Domingo, dia 17 de dezembro, o filho gremista pergunta para o pai, também gremista:
- Pai, porque os colorados estão comemorando? - Porque eles foram campeões do mundo, diz um conformado pai. - Mas pai, nós também somos campeões do mundo, né? - Sim!, exclama imediatamente um animado pai. Ao fundo, foguetório. - Pai, tem vídeo teu no Youtube na comemoração e fotos da festa do Mundial? - Não, guri. Naquela época não existia Youtube e câmera digital. Aliás, nem internet tinha. - Não???? Bah, que estranho... E o Inter ganhou do Barcelona, aquele time que vemos todos os domingos na TV, né? E nós, de quem ganhamos? - Do Hamburgo, 2x1 na prorrogação. - Hamburger? Que time é este? - HamburGO. Na época era o campeão europeu. - E depois? - Nunca mais ganhou nada, hoje é time médio na Alemanha. Eles foram com time misto, tavam mal no Alemão. - Mas eram bons? Tinham craques que nem o Ronaldinho, o Deco, o Eto'o? - Claro, tinha o... Rollf e o Magath!
Confuso, mas confiando no pai, o guri diz: - Hmm, tá bom... Ah, este Hamburger era que nem o Once Caldas da Colômbia, né? - Como você pergunta coisas! Já falei que é HAMBURGO, com GÊ-Ó no final! O que mais tu quer saber, hein? - Contra quem jogamos nas semifinais? Um time da Ásia? - Não, guri. Na época não tinha isto, era um jogo só da Europa contra a América do Sul. - Hmm, entendi.. Então na época, só haviam descoberto dois continentes? - Mas saco (nesta hora o pai já está bem irritado com o interrogatório)! Não, é que não tinha representantes dos outros continentes. Era só 1 jogo, e só entre eles.
Tentando amenizar, mas muito curioso ainda , o menino pergunta: - Pai, tem imagem de TV da entrega da nossa taça do Mundial? - Tenho! Peraí, tenho que pegar o videocassete betamax que tá no sótão e instalar na TV velha da sala. O pai vai rápido, todo feliz e instala em 10 minutos. A imagem tá ruim, mas dá para ver a entrega direito. Neste momento, passa uma horda de colorados na frente do prédio gritando: "Colorado, Colorado: nada vai nos separar..." - Pai, quem é este japonês que tá entregando a taça pro nosso time? Era o presidente da FIFA na época? Quem era antes do Blatter? - Hmm, não lembro. Deixa eu ver o que tá escrito na tela. Ah, tá ali. "Toyota Maintenance Manager", então é o Gerente de Manutenção da Toyota.
- Entendi tudo então pai! Então quer dizer que também somos campeões do mundo, mas na época não tinha internet nem câmera digital, e gravado em um sistema que não existe mais. Que ganhamos de um time que era zebra na Europa, que não tinha semifinal e o mundo do futebol só tinha dois continentes. E que o prêmio pela conquista foi entregue por um funcionário subalterno da patrocinadora do jogo.
O pai suspira, escutando pela milésima vez ao fundo "... o teu presente diz tudo, trazendo a torcida alegres emoções..." e diz: "é, ainda bem que este já é gremista. Mas vai ser difícil convencer o outro...”
Quem me conhece, sabe: sou fã incondicional do "Universo Batman". Tenho uma coleção de gibis pra quem não sabe de mais de 500. Mônica,Cebolinha,Cascão,Chico Bento,Magali, Pato Donald, Tio Patinhas,Zé Carioca,Peninha, Pateta,Almanaque Disney,Superman,Homem-Aranha,Hulk,X-Men,Wolverine, etc. E dentre esses gibis, tenho vários do Batman, claro. E dentre os do Batman que tenho, saliento três pra quem quiser se interar sobre o Homem-Morcego, e que são considerados verdadeiras "Bíblias" nesse meio de quadrinhos de super-heróis.
[Batman - O Cavaleiro das Trevas] [Batman - A Piada Mortal] [Batman - Ano Um]
Três revistas que pela importância que possuem no "Universo Batman", foram usadas como roteiros dos dois filmes mais recentes do Morcegão: Batman Begins e The Dark Knight.
Pois bem, abaixo segue um apanhado geral/resumo das três revistas, analisadas por dois colaboradores do Omelete, e o que você encontrará lendo-as. Quem conhece, sabe do que eu tô falando. Quem não conhece, procure logo as três e devore-as. Afinal, não é sempre que vemos uma história do Batman reeinventada pelo gênio Frank Miller.
[BATMAN - O CAVALEIRO DAS TREVAS]
Há dois pontos que considero fundamentais na mini-série Batman: o cavaleiro das trevas de Frank Miller - que está completando quinze anos de seu lançamento no Brasil. O primeiro diz respeito ao próprio Homem-Morcego e o segundo a outra peça-chave da trama, o Super-Homem. Para muitos, Frank Miller foi o primeiro a apresentar um Batman angustiado e amargurado por crises existenciais, ao passo que retratou o Homem de Aço como um covarde puxa-saco dos poderosos. Esta aí algo de que eu não poderia discordar mais.
Dizer que Frank Miller foi o primeiro a introduzir, no mito do herói criado por Bill Finger e Bob Kane, o drama dos conflitos psicológicos, é um equívoco que só quem não conhece a personagem pode cometer. Miller não teve esse mérito, simplesmente porque chegou tarde. Dezesseis anos antes, a reformulação encabeçada por Denny O’Neil, Dick Giordano, Neal Adams e Jim Aparo, levou a deprê à Batcaverna, acrescentando ao mito um arsenal de angústias e tormentos bem ao estilo Marvel.
Mas o equívoco não para aí. Miller jamais retratou o Cruzado de Capa remoído por angústias dramáticas, sentimentos de culpa e conflitos emocionais. Ao contrário, sempre achou meio ridícula essa coisa da personagem questionar o que faz. Para ele, um herói é uma força elemental, um ser mítico que não vive pedindo desculpas por ser como é. Nós, reles mortais, é que padecemos disso.
Levar conflitos emocionais a super-heróis é uma faca de dois gumes. Quando feito com moderação, produz resultados interessantes. É o caso das primeiras aventuras do Aranha ou do Thor de Jack Kirby. No entanto, rapidamente, torna-se redundante e patético. Vide a agonia mensal e obrigatória dos mutantes da Marvel. Até alguns anos atrás, só o X-Factor escapava desse tormento. Bastou Peter David deixar o título para humor e a ação serem postos de lado pelo dramalhão a la novela das oito.
Pouco antes do furacão O cavaleiro das trevas, Batman vinha amargando uma das suas fases mais lacrimogêneas. Carregando nas tintas, Doug Moench tentava ressaltar o “lado humano” do herói. Isso elevou insuportavelmente o teor de psicologia de botequim nas revistas.
A mexicanização da narrativa é uma muleta muito sedutora pro roteirista, ainda que haja o risco de transformar uma aventura num tratado de emoções humanas. E o que é pior... escrito por gente não qualificada. Exemplos dessa “técnica” são os dois primeiros filmes do Batman - porres homéricos de obviedades psicologizantes - e a excrescência que foi a Queda do Morcego.
Miller poupou seu Batman dessa aporrinhação. Na mini-série, o protagonista não tem conflitos emocionais - se tem, não demonstra -, não é amargurado por dúvidas existenciais ou angústia atrozes. Em suma, não se sente culpado pelo que faz. Muito pelo contrário. Está de bem com a vida. Ou melhor, como dizem os americanos, é maior do que a vida. Ele adora combater o crime e jamais questiona seus métodos e propósitos. Dane-se se o resto do mundo não concorda.
Se há discussão e polêmica quanto aos méritos e motivações do Batman, Miller as projeta para fora da personagem. É a própria população perplexa, por meio da televisão, que discute e tenta explicar o fenômeno.
Não quero dizer com isso que a mini-série esqueça a temática psicológica. Miller apenas não se vale dela como muleta. A angústia está presente, mas apenas nas primeiras páginas para provar que Bruce Wayne é um ser sem existência própria. Ele é retratado como um homem atormentado, escondendo-se atrás da bebida e de uma vida de excessos. No entanto, quando cede lugar definitivamente ao Batman, toda e qualquer dor psíquica desaparece. Nas páginas restantes da mini-série, não se vê uma gota sequer de reticência, sentimento de culpa, dúvida moral e outros ingredientes tão comuns na galeria infindável de heróis “humanos”.
Todo roteirista que, inspirado em Miller, decidiu seguir por esse caminho se deu bem. Uma das fases mais agradáveis de Batman em Detective Comics foram as primeiras histórias de Alan Grant e Norm Breyfogle. Nelas, a trama se fundamenta nas proezas da personagem, não nos seus dramas pessoais. Outro exemplo de bom resultado são os desenhos animados do herói de Paul Dini e Bruce Timm. A tônica da série está na ação e no clima sombrio. Os psicologismos têm apenas papel secundário.
Quanto ao Super-Homem ser um covarde que se vendeu à Casa Branca e ao Pentágono, o equívoco é ainda maior. Na verdade, é o Batman que pensa assim. E nós, leitores, sugestionáveis que somos, deixamo-nos levar pelas mesmas idéias. Entretanto, apesar do Homem-Morcego acreditar que está sempre certo, não vamos nos iludir achando que ele realmente tenha razão o tempo todo. Para um homem que, através do combate ao crime, tenta forçar o mundo a fazer sentido, é de se esperar que a atitude do Homem de Aço pareça desprezível e covarde.
Eu prefiro pensar que a postura do Homem de Aço tenham realmente a ver com o medo, mas não aquele que brota da covardia e da falta de caráter e sim do temor respeitoso e prudente que se deve ter por uma força reconhecidamente superior. E que força seria essa capaz de atemorizar o ser mais poderoso da Terra&qt& Miller responde a essa pergunta durante toda a sua mini-série. É do próprio ser humano que Super-Homem tem medo, ou antes, da sua insensatez, da sua intolerância e da ameaça que representa a si mesmo e ao ambiente.
Clark reconhece e respeita o potencial autodestrutivo da humanidade. Afinal, não somos capazes de destruir a Terra várias vezes&qt& (Como se uma não bastasse). Daí sua “obediência” ao governo. Não porque acredite em propostas deste ou porque teme por si mesmo, mas por crer, tão intensamente quanto Batman em seu próprio ponto de vista, que, ao se tornar uma “arma secreta” do governo americano, estaria prevenindo uma desgraça maior. Espera que, agindo assim, proteja a humanidade de si mesma.
Alan Moore parece concordar com o Super-Homem quanto a essa ameaça. Em Watchmen, somos levados a crer, a princípio, que o onipotente Dr. Manhattan tem pleno controle da geopolítica mundial, neutralizando risco de autodestruição nuclear do homem. Com o progredir da trama, vemos que a superioridade de Manhattan é ilusória. Nem mesmo ele seria capaz de deter a beligerância humana.
A terceira edição de O cavaleiro das trevas vem provar que esse temor tinha sua razão de ser, mas a estratégia empregada por Super-Homem era equivocada. A explosão da superbomba atômica e o caos que se seguiu a ela não deixa dúvidas de seu erro. Por sua vez, Batman também havia se enganado. Nada que tenha feito durante toda a mini-série pôde impedir esse desenlace fatal.
Gosto de pensar - como o próprio Miller - que Super-Homem e Batman representam dois lados opostos no universo dos super-heróis, a Luz e as Trevas. Há uma patente diferença entre as posturas e estratégias de ambos. O irônico antagonismo entre esses dois heróis míticos é a maior riqueza da mini-série. Super-Homem, dotado da força de um semideus, respeita e teme a estupidez humana. Sua perspectiva é pessimista.
Por sua vez, Batman, desprovido de superpoderes, é incauto, passional e impulsivo, dispondo-se a arriscar tudo e todos. Otimista até o último momento, subestima o verdadeiro inimigo, desafiando-o sempre de peito aberto.
Afinal, não seriam esses ingredientes, tão presentes em ambos, a matéria prima que compõe os grandes heróis?
[BATMAN - A PIADA MORTAL]
Em Batman: o cavaleiro das trevas, Frank Miller mostrou todo o paradoxo existente entre o Homem Morcego e o Homem de Aço. Batman representa as trevas; Super-Homem, a luz. Ambos, no entanto, são homens cujas vidas, devido a diferentes motivos, se resume ao combate ao crime. No caso do Super-Homem, isso é quase como uma pré-destinação. Alienígena, dotado de imensos poderes e criado com carinho e dedicação ímpares por Martha e Jonathan Kent, o caminho do herói seria algo a surgir quase que inevitavelmente na vida de Clark Kent. Já a “vocação” do jovem Bruce Wayne aflorou quando ele presenciou o assassinato de seus pais. Bastou um dia ruim para que a vida de Wayne mudasse para sempre.
Um dia ruim. Para o Coringa, isso é tudo o que é necessário para transformar a vida de uma pessoa. Não só isso, mas basta um dia desses para que uma pessoa completamente sã perca toda a sua sanidade e adentre os caminhos sem volta da loucura. Basta uma tragédia para que uma pessoa prefira o conforto da loucura ao tormento das lembranças daquele dia.
E é disso, essencialmente, que se trata a aclamada Batman: a piada mortal, escrita por Alan Moore e ilustrada por Brian Bolland (que criou talvez a mais icônica imagem do Coringa), com cores de John Higgins. Até então, o Coringa era um homem sem passado. Nada se sabia da vida do Palhaço do Crime antes dele aparecer em Gotham City cometendo suas atrocidades e atormentando a vida de Batman. A obra de Alan Moore trata não só de criar uma origem, e conseqüentemente, uma dimensionalidade maior ao personagem, como de aproximá-lo do leitor. A partir daquele momento, o Coringa deixa de ser o vilão maniqueísta que até então fora, para se tornar um personagem mais humanizado, de forma que quase dá pra entender o porquê dele ser quem é e fazer o que faz. Mas estou me adiantando.
A piada mortal começa com uma visita de Batman ao Asilo Arkham, o sanatório para criminosos insanos de Gotham. O vigilante vai ao Asilo para visitar o Coringa, tentar conversar com o Palhaço do Crime e colocar um ponto final na longa história de ódio que existe entre esses dois homens. Para a surpresa do Homem Morcego, no entanto, o Coringa fugiu do Arkham e colocou outra pessoa em seu lugar. Quando descobre o ocorrido, Batman sai atrás do vilão.
Enquanto isso, no entanto, o Coringa já está colocando seu plano à prova. Ele quer mostrar ao Batman que até mesmo a mais sã das pessoas pode enlouquecer. Assim, decide fazer uma visita ao comissário Gordon. Quando a filha adotiva do comissário, Bárbara (ex-Batgirl, atual Oráculo) atende a porta, recebe um tiro que parte sua coluna. Enquanto os comparsas do Coringa espancam o policial, o Palhaço do Crime despe Bárbara e tira diversas fotos dela naquela situação, com a coluna partida e, provavelmente, sofrendo algum outro tipo de abuso por parte do criminoso. (Isso, no entanto, não fica claro na trama e é apenas uma especulação da minha parte).
Com isso em mãos, o Coringa leva Jim para um parque de diversões, onde tortura o comissário psicologicamente, mostrando-o as fotos de Bárbara. Seu objetivo é enlouquecê-lo, provando a todos, especialmente ao Batman, que não é preciso muito – apenas uma grande tragédia pessoal – para que uma pessoa perca sua sanidade. E que é apenas isso que separa o vilão de todas as pessoas. Todas menos Batman. Afinal, segundo o criminoso, foi exatamente isso que fez com que Batman decidisse vestir a fantasia de um morcego e sair combatendo o crime nas ruas. Coisa que corresponde a mais pura verdade.
Paralelamente, vemos o “dia ruim” do Coringa. Ex-funcionário de uma fábrica química, o futuro Coringa era um comediante frustrado que decide cometer um crime para poder dar uma vida mais digna à sua esposa grávida e seu futuro filho. A idéia é que, se passando pelo criminoso Capuz Vermelho, ele leve dois criminosos mequetrefes através da fábrica química, com o objetivo de assaltar a empresa vizinha, uma fabricante de baralhos. As coisas começam a dar errado quando, no dia planejado para o assalto, sua esposa morre eletrocutada em um acidente doméstico. Sem motivos para seguir seu plano, o vilão acaba sendo coagido por seus novos sócios a se ater ao combinado. Na hora da ação, no entanto, os planos do bando são frustrados pelos seguranças da empresa e por Batman. Os dois criminosos são baleados enquanto que o homem que se passava pelo Capuz Vermelho acaba entrando em pânico ante a presença de Batman e pula em um tonel de produtos químicos. Sai de lá com a pele branca, os cabelos verdes, lábios vermelhos e completamente enlouquecido.
A piada mortal é uma história que quebra diversos paradigmas dos quadrinhos. Antigamente, a relação herói-vilão era simplista. O herói é a representação do Bem e, o vilão, a do Mal. Com o passar do tempo, especialmente depois da revolução proposta por Stan Lee, Jack Kirby e companhia na década de 60, essa relação mudou um pouco. O maniqueísmo e a relação Bem x Mal ainda estão lá, mas o herói deixa de ser um ser perfeito e passa a apresentar problemas e conflitos internos comuns à qualquer pessoa. O vilão, por sua vez, torna-se um ser um tanto quanto mais complexo, apesar de sua importância ainda se manter inferior à do herói. Mas ainda é ele, o vilão, que extrai do herói o que ele tem de melhor e faz com que ele supere seus limites no intuito de subjugar seu antagonista.
Em A piada mortal, Moore explora a psicologia de Batman, Coringa e do comissário Gordon. Todas as tramas paralelas apresentadas no gibi acabam tendo Gordon como seu referencial e é o comissário que concentra a maioria das perguntas que surgem após a leitura da revista. Afinal de contas, se basta um “dia ruim” para levar a sanidade de uma pessoa, porque o mesmo não aconteceu com Gordon? Porque é que Wayne se transformou no Batman, aquele ex-comediante no Coringa e o comissário escapou ileso? Qual é essa força interna que fez com que Gordon resistisse tão bem ao seu “dia ruim” e que faltou a Wayne e ao Coringa?
Alan Moore também brinda seus leitores com um raro momento de sanidade do Coringa, onde ele praticamente admite que é covarde demais para tentar superar sua condição e que prefere a segurança da loucura ao tormento que aquelas recordações lhe trariam. Mais raro ainda é ver Batman não rindo, mas gargalhando de uma piada contada pelo Palhaço do Crime já no fim da história.
É preciso ressaltar, ainda, a qualidade não só da trama quanto do roteiro de Moore. As passagens que mostram as recordações do Coringa são extremamente bem feitas e mesclam passado e presente de maneira brilhante. A utilização das cores de John Higgins para criar atmosferas climáticas e ressaltar não só essas transições como também as seqüências mais calmas ou violentas são outro ponto positivo da obra.
A segunda metade da década de 80 nos trouxe obras referenciais do Homem-Morcego. A piada mortal, ao lado de Batman: ano um e da supracitada O cavaleiro das trevas está entre uma das mais importantes histórias já estreladas pelo Homem Morcego. Mesmo que nesse caso ele passe apenas de um coadjuvante, já que em A piada mortal o protagonista é o Coringa.
Em 1989, A piada mortal foi agraciada com os mais importantes prêmios da Indústria de Quadrinhos, o Will Eisner Awards (melhor escritor, desenhista e álbum gráfico) e o Harvey Award (melhor história, álbum gráfico, desenhista e colorista).
[BATMAN - ANO UM]
Na segunda metade dos anos 80, a editora DC Comics resolveu que era hora de arrumar a casa. Naquela época a editora era povoada por um sem número de universos paralelos, cada um com seu próprio elenco de personagens, todos muito parecidos entre si. Era uma legião de Batmen, Super-Homens e Mulheres-Maravilhas, cada um advindo de uma dimensão paralela diferente. Era necessário fazer alguma coisa para enxugar aquele excesso de personagens, para que a DC pudesse entrar em uma nova era. A essa limpeza deu-se o nome de Crise nas infinitas terras. Nela centenas de personagens coadjuvantes - e alguns principais, como a primeira Super-Moça e o segundo Flash (Barry Allen) - perderam suas vidas no confronto contra as forças do poderoso Anti-Monitor. No final da série, entre mortos e feridos salvaram-se aqueles cuja relevância era essencial para a mitologia da editora.
O objetivo essencial de Crise nas infinitas terras era a redefinição dos principais personagens da DC, de forma a apresentá-los novamente a uma audiência mais jovem. Assim, todos os principais personagens da editora, em diferentes níveis de profundidade, tiveram suas origens revistas, mantendo algumas de suas características clássicas e adicionando novos elementos às suas mitologias. Para que tal empreitada desse certo, a DC escolheu a dedo aqueles profissionais que cuidariam de re-introduzir estes personagens aos leitores. O Super-Homem foi entregue a John Byrne, que simplesmente revolucionou o personagem, adicionando elementos à sua mitologia que até hoje despertam tanto o amor quanto o ódio dos fãs do herói kriptoniano; a Mulher-Maravilha ficou nas mãos de George Pérez, que produziu uma seqüência de histórias majestosa, fazendo com que o roteirista fosse até hoje considerado o autor definitivo da princesa de Themyscira; já Frank Miller foi incumbido de retomar as origens de Batman.
Miller trabalhou sua história como uma minissérie dentro de uma série regular (Batman #404-407), visitando os primeiros dias do Cavaleiro das Trevas. Melhor dizendo, não os primeiros dias, mas sim o primeiro ano de atividade do Homem-Morcego em Gotham City. Batman: ano um, como o próprio nome sugere, cobre exatamente os primeiros doze meses da vida de Bruce Wayne como Batman, recontando uma história que todo mundo já conhecia, mas adicionando novos elementos à trama.
Batman: ano um começa com o retorno do jovem Bruce Wayne à sua cidade natal, após um longo período de viagens pela Europa e Ásia. Viagens estas que Wayne aproveitou para adquirir e aperfeiçoar todas as habilidades e conhecimentos necessários para seu objetivo: o combate ao crime. Exatamente no mesmo dia em que Wayne retorna a Gotham, o então tenente James Gordon chega à cidade, egresso de Chicago, para assumir um posto na força policial da cidade.
A partir daí, Miller explora duas frentes diferentes ao longo dos quatro capítulos da minissérie. Uma delas é focada em Gordon e mostra como o tenente se impõe ante toda a corrupção que infesta a força policial de Gotham (combatendo-a por dentro com uma discreta, mas fundamental, ajuda de Batman) e como vai conseguindo cada vez mais apoio de imprensa e da opinião pública. Miller mostra as conseqüências sofridas por Gordon quando ele decide não participar dos esquemas sujos da polícia local e como isso afeta sua vida pessoal, culminando na descoberta de seu caso com a detetive Sarah Essen, e na tentativa de assassinato sofrida por sua esposa e filho recém-nascido. A forma como Gordon passa de antagonista a aliado do Homem-Morcego, sua desconfiança de que o playboy Bruce Wayne e o vigilante são a mesma pessoa, seus primeiros contatos com o promotor Harvey Dent e sua promoção a capitão são outros aspectos explorados por Miller, no intuito de estabelecer os paralelos que tornaram o futuro comissário e Batman não só aliados como amigos até certo ponto.
Outro foco de Miller, obviamente, é o próprio Bruce Wayne. A primeira tentativa frustrada de combater o crime, a consciência de que precisava trazer medo aos criminosos, a confecção do traje do morcego, os primeiros conflitos com a polícia e a relação de amizade com Harvey Dent são mostradas ao longo da série. A forma como o Batman conquista a confiança dos policiais honestos de Gotham e se torna um aliado poderoso da polícia também são mostrados ao longo da história, traçando um retrato bem acabado dos primeiros dias de atuação do Cavaleiro das Trevas.
Além de focar-se em Gordon e Batman/Wayne, Miller também mostra rapidamente a origem da Mulher-Gato, então uma prostituta que, inspirada pelos atos do Homem-Morcego, confecciona um uniforme para si, mas com o objetivo de se tornar uma criminosa. Alguns mafiosos, como Carmine Romano, que seria bastante explorado por Jeph Loeb em O longo dia das Bruxas e Vitória sombria, também são apresentados na minissérie.
Com arte de David Mazzucchelli e cores de Richmond Lewis, que dão um clima noir ao gibi, Batman: ano um não é tão revolucionária quanto Batman: o cavaleiro das trevas ou Batman: a piada mortal. Ela reconta a origem do mito do Batman, mantendo seus principais aspectos intactos, enquanto a atualiza para uma audiência mais moderna. Mesmo não sendo nenhuma revolução, Ano um ainda é uma das melhores histórias do personagem em todos os tempos e item essencial na coleção de qualquer fã do Homem-Morcego.
[Fonte:Omelete/ Jotapê Martins (O Cavaleiro das Trevas) & Rodrigo Monteiro (Ano Um e A Piada Mortal)]
Curto e grosso! Pra quem é apaixonado pelos Anos 80 como eu, não pode deixar de visitar O Tempo Passa. Um site com tudo sobre essa década show de bola e inesquecível (para mim), e podreira e sem nada a acrescentar (para outros). Enfim, fica a dica. Um dos sites mais completos sobre os Anos 80 com certeza.
O texto dos trailers hollywoodianos pelo visto não vai mudar, mas a voz que os narra nunca mais será a mesma. Morreu na segunda-feira em Los Angeles, aos 68 anos, Don LaFontaine.
Ironicamente, o homem que emprestou sua voz rouca a milhares de trailers nos últimos 25 anos sofria de um mal respiratório, pneumotórax, a presença de ar na cavidade pleural, em decorrência de colapso do pulmão. Ele estava internado no Cedars-Sinai Medical Center de L.A. quando morreu.
LaFontaine trabalhou como narrador para os programas da TV dos EUA Entertainment Tonight e The Insider, entre outros, e narrou comerciais de Chevrolet, Pontiac, Ford, Budweiser, McDonalds, Coca-Cola... A fama veio, porém, dos textos hilariamente repetitivos dos trailers - que LaFontaine inclusive parodiou em uma série de comerciais para a companhia de seguros de carros Geico.
Confira abaixo um especial que a ABC exibiu com o saudoso narrador:
Porra! Foi-se a voz que eu usaria no meu futuro casamento.
[A MULHER DO GREGÓRIO] [Fonte: Arte Zero Hora] Quando, certa manhã, acordou de intranqüilos sonhos, Gregório Santos viu-se, no seu leito, deitado ao lado de uma imensa gorda. Era a sua mulher. Ficou chocado.
Não lembrava do instante em que se desencadeara aquela metamorfose. Não percebera que vinha ocorrendo. Recordava, isso sim, de como sua mulher era ao se conhecerem. Não que fosse magricela, não. Mas, pô!, estava tudo em cima, lá. Grande onde tinha de ser grande. Redondinha onde tinha de ser redondinha. Substanciosa, sim. Opulenta, talvez. Gorda, jamais.
Agora, tremia ante àquela... coisa... ocupando dois terços da cama — bolotas de sebo pendendo dos braços e dos culotes. Um pára-choque de banha protegendo a cintura. Três queixos.
Sua mulher. Uma gorda.
Gregório refletiu. Vieram-lhe à mente os jantares que deu para articular sua candidatura à presidência do clube. Durante dois anos, convidou conselheiros para reuniões noturnas em sua casa. Todos compareciam, mesmo os de outras facções. Ninguém perderia as iguarias feitas por sua mulher.
Os bobós de camarão. As bacalhoadas à Gomes de Sá. As rabadas de ovelha com feijão mexido. Os hors-d'oeuvres. Os licores que ela mesma aprontava com suas mãozinhas de fada. As sobremesas, as sobremesas, aaah...
Gregório Santos elegeu-se presidente do clube graças aos manjares celestiais preparados por sua mulher. Só que ela também comia.
Não apenas durante o jantar, em silêncio, ouvindo as articulações tramadas por ele. Também antes, enquanto besuntava acepipes, recheava petiscos, engrossava cremes, flambava guloseimas. De tudo, provava um naco, uma colherada, uma rapa, e suspirava, e estalava a língua, e fechava os olhos, e provava mais um pouquinho, um tantinho só, um nadinha, e outro, e outro, e mais outro.
Assim, engordou lenta e inexoravelmente. Do que Gregório só se dera conta na tal manhã de dor. A partir daí, a vida dele mudou. Sentia-se traído. Casara com uma uvinha, e agora, ao chegar em casa, encontrava uma jaca. Pior: sentia vergonha dela. Depois da descoberta daquela manhã, nunca mais a levara ao bar onde sempre se reunia com os amigos e os dirigentes do clube.
Separaram-se. Gregório Santos passou a namorar a secretária — loira, vinte aninhos, saltitante, matinal. A mulher de Gregório ficou duas semanas trancada em casa, chorando. Passado esse período, que fazer?, ela procurou emprego, foi tratar da vida.
Semanas. Meses. Numa noite azul de sexta, Gregório levou ao bar os empresários de uma multinacional que propunha formar parceria com o clube. Jantavam, tranqüilos, quando ele percebeu que o mais jovem dos empresários esticava um olhar fervente de lascívia para a mesa ao lado.
Gregório virou a cabeça para ver quem era a tal, certamente uma das apetitosas do ambiente, e, Jesus!, era ela! Sua mulher! Sem que ele percebesse, sua mulher havia se transformado numa... numa gostosa! Estava lá, de minissaia, pernas cruzadas, os bicos dos seios quase rompendo a blusa fina, bronzeada como uma primeira-dama, sorrindo para o maldito empresário!
- O-oi - gaguejou Gregório.
Só então ela o encarou. -És tu, Grégor! Nem tinha te visto... - Fazida! E que negócio era aquele de Grégor?
Os empresários, cutucando Gregório:
- Conhece? Conhece?
Conhecia, sim. Teve de chamá-la para a mesa. Ela sentou-se, cheia de frufrus com os empresários, grudou-lhes beijinhos nas faces. Entre um chope e outro, esbofeteando-o com uma felicidade ofensiva, falou de personal trainers, de dieta de proteínas, e mal dava atenção a Gregório, só olhava para os empresários, só ria para eles.
A alma de Gregório havia se embolado toda numa ponta do intestino grosso. Não contou para os empresários que eles assediavam sua ex-mulher. Ela também não. Ela sequer olhou para ele. Depois de uma hora de aflição, Gregório sentia-se uma barata. Levantou-se, tonto, e foi ao banheiro, lavar o rosto. Ao voltar, ela não estava mais lá. Nem o mais jovem dos empresários.
- Onde foram? - perguntou ao mais velho. Que respondeu com um riso malicioso:
- O safado foi matar aquela bolona!
Gregório tomou o maior pileque da sua vida. No dia seguinte, foi acordado pelo tefonema do desgranido que saíra com sua mulher:
- A parceria está feita! - exultou o empresário, antes de dizer alô. - Depois dessa noitada, a parceria está feita!
O clube saíra ganhando. Mas a cornice retroativa transformou Gregório num inseto. A todo momento, um de seus amigos ou colegas de diretoria comentava a forma física exemplar de sua mulher, como ela estava bonita, como tinha mudado. No dia em que lhe contaram que ela fora vista no shopping com o craque do time, o Renatinho, Gregório Santos disse o seguinte:
- Aaaaaaaaaaaaaaaaaah! - um grito tão dolorido e tão primal e tão alto que foi ouvido no estádio do clube rival.
Gregório saiu correndo a pé mesmo, chegou à casa dela, arf, arf, só pulmão e língua, abriu a porta num pontapé, agarrou-se aos tornozelos lisos dela e implorou:
- Me perdoa! Me perdoa!
Ela perdoou. Voltaram. E se passaram os meses. Anos. Gregório estava feliz com sua vida caseira, serena, igual. Sua mulher continuava cozinhando bem. O parceiro do clube era outra multinacional. O time conquistara o campeonato.
Renatinho havia sido vendido para o futebol bósnio. Tudo estava certo. Mas uma manhã, ele acordou de sonhos intranqüilos. Olhou nervoso para o lado, para a sua mulher. Então viu, sob o lençol, um volume imenso, redondo. Gritou, como um dia havia gritado:
- Aaaaaaaaaaaaaaaaaah!
Sua mulher acordou sobressaltada e jogou o travesseiro longe. O travesseiro que estava sobre o ventre dela. O travesseiro, ela sempre dormia agarrada ao travesseiro! Continuava linda. Não exatamente magricela, mas, bem, opulenta.
Gregório nem respondeu quando ela perguntou o que houvera. Apenas virou de lado. Suspirou. E sorriu.
Certo dia estavam dois homens caminhando por um cemitério quando se depararam com uma sepultura recente. Na lápide lia-se: "Aqui jaz um homem honesto e advogado competente". Ao terminar a leitura um virou-se para o outro e disse: "Desde quando estão enterrando duas pessoas na mesma cova?"