botão do porteiro eletrônico. Esperei por 10 segundos, 20 segundos, não atenderam. Seria o endereço certo? Conferi mais uma vez. Talvez estivesse chegando cedo demais...
Premi o botão novamente. Agora, sim, ouvi uma voz feminina dizendo alô. Não tinha a certeza de que era ela, mas mesmo assim falei no aparelho:
— É o Aírton!
Como resposta, ouvi o som da fechadura eletrônica se abrindo. Empurrei a porta. Entrei. Ela morava no segundo andar. Não havia elevador. Subi pelas escadas, de dois em dois degraus. Dois, quatro, seis, oito, dez, doze, quatorze, dezesseis.
Parei diante da porta do apartamento. Respirei fundo. Levantei o dedo para premer a campainha. Antes que a tocasse, a porta se abriu. Lentamente. Lentamente. Era ela. Suzi.
Suzi, Suzi, Suzi.
Vestia uma camiseta branca, básica, e só. A camiseta servia-lhe de vestido, descia-lhe até o começo das coxas lisas. Estava de pés descalços e tinha o cabelo molhado. Recém saíra do banho, cheirava a água quente e a sabonete.
Era como se eu estivesse diante da própria primavera. Fiquei com lágrimas nos olhos. Contive-me a custo para não me atirar a seus pés ali mesmo, no corredor, e beijar seus tornozelos perfeitos. Sério: eram os tornozelos mais perfeitos que já vira.
— Entra - ordenou ela, com um sorriso de covinhas.
Entrei, o coração palpitando. Uma sala de estar típica da classe média. Um sofá surrado, uma poltrona mais surrada ainda, um tapete ralo e a indefectível TV. Sobre a mesinha de centro, flores de plástico; sobre a estante, livro nenhum, exceto um pocket do Anonymus Gourmet e a Bíblia.
Aquela singeleza me emocionou. Havia um clima de austeridade naquele lugar. Suzi acomodou-se no sofá, puxando para cima os dois pequenos pés número 35. A camiseta subiu mais um pouco, revelando-lhe mais meio palmo de pernas rosadas. Lindo, aquilo.
— Senta - disse ela.
Sentei-me. Fiquei olhando para ela, olhando bem dentro de seus olhos. Ela sustentou o olhar. Enrubesceu, afinal. Em um segundo, transformou-se numa menininha. Na menininha que era. Baixou a cabeça, sorriu sem jeito.
— Tô com vergonha - miou.
Senti-me enternecido. E ao mesmo tempo excitado. Meu coração batia com força, minhas virilhas formigavam de prazer.
Aproximei-me dela. Ela não se moveu.
Aproximei-me mais. Ela continuou quietinha, encolhida no canto do sofá, uma menininha, uma coisinha.
Abracei-a. Senti seu corpo quente de encontro ao meu. Ela se aninhou no meu peito. Seus braços delicados me envolveram, e eu a envolvi com os meus. O cheiro quente e doce de seu hálito bafejava meu rosto, e era inebriante.
Fitei seus lábios polpudos. Ela respirava com força. Ofegava. Eu ofegava também.
Então a beijei. Eu a beijei. Eu a beijei.
E foi uma das emoções mais plenas que senti na vida, sua língua macia enrodilhando-se na minha, seus dentes brancos se chocando com os meus.
Foi tão bom. Tão bom. Foi aí que ouvi aquele ruído horrendo.
O pior ruído que poderia ouvir num momento como aquele. Que ruído foi? O que aconteceu?
6º CAPÍTULO:
Alguém estava mexendo na fechadura! Cristo, alguém estava tentando entrar! Quem, Senhor? Quem???
Como se eu tivesse feito a pergunta em voz alta, Suzi respondeu:
— É o Tijolo! — e acrescentou, aparentemente em pânico: — Meu Deus, meu Deus!
Saltei do sofá:
— Tijolo? Que Tijolo???
— Meu irmão mais velho! Meu Deus, meu Deus!
Olhei para a porta. O Tijolo continuava forçando a fechadura. Não estava conseguindo entrar.
— Teu irmão?
— Meu Deus, meu Deus!
— Você não me disse que tinha irmão!
O Tijolo continuava girando a chave do lado de fora, em vão.
— Você precisa fugir! Meu Deus, meu Deus!
— Eu? Fugir? Do seu irmãozinho? De jeito nenhum! Sou um adulto, um homem feito, não tenho medo. Não, garota, medo é uma palavra que não consta no meu dicionário. Vamos enfrentar essa situação com maturidade, com hombridade, com...
— Está louco??? — Suzi saltou do sofá. — Meu irmão é uma fera!
— Teu irmãozinho? — sorri. — Por favor...
— Irmãozinho??? Ele tem vinte e cinco anos, um metro e noventa, mais de cem quilos. E luta jiu jitsu!
— Meu Deus, meu Deus!
— Suzi!!! — O Tijolo berrou do lado de fora, e sua voz parecia ser a de um homem forte fisicamente. — Suzi!!! Você deixou a chave na fechadura, Suzi!!! Abre a porta, Suzi!!!
— Pula a janela! — sugeriu Suzi.
Corri para a janela. Olhei para baixo. Dois andares que pareciam vinte.
— Vou me quebrar todo se me jogar daqui!
— Meu Deus, meu Deus!
— Suzi!!! Tem alguém aí contigo, Suzi???
— Meu Deus, meu Deus! — repetiu Suzi.
— Meu Deus, meu Deus! — concordei.
— Suuuuziiii!!! Abre essa porta, Suzi! Vou derrubar a porta, Suzi!!!
Nós dois:
— Meu Deus, meu Deus!!!
— Vou derrubar essa porta, Suzi!!!
— Vem pro quarto! — ela pegou na minha mão.
Corremos para o quarto.
— Debaixo da cama! — ela disse.
A solução clássica. Humilhante. Mas era o que tínhamos para o momento. Agachei-me, olhei e estremeci: a cama era baixa demais.
— Não entro aqui!
— Meu Deus, meu Deeeuuusss!!!
— Suzi! Quem é que está aí contigo??? Quem está aí, Suzi???
Nós corríamos para um lado e para outro, sacudíamos os braços, não sabíamos o que fazer.
— Vou contar até dez, Suzi! Se essa porta não se abrir até o dez, eu vou arrombar, Suzi!
— Meu Deus!
— UM!
— Meu Deus!
— DOIS!
— Quem sabe o banheiro? — especulei.
—TRÊS!
— Ele vai te achar no banheiro!
— QUATRO!
— E o armário?
— CINCO!
— Muito pequeno!
— SEIS!
— Onde, então?
— SEEEETE!
— Meu Deus!
— Na cortina! Atrás da cortina!
— OITO!!!
Acomodei-me atrás da cortina.
— Fica quieto — ordenou Suzi. — Não fala nada! Ai, meu Deus.
— NOVE!!!
— Estou indo — gritou ela. — Estou indo!!! Meudeusmeudeusmeudeus!
— DEZ!!!!!!!!!!!!!!!
7º CAPÍTULO:
Lá estava eu. Escondido atrás de uma cortina de um quarto de menina, tremendo de medo de um irmão brabo que lutava jiu-jitsu e que tinha um metro e noventa de altura e que pesava mais de cem quilos e que, se me descobrisse, ia me transformar num estrogonofe.
Cena mais clichê, impossível. Logo eu, advogado bem constituído, homem sério, com mulher, filhos, uma carreira, um Pálio fúcsia, com mais de dez mil na caderneta de poupança. E por quê? Por causa de uma pirralha de 16 anos. Por causa da luxúria.
Ouvi a voz dela na sala:
— Pra que todo esse escândalo, Tijolo?
E o vozeirão dele:
— Quem taí, Suzi? Quem taí?
— Ninguém... Ficou maluco?
— Ouvi voz de homem, Suzi!
— Era a televisão.
— A televisão está desligada.
— Eu desliguei agora, ué.
— Ah, é? Deixa eu ver...
Supus que o Tijolo ia pôr a mão na TV a fim de constatar se estava quente. Acertei. Um segundo depois, ele exclamou:
— Está fria! Onde está ele?
— Não tem ninguém aqui, Tijolo! Ficou louco?
— Onde está esse safado?
— Pára, Tijolo!
— Eu vou achar! Eu vou achar!
Comecei a suar. E a rezar. Tremer, já estava tremendo. Seria uma humilhação. Seria uma vergonha. Minha mulher, meus filhos, meus amigos, meus colegas, todos iam se decepcionar comigo. E eu ainda ia levar o maior pau daquele brutamontes que bufava e berrava pela casa.
Podia ouvir o som da respiração pesada dele, dos seus passos de mastodonte, do barulho de móveis sendo arrastados, portas de armários sendo abertas, dele urrando:
— Cadê o desgraçado??? Cadê??? Vou matar! Vou matar esse tarado!!!
Era o que eu era. Um tarado. Um quarentão patético que queria se refocilar nas carnes lisas de uma menina de 16 anos. Oh, Deus, talvez eu merecesse aquele fim: ser torturado até a morte por um monstro lutador de jiu-jitsu, ser sovado por manoplas do tamanho de raquetes de tênis, ter minha cara convertida num xis galinha.
Prometi a Jesus, Maria e José ali mesmo que, se saísse daquela, nunca mais me meteria em aventura semelhante. Nunca mais! Transformar-me-ia em modelo de virtude conjugal. Aírton, o marido perfeito.
No instante mesmo que terminara de fazer minha promessa aos céus, percebi alguma movimentação perto de mim. Então, o horror!, a cortina se abriu!
8º CAPÍTULO:
SUZI!!!
Foi Suzi.
Foi ela quem abriu a cortina, graças ao Cavalo Celeste! Mas, naquele átimo de segundo em que o tecido foi afastado, confesso: quase que minha bexiga afrouxou. Foi por uma contração que não me urinei todo. Ia ser um fiasco.
— Vem! — sussurrou ela, num tom evidentemente urgente. — Ele está na área de serviço. Aproveita para fugir. Vem! Vem!
Não contestei, não falei nada, não argumentei. Saí correndo dali, deixando Suzi para trás, sem nem olhar para ela, sem dizer tiau, pensando: meu Deus, meu Deus!
Quando cheguei ao limiar da porta, ouvi o berro:
— QUEM É ESTE VAGABUNDO???
Olhei para trás e vi o Tijolo, que assomava à sala, esbaforido. Cristo! Sabe aquela cena em que o David Banner se transforma em Hulk? Era essa a pose do cara. E o tamanho também. E a cor: ele estava verde de raiva. Gritei:
— Meu Deus!
E deitei o cabelo, passei sebo nas canelas, saí em desabalada corrida, fugi covardemente, enfim, com ele atrás de mim, urrando:
— EU MATO! EU MATO!!!
Não tenho vergonha de dizer que sentia vontade de chorar enquanto corria como uma gazela pelo corredor, despencava escada abaixo e gania de pavor. Ao alcançar a porta do edifício, olhei mais uma vez para trás e vi. VI!
Jesusmariajosé!!! O Tijolo vinha que era uma locomotiva, bufando e resfolgando, vermelho e faiscante. Aquela cena terrível me deu ainda mais forças para correr. Joguei-me para dentro do meu Palio fúcsia, demorei o que me pareceram vinte minutos para acertar a ignição e arranquei, enquanto o Tijogo chutava e socava meu carro, gritando que ia me matar.
A tremedeira não passou antes de 15 minutos. Nem voltei ao escritório. Avisei minha secretária que estava me sentindo mal e que ia para casa. Ela respondeu com alguma ironiazinha que me irritou e me fez pensar que deveria demiti-la qualquer dia desses.
Minha mulher ficou muito surpresa ao me ver chegando em casa numa hora daquelas. Disse-lhe que havia decidido tirar o resto do dia para ficar com a família. Ela piscou, desconfiada, e mais desconfiada ficou quando a convidei para comer bolinho de batata no Schulas.
Não consegui relaxar, naquela noite, Nem dormir direito dormi. Pela manhã, cheguei ao escritório decidido: infidelidade, nunca mais. O advogado Aírton, aqui, acabava de se tornar o maior monógamo do mundo!
Tomei várias resoluções: gastaria mais tempo com minha mulher e meus filhos. Faríamos uma viagem. Cancun. Todos nós. Juntinhos. Ia ser legal. E não dormiria mais tanto nas tardes de domingo. Permaneceria horas e horas e horas com eles. Com minha família. Transformar-me-ia em um pai e em um marido perfeito.
Aírton, o bom marido.
Pensava em tudo isso, quando minha secretária anunciou pela linha interna:
— Dona Ângela está aqui.
— Quem?
— Dona Ângela.
— Não sei quem é.
— Sabe... — percebi a malícia nas reticências da secretária, a desgranida. — É a mãe da Suzi. A menininha — abri a boca quando a maldita secretária acrescentou, cheia de sarcasmo: — E ela está furiosa.
A tremedeira que senti no dia anterior voltou com força. Engoli em seco. Perguntei:
— O Tijolo está junto?
— Tijolo?
— É... O Tijolo...
— Tijolo?... Ei... Peraí, minha senhora! A senhora não pode...
Era óbvio que a mãe da Suzi estava forçando a entranda. Decerto estava com o Tijolo! Que que eu ia fazer? Não havia para onde correr! Saltei da cadeira. A porta se abriu. A mãe de Suzi entrou. Fincou as mãos na cintura. E rosnou:
— SEU TARADO!!! VOCÊ VAI PAGAR PELO QUE FEZ!!!
9º CAPÍTULO:
— Vou chamar a polícia! — avisou minha secretária, postada atrás da mãe de Suzi.
Ela queria, obviamente, assustar a mulher. Mas a última coisa de que eu precisava naquele momento era da intervenção da polícia. Tentei acalmá-la. Tentei acalmar as duas.
— Não! — gritei.
— Não é necessário. Eu resolvo isso.
A mãe de Suzi me olhava com um sorriso debochado, as mãos à cintura.
— Por favor — disse para ela.
— Por favor — fiz um gesto com as duas mãos espalmadas.
— Sente-se. Vamos esclarecer isso tudo. Vamos conversar...
A secretária continuava parada na soleira da porta. Agora não parecia mais espantada. Parecia tão debochada quanto a mãe de Suzi. Irritei-me com o olhar sardônico da maldita secretária. Por que ainda não a demiti? Isso é algo que alguém tem que me explicar.
— Feche a porta, por favor — disse para a secretária.
A mãe de Suzi já acomodara diante de mim, sentada de pernas cruzadas, a bolsa preta no colo, o mesmo sorriso irônico nos lábios.
— O senhor teve um caso com a minha filha. Uma menina de dezesseis anos — ciciou ela, entre dentes, numa voz sussurrada, acusatória, raivosa.
— Não! Não tive! Juro!
— O senhor a agarrou!
— Nããão! Juro que não!
— O senhor bolinou minha menina!
— Não! Não!
— O senhor a apalpou, a acariciou, a sovou!
— Não! Não! Não!
— O senhor despiu minha filha de dezessseis anos!
— Por Deus! Não! Nãããão!
— O senhor a deixou nua! Nua em pêlo! Nua como ela nasceu! Ela que é tão criança...
— Não, não, nããããããããã...
— O senhor a penetrou!!!
— Aaaaaah, nããããão!!!!!!!
Aquilo era uma tortura. Eu suava. Estava prestes a sair correndo dali. Juntei as mãos. Jurei:
— Pelos meus dois filhos: eu não mantive relações com a sua filha! Não mantive!
— Não?
— Não!
— Então o que o senhor estava fazendo no meu apartamento, sozinho com ela?
Pisquei. Senti-me tonto. Tomei ar. Tentei argumentar:
— Eu... Ah... Eu sei que é difícil de explicar...
— O senhor é casado.
— Eu... Sou...
— A sua mulher sabe que o senhor estava no meu apartamento, de tarde, sozinho com minha filha de dezesseis anos?
— Não! — falei um pouco alto demais aquele não.
— Não — repeti, mais calmo. Suspirei. As coisas não estavam bem paradas. Ela tinha o domínio da situação. Precisava inverter o jogo. Precisava levar a discussão para um caminho mais desimpedido para mim.
— Olha... O que a senhora pretende?
— O que eu pretendo... — ela começou a mexer na bolsa. Estremeci. O que ela tiraria daquela bolsa? Puxaria uma arma?
— O que eu pretendo... — continuava olhando para o interior da bolsa. Senti medo, naquele momento. Muito medo.
Comecei a falar rapidamente, tentando ganhar tempo:
— Olha, a senhora precisa acreditar. Não houve nada entre mim e a sua filha. Nada. Por Deus. Juro. É verdade que fui lá. Admito isso. Mas não fizemos nada. Nada, nada, nada. Nem toquei nela. Nunca encostei um dedinho na sua filha. Garanto que...
Ela puxou algo da bolsa. Algo de metal. Preto. Brilhante. Meu Deus, uma arma??? Aquele meio segundo foi uma eternidade, para mim. Mas não era uma arma. Era um celular. Fiquei um pouco mais calmo. Ela manteve o celular na mão fechada. Fitava-me calmamente.
— Vou dizer o que eu pretendo — falou, afinal.
— O quê? — estava ansioso por terminar aquilo de uma vez.
— O que a senhora quer?
Ela levantou uma sobrancelha.
— Simples. Quero o que tudo mundo quer.
— O que todo mundo quer? — não estava entendendo muito bem. Seria sexo? É sexo o que todo mundo quer? Ela ficou subitamente séria.
— Quero dinheiro.
Arregalei os olhos. Não era possível. Aquilo não estava acontecendo comigo. Estava sendo chantageado! Conhecia histórias assim. O chantagista, depois que arranca a primeira importância da vítima, não pára mais. Até arruiná-la. Até liquidá-la. Até sugar todo o sangue dela.
E era exatamente o que estava se sucedendo ali, no meu escritório. Senti-me infeliz. Senti-me um otário. E compreendi: era uma armação. Tinha caído numa cilada. Suzi, desgranida, decerto era a décima vez que fazia aquilo! Oh, Deus, o que ia fazer?
10º CAPÍTULO:
Era chegada a hora de colocar minha cabeça treinada de advogado para funcionar. Tinha um problema diante de mim e precisava resolvê-lo por meio da minha especialidade: a lógica. Sim, nós advogados somos dotados de uma lógica fria, metálica, cortante, invencível.
Nos escassos segundos de que dispunha, pus-me a raciocinar. Todo o poder de minha massa cinzenta foi mobilizado naqueles breves segundos. Em primeiro lugar: o que ela tinha contra mim?
Muito pouco.
Não precisava temer qualquer punição legal. Poderia ser acusado de sedução, mas que juiz condenaria um homem por ter se envolvido com uma moça de 16 anos numa cidade grande? Fosse uma ingenuazinha do interior, talvez, mas uma ladina como aquela Suzi? Por favor! Não, legalmente eu não tinha nada a temer.
Mas e o escândalo? É, o escândalo não seria positivo para mim. Além disso, havia a minha mulher, os meus filhos. Só que, neste caso, eu simplesmente negaria. Diria que nunca tinha havido nada entre nós, eu e Suzi. Quem poderia provar o contrário? Havia só o testemunho do Tijolo, mas eu diria que ele está mentindo a fim de me extorquir. Isso! Essa era a saída! Negar, negar e negar.
Suspirei, um pouco mais aliviado.
Nada como a lógica indúctil dos advogados.
— Minha senhora — estava bem mais tranqüilo ao dirigir-me à megera.
— Pense bem no que a senhora está fazendo — sorri um sorriso superior.
— O que a senhora tem contra mim? Nada. É a minha palavra contra a sua. Só. Não existe nada, nada, nada. Sou eu, um advogado conhecido na praça, contra a senhora, que está tentando me chantagear. Portanto, sugiro que...
— E isso? — ela mostrou o celular que tinha na mão.
Abri a boca. Não estava entendendo. Foi o que disse.
— Não estou entendendo...
— Esse é o celular da minha filha.
— Da sua filha?
— É. Da minha filha. Suzi. Aquela que o senhor seduziu.
— E o que é que tem este celular? — eu realmente não estava entendendo.
— O que é que tem? Vou lhe dizer o que é que tem esse celular: tem registrada uma troca de torpedos entre um quarentão e uma menina de dezesseis anos. O que o senhor acha disso?
Um segundo. Em um único segundo, meu sangue gelou, ferveu, congelou, ferveu de novo. Meu coração ficou petrificado e meu cérebro treinado de advogado virou patê. Ela tinha provas. Eu estava perdido.
Mais uma vez, senti vontade de chorar. Aquilo estava se tornando um hábito. Olhei para a harpia à minha frente. Se tivesse um revólver na gaveta, por Deus, a fuzilaria ali mesmo. Naquele instante, decidi participar da campanha contra o desarmamento.
— Vamos negociar? — sugeriu ela, sorrindo maliciosamente.
— Vamos... — suspirei, derrotado. — Quanto?
Ela abriu ainda mais o sorriso. Achei que ia esfregar as mãos. Tornou a guardar o maldito celular na bolsa.
— Vinte mil — sentenciou a maldita.
Saltei da cadeira:
— Vinte mil?!?
— É pouco. A paz vale mais do que vinte mil.
— Não tenho vinte mil!
— Sente-se.
Eu estava de pé. Continuei de pé.
— A senhora está louca! Eu não tenho vinte mil!
— Sente-se! — desta vez ela elevou a voz.
Obedeci. Sentei-me.
— Não tenho vinte mil... — repeti, quase num sussurro.
— Quanto o senhor tem?
Engoli em seco.
— No máximo, dez mil. É tudo que tenho. É a minha poupança de toda a vida.
— Muito bem — ela se levantou. — Dez mil. Amanhã. Às quatro horas. Volto aqui às quatro horas de amanhã. Passar bem.
E se foi, deixando-me a pensar que aquela família adorava esse horário das quatro horas.
Eles iam me arruinar, era isso que eles iam fazer comigo. Estava à mercê deles. Um patinho. Um otário. Não iam libertar-me jamais, minha vida se transformaria em um inferno, eu estava acabado. Tinha de fazer alguma coisa. Algo radical. Algo definitivo para me livrar daquela prisão. Para liquidar aquela gente. Mas o quê? O quê???
11º CAPÍTULO:
Minha poupança! Meus dez mil! As economias de toda uma vida! Tudo perdido, tudo pelo ralo!
Oh, Senhor! Onde estás, que não respondes? Em que estrela tu te escondes?
Permaneci uns 15 minutos, talvez mais, talvez meia hora, com a testa colada ao tampo da mesa de trabalho, desesperado, rezando, xingando o Cavalo Celeste, rezando outra vez, pensando em me matar, em esgoelar a desgranida da Suzi, em suicidar a mãe dela, em dar um tiro no olho do Tijolo, pensando na minha mulher, nos meus filhos, Cristo!, o que eu faria?
— Probleminhas? — era a voz irônica da secretária, que estava à porta, me olhando com aquela sua cara de deboche.
Olhei para ela. Não tinha forças nem para me irritar.
— Probleminhas? — repetiu.
— Não — respondi, com dificuldade.
— Por favor, feche... a porta...
Ela obedeceu, não sem antes lançar-me um outro olhar sardônico. Por Deus, vou demitir essa bruxa. Ah, vou!
Aí me irritei de verdade. Todas as minhas energias se concentraram na secretária odienta. Comecei a planejar a demissão dela. Faria isso agora mesmo. Chamaria-a ao meu gabinete e diria, brutal e singelamente:
— Arrume suas coisas e suma daqui! A senhora tem três minutos para desaparecer da minha vista!
Sim, era o que eu faria. Era exatamente o que eu faria! Olhei para o telefone, pronto para chamá-la, e o telefone, como se soubesse o que eu iria fazer, tocou. A linha interna.
A secretária.
Com aquela sua vozinha irritante:
— Ligação para o senhor...
— Quem é? – gritei, pouco disposto a aturar qualquer insinuação da bruxa.
Ela esperou alguns segundos até falar. Enfim falou:
— Suzi.
Entesei na cadeira. Suzi? Seria mesmo Suzi?
— É a Suzi?
— Suzi... — aquela vozinha outra vez.
Minha cabeça rodava, rodava mais que os casais.
O que devia fazer? Devia dizer que nunca mais falaria com aquela trapaceira? Sim, era o que eu faria. Daria uma lição na espertinha. Sim! Eu não sou um qualquer! Sou o advogado Aírton! Um homem adulto, maduro, responsável!
Sim!!! Mas... Mas o que ela poderia querer comigo? A curiosidade me acicatava. O que ela poderia querer? Extorquir-me ainda mais do que fez sua mãezinha? Família de pelintras! Ia xingá-la, isso sim! Ia espinafrá-la! Decidi atender.
— Alô.
— Oi... Tudo bem?
Falou como se nada tivesse acontecido, a cínica!
— Tudo — mantive-me duro, frio, impassível. Como o detetive Phillipe Marlowe.
— Tenho uma coisa importante para falar para você.
— O que poderia ser? – agora eu estava sendo tão debochado quanto a minha secretária.
— Ai, estou tão chateada com o que aconteceu lá em casa...
— Imagino — minha fina ironia escorria pelo fio do telefone. Podia congestionar as linhas, minha fina ironia!
— Tenho que pedir desculpas pelo Tijolo. Ele é um bobão. Já conversei com ele. Ele está mais calmo, não vai incomodar.
— Não? — ironia, ironia, a mais fina ironia, a nata da ironia, a ironia das ironias!
— Não... E eu também tinha uma coisa pra te pedir — ela falava como se tudo estivesse normal, uma atriz consumada, aquela menina.
— Pra mim? O quê? — imaginei que agora é que viria a mordida.
— Não liga para o meu celular, tá bem? Minha mãe me tirou o aparelho. O Tijolo contou para ela e ela me tirou o celular. Por enquanto estou sem, mas vou arranjar outro já, já. Prometo. Tenho uma amiga que vai me emprestar o dela amanhã, ela tem dois, aí eu...
— Peraí! — interrompi.
— Como é que é isso?
Agora, sim, é que minha cabeça rodava.
— Isso o quê?
— Você não sabia da sua mãe?
— Sabia do quê?
— Que ela esteve aqui?
— Minha mãe? Esteve aí???
— Esteve! E pediu dinheiro!
— Minha mãe??? Dinheiro? Pra quê?
— Tua mãe fez chantagem comigo! Disse que se eu não lhe der dinheiro ela conta tudo para a minha mulher, para a polícia, para a imprensa, para o FBI, para todo mundo!
— Meu Deus!
— É!
— Meu Deus!
— Pois é!
— Minha mãe... Ai... Olha, tenho que desligar.
— Não! Espera!
— Tenho que desligar. Te ligo de novo mais tarde. Não sai daí, certo?
— Espera, eu... Desligou.
O que ela iria fazer? Será que havia esperança para mim? Oh, Deus, o que vai acontecer? O quê? O quê???
12º CAPÍTULO:
Um minuto é muita coisa. Todos aqueles segundos. Sessenta, mais precisamente, o que significa que são 1 mais 2 mais 3 mais 4 mais 5 mais 6 mais 7...
Você sabe: um tempão.
Eu, no escritório, esperando pelo telefonema de Suzi, contava cada segundo, contava os minutos, e, por mais que contasse, nunca enchia uma hora. Olhava para o telefone e suspirava. Havia um paralelepípedo de angústia no meio da minha garganta e areia nos meus olhos e agulhas espetando meu pequeno cérebro.
No fim da tarde, aconteceu. O telefone tocou.
Tocou, finalmente!
Atendi ao primeiro trim, ansioso.
A voz da secretária:
— Seu Aírton?
— É a Suzi??? — perguntei, apressado.
— A Suzi? — ela riu baixinho. — Não, não é a Suzi... — riu de novo.
Que raiva. Odeio essa secretária! Odeio!
— O que a senhora quer?
— Só queria saber se o senhor deseja... mais alguma coisa. Estou saindo...
— Ah. Nada. Tudo bem.
— Então até amanhã.
— Até amanhã.
Desligou, a pústula. Não tem mãe, essa secretária!
Ficamos eu e o telefone no escritório.
A tarde se foi. A noite chegou. Suzi não ligou.
Oito horas.
E o telefone tocou. Pulei sobre o gancho. Gritei:
— Alô?
— Opa. Que grito é esse? - era a minha mulher.
— Ah... Desculpa... É que estou esperando o telefonema de um cliente...
— Ah... Você vai demorar muito? Vai jantar em casa?
— Mais uma ou duas horas no máximo.
— Tudo isso?
— Muito trabalho.
— Hum. Está bem. Então, tiau. Até mais.
— Até.
E mais uma hora se foi, e outra ainda, e Suzi não ligou. Às dez horas, voltei para casa arrasado, destruído, aniquilado, rebaixado à segunda divisão. No dia seguinte, teria de ir ao banco e raspar minha poupança. Meus dez mil.
Os dez mil da minha mulher e dos meus filhos. Os dez mil com os quais ia fazer uma viagem para Ciudad del Este, ah, como queria conhecer Ciudad del Este e comprar uns aparelhos de DVD... Como sofro, Deus!!!
Naquela noite, só fui dormir às seis da manhã. Às sete, levantei. Às sete e meia, estava saindo de casa. Caminhava como se tivesse bebido uma garrafa inteira de Velho Barreiro, sem vontade, sem sentir nada. Cheguei ao escritório antes das faxineiras. Consultei o saldo da minha poupança pela Internet: R$ 10.356,00. Que iriam para aquela bruxa. Quanta tristeza. Quanta dor.
Resolvi que só retiraria o dinheiro uma hora antes do meu encontro com a maldita mãe de Suzi. Alguma coisa poderia acontecer até lá. Quem sabe?...
Mas não aconteceu. É duro contar: não aconteceu.
Às três da tarde, saquei dez mil reais da minha poupança e voltei para o escritório. Ao passar pela secretária, ela comentou, com o velho tom de deboche:
— Probleminhas?
Minha resposta foi um suspiro. Pensei vagamente que deveria demitir aquela secretária. Entrei no gabinete. Sentei-me. Tirei os dez mil de uma sacola que trouxera do banco. Comecei a contar o dinheiro. Contei e recontei e contei de novo e contei mais uma vez e tornei a contar. Dez mil, dez mil, dez mil. Por que tudo é tão triste? Será que a felicidade ainda existe?
Às quatro em ponto, ocorreu o que eu esperava: o telefone tocou e a voz roufenha da secretária anunciou:
— Visita para o senhor.
Suspirei:
— Manda entrar.
Recostei-me na cadeira. Suspirei mais uma vez. A porta se abriu. E ela entrou.
Ela...
Ela...
Suzi.
De minissaia. De miniblusa. Linda, sedutora, fresca, tenra, primaveril como eu a vira pela primeira vez. Arregalei os olhos. Senti uma dor no peito. Senti o desejo a me formigar nas virilhas. E pensei:
Suzi.
E pensei ainda mais:
Suzi, Suzi, Suzi!
FINAL:
Ó.
Foi o que ela disse: ó.
Tão lindo. Ó. Nunca tinha ouvido ó assim. Pisou com seu pequenino pé o carpete que serve de morada para os ácaros do meu escritório, fez um biquinho, seus lábios rosados se enrugaram docemente, piscou duas vezes e falou, enfim:
— Ó.
E eu fiquei nervoso.
O fato é que desejava aquela menina. Tenho de reconhecer: desejava-a, e muito. Ainda que fosse uma vigarista, ainda que pretendesse me arruinar, roubar meus dez mil, meu Pálio fúcsia, minha reputação, ainda que quisesse me tirar tudo, sentia uma atração invencível por ela. Suzi. Oh, Suzi.
Suzi, Suzi, Suzi.
Aproximou-se da minha mesa. Vestia minissaia e miniblusa. E nem estava tão quente. Primavera em Porto Alegre, sabe como é. Ah, mas ela é que era a primavera.
— Posso sentar? - perguntou, com aquela sua vozinha de bombom Love-me.
— Por favor... — tentei dar à minha voz um tom adulto, maduro, sereno, mas meu coração de advogado batia forte, e não é fácil um coração causídico bater forte assim. Não. Um coração acostumado a data vênias não é qualquer coração.
Sentou-se, Suzi.
Cruzou as pernas lisas, deixando exposta a curva suave das coxas, uma curva mais perigosa que a da pista de Tarumã.
Puxou a cadeira um pouco mais para perto da mesa. Levou a mão à pequena bolsa que havia deitado no colo. Fiquei apreensivo. O que ela tiraria da bolsa? Lembrei do temor que senti quando sua mãe mexeu na bolsa, no dia anterior, sobre aquele mesmo carpete, naquela mesma cadeira.
Suzi puxou um envelope pardo. Depositou-o em minha mesa. Foi com alívio que vi aquele envelope inofensivo. Pelo menos achava que era inofensivo.
— Preciso te contar o que aconteceu — disse ela, debruçando-se em direção à mesa. Com o movimento, o vale de seus seios juvenis surgiu em meio à blusa, e meu coração ficou do tamanho de uma ervilha.
— E o que foi que aconteceu? — tartamudeei, cada vez mais excitado com a visão daquela panterinha.
— Isso com a minha mãe — ela suspirou. — Isso que aconteceu. Confesso que não foi a primeira vez que ela fez algo parecido. Ai, Aírton... — passou a mão nos cabelos e jogou a cabeça para trás. — Minha mãe é um problema, sabe? Ela gosta demais de dinheiro... Dinheiro, dinheiro, dinheiro. Ela faz coisas horríveis... Então, aquele dia, lá em casa... bom... o Tijolo nos pegou, você sabe...
— Sei...
— O Tijolo viu quando você saiu correndo lá de casa.
— Sei, sei.
— E ele ficou furioso.
— Como sei...
— Foi difícil controlar o Tijolo. Só consegui acalmá-lo no dia seguinte, mas, naquela noite, quando a mãe chegou, ele contou tudo pra ela. Aí ela pegou meu celular, disse que ia me castigar por aquilo me tirando o celular. Só que, ai, Aírton, só que eu acho que ela desconfiava que nós tínhamos trocado torpedos. É claro que ela já pensava em algo assim, é claro que pretendia pegar o celular como prova.
— É claro... — não conseguia parar de olhar para o decote dela.
— Pois é. Daí ela tentou fazer aquilo contigo. Te tirar dinheiro...
— É verdade... — como ela era fresca, como ela era tenra. Naquele momento, nem me importava mais com o meu dinheiro.
— Mas, Aírton, eu não sabia de nada.
— Não sabia? — franzi a testa. Não sabia se podia acreditar naquilo.
— Não. Juro! E posso provar.
— Como?
— Com isso aqui — ela apontou para o envelope pardo sobre a mesa. Até já havia esquecido do envelope.
— O que é que tem aí?
— Meu celular.
— Teu celular!
— Aquele celular.
— Aquele!
— Tirei da minha mãe. Sem que ela visse, claro. A essa hora deve estar louca, procurando pelo aparelho, revirando a casa toda — Suzi desenhou um sorrisinho safadinho naquela sua carinha safadinha. — É claro que ela sabe que, sem o celular, ela não tem nada — prosseguiu. — Mas ela nunca vai saber onde o celular está. Até já consegui outro — Mexeu na bolsa de novo, e de lá tirou um pequeno aparelho prateado. Ficou com o aparelho na mão. — É claro, também, que ela ainda vai tentar pedir o seu dinheiro. Aí você vai ter que dizer que duvida que ela tenha provas, vai ter que lidar com ela. Sem falar dessa minha visita, claro.
— Claro, claro!
Estava encantado. Estava emocionado. E o melhor: estava salvo! Suzi me salvara, me arrancara das garras furiosas de sua própria mãe! E eu, que havia duvidado dela! Oh, que menina maravilhosa! Que docinho! Que coisinha! Que anjo! E como era linda, meu Deus...
Ela se levantou. Ajeitou a saia com as mãos. Sorriu, e a sala se iluminou.
— Como você vê, eu não sabia de nada. Nunca menti. Agora vou embora — miou.
— Não! — pulei da cadeira.
— Não? — ela levantou uma sobrancelha.
— Não... — contive-me. — É que... Suzi... Eu queria saber: por que você me ligou aquele dia? Por que quis se encontrar comigo?
Ela abriu ainda mais o sorriso.
— Eu te escolhi — ciciou, e encolheu uma perna, como se estivesse envergonhada. Parecia realmente envergonhada.
— Me escolheu?
— É. Eu queria que meu primeiro homem fosse um homem maduro. Um homem que soubesse o que fazer com uma mulher.
Arregalei os olhos. Enrubesci como uma bandeirante adolescente. Comecei a tossir. Enquanto tossia, desnorteado, pensava: ela é virgem! Meu Deus, ela é virgem! Achava que fosse uma safadinha, uma malandra, uma garota que já tivesse passado por meia dúzia de namorados, e ela é virgem!!!
— Você... — balbuciei, depois de me recuperar. — Você é... é... é...
— Sou — interrompeu ela. — Sou virgem.
Virgem! Intocada! Nenhum homem jamais se cevou naquele corpo rijo e macio. Nenhum! E ela me queria! Ela se ofereceu a mim! Meu Deus! Meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Quando limpei o suor da testa, Suzi já estava à porta.
— Tiau — disse ela, lançando-me um último sorriso. — O envelope é teu.
E se foi, rápida como um fantasma.
Ainda pensei em sair correndo atrás dela, mas lembrei da minha secretária. Ela decerto tiraria uma conclusão maliciosa, se eu me jogasse atrás de Suzi, decerto iria contar aquilo para alguém, não duvido que contasse até para a minha mulher. Maldita! Ainda demito aquela secretária.
Comecei a andar pelo escritório, tonto. Cristo, que oportunidade perdida! Que aventura louca! Que vida!!! Bom, mas pelo menos eu havia me saído razoavelmente bem daquela loucura toda...
Apesar de sentir-me aliviado, certa apreensão oprimia-me o peito. Nunca mais veria Suzi, isso era certo. E nem poderia procurá-la, de jeito nenhum. Ela disse que havia sido difícil acalmar o Tijolo. E aquela mãe dela era uma ameaça permanente, ah, era. Uma louca trapaceira, era isso que ela era. Não podia me arriscar. Já havia me arriscado o suficiente.
Mesmo assim, estava triste com o desfecho da história. Estava frustrado. Essa a palavra certa: frustrado.
Caminhei até a mesa. Olhei para o envelope. Sopesei-o, e o abri. Saquei o celular de dentro e, junto com o celular, um papel. Um bilhete de Suzi. Uma despedida, pensei.
Não era um bilhete. Era um número. Oito números, na verdade. Refleti. O que será que... O novo celular dela! Meu coração pulou na garganta. Li e reli aquele número, li e reli, li e reli.
Pensei que seria arriscado, muito arriscado, que não valia a pena tentar, que poderia passar por todo aquele inferno de novo, que já havia me livrado de toda a confusão e que não precisava daquilo para mim, ah, não, eu era um homem feito, um adulto, um advogado bem constituído, com mulher, dois filhos, dez mil na poupança, um Pálio fúcsia, era isso o que eu era.
Por que arriscar tudo isso? Por quê??? Mas aquele número reluzia diante de mim, piscava como um anúncio de néon, e perguntei para mim mesmo: por que não? Afinal, ela é Suzi. Ah, Suzi.
E a noite premiou um cantor e dois atores que eu estava torcendo MUITO que ganhassem nas suas respectivas categorias.
Quem? Bruce Springsteen com a Melhor Canção ("The Wrestler" o nome da música, aliás, musicaço diga-se de passagem) do novo filme do Mickey Rourke (The Wrestler), o próprio Rourke (nas minhas apostas acabei apostando no Brad Pitt por toda mídia em cima do novo filme dele, pelo astro que ele é e pelo fato dele nunca ter levado um prêmio de Melhor Ator e os votantes pensarem que chegou a hora dele), onde achei que ele teria apenas uma indicação, mas para minha surpresa, levou o Globo de Ouro de Melhor Ator e, claro, Heath Ledger, que desde o começo desse blogger e antes mesmo de sair o filme, já venho salientando que era um papel digno de Globo de Ouro e Oscar. E se concretizou. Ledger ganhou como Melhor Ator Coadjuvante em Drama e eu lavei a alma. E até porque não seria diferente, depois da caracterização dele como Coringa, não ganhar seria uma heresia.
Esses três ganhando, pra mim, já valeu o Globo de Ouro. Vamos ver no Oscar, mas isso já é assunto prum outro post.
Abaixo, reproduzo o post que escrevi no dia 11/12/2008, com as minhas apostas. Algumas categorias eu errei feio (cinema principalmente, que de 14 categorias, acertei apenas 4 (foi o Globo de Ouro das surpresas. É sério. Não é desculpa, não. rsrs)), outras eu acertei quase todas (nas categorias de TV por exemplo, que das 11 categorias, acertei 7), mas uma coisa é certa: este foi o Globo de Ouro de Heath Ledger. Espero que ele tenha visto sua premiação lá de cima. "Tá fazendo falta aqui", já diria Christopher Nolan no discurso de agradecimento em nome de Ledger. E que venha a estatueta de Melhor Ator Coadjuvante no Oscar, Heath. Você merece.
Abaixo o vídeo dele ganhando o Globo de Ouro:
PS: o que tá em (V) eram minhas apostas. O que tá como (GANHOU), bom, tu já sabe. =)
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Melhor filme - Drama Apenas um Sonho O Curioso Caso de Benjamin Button (V) Frost/Nixon The Reader Slumdog Millionaire (GANHOU)
Melhor filme - Comédia ou musical Na Mira do Chefe Mamma Mia! Queime Depois de Ler (V) Simplesmente Feliz Vicky Cristina Barcelona (GANHOU)
Melhor diretor Danny Boyle (Slumdog Millionaire) (GANHOU) Stephen Daldry (The Reader) David Fincher (O Curioso Caso de Benjamin Button) (V) Ron Howard (Frost/Nixon) Sam Mendes (Apenas um Sonho)
Melhor atriz (drama) Anne Hathaway (O Casamento de Rachel) Angelina Jolie (A Troca) Kristin Scott Thomas (Il y a Longtemps que je T'aime) Meryl Streep (Dúvida) Kate Winslet (Apenas um Sonho) (V)(GANHOU)
Melhor ator (drama) Leonardo DiCaprio (Apenas um Sonho) Frank Langella (Frost/Nixon) Sean Penn (Milk – A Voz da Igualdade) Brad Pitt (O Curioso Caso de Benjamin Button) (V) Mickey Rourke (The Wrestler) (GANHOU)
Melhor atriz (comédia ou musical) Rebecca Hall (Vicky Cristina Barcelona) Sally Hawkins (Simplesmente Feliz) (GANHOU) Frances McDormand (Queime Depois de Ler) (V) Meryl Streep (Mamma Mia!) Emma Thompson (Last Chance Harvey)
Melhor ator (comédia ou musical) Javier Barden (Vicky Cristina Barcelona) Colin Farrell (Na Mira do Chefe) (GANHOU) James Franco (Segurando as Pontas) Brendan Gleeson (Na Mira do Chefe) Dustin Hoffman (Last Chance Harvey) (V)
Melhor filme estrangeiro The Baader Meinhoff Complex (Alemanha) Everlasting Moments (Suécia) Gomorra (Itália) (V) Il y a longtemps que je t’aime (França) Waltz with Bashir (Israel) (GANHOU)
Melhor filme de animação Bolt - Supercão Kung Fu Panda Wall-E (V)(GANHOU)
Melhor atriz coadjuvante Amy Adams (Dúvida) Penelope Cruz (Vicky Cristina Barcelona) (V) Viola Davis (Dúvida) Marisa Tomei (The Wrestler) Kate Winslet (The Reader) (GANHOU)
Melhor ator coadjuvante Tom Cruise (Trovão Tropical) Robert Downey Jr. (Trovão Tropical) Ralph Fiennes (A Duquesa) Phillip Seymour Hoffman (Dúvida) Heath Ledger (Batman – O Cavaleiro das Trevas) (V)(GANHOU)
Melhor roteiro O Curioso Caso de Benjamin Button (V) Dúvida Frost/Nixon The Reader Slumdog Millionaire (GANHOU)
Melhor trilha sonora O Curioso Caso de Benjamin Button (V) Defiance Frost/Nixon Slumdog Millionaire (GANHOU) A Troca
Melhor canção Bolt - Supercão Cadillac Records Gran Torino Wall-E The Wrestler (V)(GANHOU)
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Melhor telessérie (drama) Dexter House Em Terapia (V) Mad Men (GANHOU) True Blood
Melhor telessérie (comédia) 30 Rock (V)(GANHOU) Californication Entourage The Office Weeds
Melhor ator em telessérie (drama) Gabriel Byrne (Em Terapia) (GANHOU) Michael C. Hall (Dexter) Hugh Laurie (House) (V) Jonathan Rhys-Meyers (Os Tudors) Jon Hamm (Mad Men)
Melhor atriz em telessérie (drama) Sally Field (Brothers and Sisters) (V) Mariska Hargitay (Law and Order: Special Victims Unit) January Jones (Mad Men) Anna Paquin (True Blood) (GANHOU) Kyra Sedgwick (The Closer)
Melhor ator em telessérie (comédia) Alec Baldwin (30 Rock) (V)(GANHOU) Steve Carell (The Office) Kevin Connolly (Entourage) David Duchovny (Californication) Tony Shalhoub (Monk)
Melhor atriz em telessérie (comédia) Christina Applegate (Samantha Who?) America Ferrera (Ugly Betty) Tina Fey (30 Rock) (V) (GANHOU) Debra Messing (The Starter Wife) Mary-Louise Parker (Weeds)
Melhor minissérie ou telefilme A Raisin in the Sun Bernard and Doris Cranford John Adams (V) (GANHOU) Recount
Melhor ator em minissérie ou telefilme Ralph Fiennes (Bernard and Doris) Paul Giamatti (John Adams) (V)(GANHOU) Kevin Spacey (Recount) Kiefer Sutherland (24: Redenção) Tom Wilkinson (Recount)
Melhor atriz em minissérie ou telefilme Judi Dench (Cranford) Catherine Keener (An American Crime) Laura Linney (John Adams) (V) (GANHOU) Shirley MacLaine (Coco Chanel) Susan Sarandon (Bernard and Doris)
Melhor ator coadjuvante em série, minissérie ou telefilme Neil Patrick Harris (How I Met your Mother) Denis Leary (Recount) Jeremy Piven (Entourage) Blair Underwood (Em Terapia) Tom Wilkinson (John Adams) (V)(GANHOU)
Melhor atriz coadjuvante em série, minissérie ou telefilme Eileen Atkins (Crawford) Laura Dern (Recount) (GANHOU) Melissa George (Em Terapia) Rachel Griffiths (Brothers and Sisters) Dianne Wiest (Em Terapia) (V)