Aos saudosistas dos Anos 80 que nem eu, e fãs do The Cure, posto o clipe de "Boys Don't Cry". Música clááááássica e que nunca sai de moda.
The Cure é sempre The Cure. Show de bola.
quarta-feira, 2 de julho de 2008
The Dark Knight
See, to them, you're just a freak... like me!
Melancia com Photoshop
Abençoado seja o Photoshop, hein Melancia? =)
[Capa da Playboy COM Photoshop]
[Melancia SEM Photoshop]
Photoshop, o "agrotóxico" da fruta moderna!
[Fonte: Kibe Loco - www.kibeloco.com.br
[Capa da Playboy COM Photoshop]
[Melancia SEM Photoshop]Photoshop, o "agrotóxico" da fruta moderna!
[Fonte: Kibe Loco - www.kibeloco.com.br
► Homens e Mulheres - 2
[SERIA O DESTINO?]
- Oi.
- Oi.
- Eu estava te olhando de longe. Você vem sempre aqui?
- Só quando eu estou com vontade de fazer xixi. Quem te deixou entrar no banheiro das mulheres?
- Entrei escondido queria falar com você.
- Não podia esperar eu terminar primeiro?
- É que eu sou muito ansioso. Não é sempre que se encontra a mulher da nossa vida numa festa de formatura.
- Mulher da vida de quem?
- Da minha vida.
- Que espécie de maluco é você?
- O homem da sua vida!
- Como é que é?
- Sou o cara que nasceu pra casar e ter filhos com você.
- Essa é a sua melhor cantada?
- É sério. Vamos conversar.
- Quer fazer o favor de fechar essa porta? Eu ainda não terminei.
- Desculpe. Um homem sabe quando avistou a mulher ideal. Geralmente ela é bonita, sexy, tem gostos refinados e inteligência suficiente para ignorar suas gracinhas. É fina, detesta vulgaridades.
- Me deixa vomitar em paz?
- Achei que você só estivesse apertada.
- O que eu faço no banheiro não é da sua conta.
- Eu me importo com você.
- Socorro, tem um homem aqui dentro.
- Psiuuuuu, não grita, eu só quero saber seu nome.
- Eu tô bêbada demais pra saber meu nome.
- Também estou um pouco tonto, confesso. Viu como a gente combina?
- Sai daqui e fecha essa porta antes que eu te jogue esse balde de lixo na cabeça.
- Algumas pessoas passam a vida toda procurando por um amor perfeito. Alguém que te complete e ajude no que for preciso, faça companhia em todos os momentos.
- Cara, como você é chato.
- Melhorou?
- Não acredito que você me assistiu fazendo aquilo.
- Foi a coisa mais linda que eu já vi.
- Acorda, seu idiota. Eu botei um pão de batata pra fora.
- Eu também adoro pão de batata com tequila.
- Espirrou em você, seu porco.
- Eu não ligo. Seu vômito é o meu vômito.
- O que eu fiz pra merecer um maluco desses atrás de mim?
- Tem coisas que só o destino pode explicar.
- De que planeta você veio? Larga do meu pé, chulé.
- Só você não percebeu que isso tudo não foi por acaso.
- Você me seguiu, eu pedi ajuda, ninguém te tirou do banheiro, eu te dei um banho de bolo de chocolate e cerveja.
- Nosso primeiro encontro...
- Nada disso é um encontro. Sai da minha frente.
- Não posso abandonar a mulher da minha vida.
- Que papo é esse? Deixa-me ver o que colocaram no seu whisky?
- É sério, nunca ouviu falar nisso?
- Whisky com bolinha alucinógena? É claro que sim. Nunca aceite o copo de um estranho.
- Nós somos o casal ideal. Nascemos um pro outro. Sabe quais são as chances disso acontecer numa festa de formatura? Uma em cada 150 milhões.
- Bem menores do que as chances de eu te dar uma porrada.
- Você não faria isso com seu futuro marido.
- Vamos do começo: 1) eu já tenho namorado. 2) você não faz meu tipo. 3) isso não é uma festa de formatura. É a festa de 15 anos da Maria de Fátima. O segredo da relação perfeita está na identificação de sua alma gêmea. Geralmente ela é loira, alta e tem um piercing no nariz. Pode também não ser nada disso. Não importa. O grande lance é perceber se essa alma combina com a sua, tem gostos iguais, beijo bom e, de preferência, um cabelo sem gel.
- Quer apostar que nós nascemos um pro outro?
- Ridículo. Vou ficar com peso na consciência.
- Por que não tenta? Fala uma cor.
- Preto.
- A ausência de todas as cores. A minha preferida também.
- Que bobagem.
- Um filme.
- "101 Dálmatas". - O mesmo que o meu. Quer prova mais definitiva?
- Eu nunca vi esse filme na minha vida.
- Roubar não vale.
- Que papinho mais furado. Se toca, eu não fui com a sua cara.
- Última chance. Fala uma música.
- Ai que saco. Qualquer uma do Daniel.
- Daniel? Tem certeza?
- Absoluta.
- Então você tem razão. Minha mulher ideal não gosta de música sertaneja.
- É mesmo? E que som ela curte?
- Rock, alguma coisa de Jazz... dependendo do dia, MPB.
- O que tem de errado com Zezé diCamargo & Luciano, Latino, KLB?
- Nada, só não é mulher pra mim. De qualquer forma, foi um prazer.
- Todo mundo erra. Quem nunca pensou ter encontrado o grande amor e depois descobriu que ele roncava, tinha caspa e não era muito chegado a banho no inverno? Se fosse fácil não teria graça. O importante é não desanimar, e não foi dessa vez, partir pra outra. Tente declamar seu poema predileto em praça pública e espere alguém completá-lo. Se ninguém se manifestar, saia correndo. Podem ter chamado a polícia.
- Espera.
- O que foi?
- Eu também gosto de MPB. Minha mãe ouve Chico Buarque o dia inteiro. Tecnicamente, se eu estou em casa, também ouço.
- Não sei. Acho que foi um engano.
- Como você pode saber?
- Olhando bem... você é mais alta do que eu imaginava. A mulher da minha vida tem 1.60 de altura. Foi um prazer.
- Espera, eu estou de salto. Olha só... fiquei mais baixa.
- Você não tem nada a ver comigo.
- Tenho sim.
- Que interesse repentino pela minha pessoa. Até um minuto atrás você queria que eu fosse embora.
- Também não sei o que me deu.
- Você tomou do meu whisky, foi isso?
- Não... quer dizer, não lembro.
- Cadê seu namorado?
- Está na minha frente, com uma coisa esquisita na camisa...
- Que nojo... o que mais você comeu, hein?
- Miojo, antes de sair de casa.
- Eu não posso ser seu namorado, você já tem um.
- Eu menti.
- Só pra me dar o fora? Conseguiu. Tchau.
- Volta aqui, meu amor. Pega uma vodka pra mim.
- Sai de perto de mim, sua louca.
- Só saio daqui casada.
- Socorro.
- Achei o homem da minha vida!!
[L. F. Veríssimo]
- Oi.
- Oi.
- Eu estava te olhando de longe. Você vem sempre aqui?
- Só quando eu estou com vontade de fazer xixi. Quem te deixou entrar no banheiro das mulheres?
- Entrei escondido queria falar com você.
- Não podia esperar eu terminar primeiro?
- É que eu sou muito ansioso. Não é sempre que se encontra a mulher da nossa vida numa festa de formatura.
- Mulher da vida de quem?
- Da minha vida.
- Que espécie de maluco é você?
- O homem da sua vida!
- Como é que é?
- Sou o cara que nasceu pra casar e ter filhos com você.
- Essa é a sua melhor cantada?
- É sério. Vamos conversar.
- Quer fazer o favor de fechar essa porta? Eu ainda não terminei.
- Desculpe. Um homem sabe quando avistou a mulher ideal. Geralmente ela é bonita, sexy, tem gostos refinados e inteligência suficiente para ignorar suas gracinhas. É fina, detesta vulgaridades.
- Me deixa vomitar em paz?
- Achei que você só estivesse apertada.
- O que eu faço no banheiro não é da sua conta.
- Eu me importo com você.
- Socorro, tem um homem aqui dentro.
- Psiuuuuu, não grita, eu só quero saber seu nome.
- Eu tô bêbada demais pra saber meu nome.
- Também estou um pouco tonto, confesso. Viu como a gente combina?
- Sai daqui e fecha essa porta antes que eu te jogue esse balde de lixo na cabeça.
- Algumas pessoas passam a vida toda procurando por um amor perfeito. Alguém que te complete e ajude no que for preciso, faça companhia em todos os momentos.
- Cara, como você é chato.
- Melhorou?
- Não acredito que você me assistiu fazendo aquilo.
- Foi a coisa mais linda que eu já vi.
- Acorda, seu idiota. Eu botei um pão de batata pra fora.
- Eu também adoro pão de batata com tequila.
- Espirrou em você, seu porco.
- Eu não ligo. Seu vômito é o meu vômito.
- O que eu fiz pra merecer um maluco desses atrás de mim?
- Tem coisas que só o destino pode explicar.
- De que planeta você veio? Larga do meu pé, chulé.
- Só você não percebeu que isso tudo não foi por acaso.
- Você me seguiu, eu pedi ajuda, ninguém te tirou do banheiro, eu te dei um banho de bolo de chocolate e cerveja.
- Nosso primeiro encontro...
- Nada disso é um encontro. Sai da minha frente.
- Não posso abandonar a mulher da minha vida.
- Que papo é esse? Deixa-me ver o que colocaram no seu whisky?
- É sério, nunca ouviu falar nisso?
- Whisky com bolinha alucinógena? É claro que sim. Nunca aceite o copo de um estranho.
- Nós somos o casal ideal. Nascemos um pro outro. Sabe quais são as chances disso acontecer numa festa de formatura? Uma em cada 150 milhões.
- Bem menores do que as chances de eu te dar uma porrada.
- Você não faria isso com seu futuro marido.
- Vamos do começo: 1) eu já tenho namorado. 2) você não faz meu tipo. 3) isso não é uma festa de formatura. É a festa de 15 anos da Maria de Fátima. O segredo da relação perfeita está na identificação de sua alma gêmea. Geralmente ela é loira, alta e tem um piercing no nariz. Pode também não ser nada disso. Não importa. O grande lance é perceber se essa alma combina com a sua, tem gostos iguais, beijo bom e, de preferência, um cabelo sem gel.
- Quer apostar que nós nascemos um pro outro?
- Ridículo. Vou ficar com peso na consciência.
- Por que não tenta? Fala uma cor.
- Preto.
- A ausência de todas as cores. A minha preferida também.
- Que bobagem.
- Um filme.
- "101 Dálmatas". - O mesmo que o meu. Quer prova mais definitiva?
- Eu nunca vi esse filme na minha vida.
- Roubar não vale.
- Que papinho mais furado. Se toca, eu não fui com a sua cara.
- Última chance. Fala uma música.
- Ai que saco. Qualquer uma do Daniel.
- Daniel? Tem certeza?
- Absoluta.
- Então você tem razão. Minha mulher ideal não gosta de música sertaneja.
- É mesmo? E que som ela curte?
- Rock, alguma coisa de Jazz... dependendo do dia, MPB.
- O que tem de errado com Zezé diCamargo & Luciano, Latino, KLB?
- Nada, só não é mulher pra mim. De qualquer forma, foi um prazer.
- Todo mundo erra. Quem nunca pensou ter encontrado o grande amor e depois descobriu que ele roncava, tinha caspa e não era muito chegado a banho no inverno? Se fosse fácil não teria graça. O importante é não desanimar, e não foi dessa vez, partir pra outra. Tente declamar seu poema predileto em praça pública e espere alguém completá-lo. Se ninguém se manifestar, saia correndo. Podem ter chamado a polícia.
- Espera.
- O que foi?
- Eu também gosto de MPB. Minha mãe ouve Chico Buarque o dia inteiro. Tecnicamente, se eu estou em casa, também ouço.
- Não sei. Acho que foi um engano.
- Como você pode saber?
- Olhando bem... você é mais alta do que eu imaginava. A mulher da minha vida tem 1.60 de altura. Foi um prazer.
- Espera, eu estou de salto. Olha só... fiquei mais baixa.
- Você não tem nada a ver comigo.
- Tenho sim.
- Que interesse repentino pela minha pessoa. Até um minuto atrás você queria que eu fosse embora.
- Também não sei o que me deu.
- Você tomou do meu whisky, foi isso?
- Não... quer dizer, não lembro.
- Cadê seu namorado?
- Está na minha frente, com uma coisa esquisita na camisa...
- Que nojo... o que mais você comeu, hein?
- Miojo, antes de sair de casa.
- Eu não posso ser seu namorado, você já tem um.
- Eu menti.
- Só pra me dar o fora? Conseguiu. Tchau.
- Volta aqui, meu amor. Pega uma vodka pra mim.
- Sai de perto de mim, sua louca.
- Só saio daqui casada.
- Socorro.
- Achei o homem da minha vida!!
[L. F. Veríssimo]
► Crônicas do David Coimbra - 2
[A TRILHA DO CABELO]
[Fonte: Arte Zero Hora]
Imagine um cabelo bem repartido. Na verdade, o cabelo mais bem repartido da cidade. O cabelo do Clóvis. A trilha que dividia o cabelo do Clóvis abria-se à altura do canto externo do olho esquerdo e seguia, reta e lisa como o caminho da virtude, para desaguar lá atrás, nas barrancas da nuca. Como o Clóvis fazia tal trilha, eis o mistério. Com régua, talvez. O certo é que nenhum vento, nenhuma intempérie, nada desmanchava aquela preciosidade da simetria.
Clóvis era supervisor de clube de futebol. Chegava cedo, batia o ponto e ia para sua mesa. Sentava-se sisudo debaixo da trilha perfeita. Alguém mais observador olharia para a trilha e pensaria: como ele consegue?... Mal sabia, esse alguém, que o Clóvis estava insatisfeito com a repartição do seu cabelo. Todas as noites, ele se olhava no espelhinho do banheiro e conjeturava como ficaria se repartisse o cabelo da direita para a esquerda. Seria uma revolução. Clóvis lembrava-se precisamente do dia em que, pela primeira vez, seu cabelo fora repartido da esquerda para a direita. Obra de sua querida mãezinha havia muitos anos. Clóvis ia estrear no pré-primário. Até então, jamais supusera que um cabelo pudesse ser repartido. Mas, naquele dia, sua mamã o colocou diante do espelho do quarto e, com amor infinito, dividiu-lhe o cabelo macio de menino da forma como ele repetiria todos os dias, todos os meses, todos os anos, pelo resto da vida.
Porque Clóvis não esqueceu jamais aquele gesto materno. Foi um gesto de proteção, preparando-o para a vida lá fora. Para o mundo adulto. Clóvis mirou a trilha impecável no espelho e gostou do resultado. Foi para a escolinha sentindo-se acalentado pela afeição da mãe. Nenhum garoto, por agressivo que fosse; nenhuma menina, por coquete que se apresentasse; nenhuma pergunta capciosa da professora; nada abalaria a confiança de Clóvis, uma vez que tivesse na cabeça a trilha imaculada de sua genitora. Foi assim que Clóvis enfrentou os percalços da existência a partir daquele dia, sabendo que, sobre seu ser, havia um cabelo sem pecha, símbolo de uma cabeça organizada, de uma vida planejada, coordenada eternamente por sua mãe, ainda que ela estivesse ausente.
Por isso, Clóvis prezava a repartição de seu cabelo e jamais a alterou.
Mas um dia surgiu Tríssia.
Foi contratada para trabalhar na secretaria. Jovem, 25 anos. Pequena, mas não baixinha. E o melhor: tratava-se de um legítimo exemplar de falsa magra. Tríssia tinha um corpo bem formado, firme como a defesa do Grêmio. Andava empinadinha pelo escritório. Clóvis a admirava em segredo. E a desejava... Não achava que pudesse ter sucesso com ela. Porém, no final de uma tarde de inverno, restavam apenas eles dois no escritório, e Tríssia comentou, espreguiçando-se feito uma gata no sofá:
- Ah, hoje eu queria beber um chope...
Só de brincadeira, sem nenhuma pretensão, Clóvis disse:
- Vamos?
Ela se empertigou na cadeira:
- Vamos!
Seu coração quase saltou boca afora. Sairia com Tríssia! O mundo era bom.
Menos de meia hora mais tarde, sentado no bar, Clóvis ouvia Tríssia falar. Os olhos dela faiscavam de excitação. Não por estar com ele. Pela vida. Tríssia dizia que queria sair por aí, viajar, conhecer o mundo.
- Quero botar uma mochila nas costas e ir para a Europa!
Toda aquela ânsia de liberdade tocou Clóvis. Emocionou-o. Tríssia, sentada a sua frente, significava a amplitude da vida. Era o sentido da existência. De que importava o futebol? A política? A economia? De que importavam os jornais, a televisão, os bons empregos, os carros velozes e o dinheiro dos nababos? Tríssia estava ali, dizendo-lhe o que realmente importava - a liberdade!
Ao deixá-la no edifício onde morava, Clóvis sentia o peito oprimir-se de tanta liberdade. A liberdade de Tríssia. Que o envolvia, derramava-se por sua corrente sangüínea e alterava-lhe a substância da alma. Antes de sair do carro, ela... ela beijou-o na boca. Foi um beijo ao mesmo tempo voraz e manso, que, ao mesmo tempo, o excitou e o comoveu. Tríssia se foi, e Clóvis voltou para casa angustiado. Ele também queria ser livre. Ele também queria viver.
Foi assim que decidiu mudar a repartição do cabelo. Naquela noite, Clóvis experimentou penteá-lo para o outro lado. Acostumado com uma vida deitado para a direita, o cabelo se rebelou. Recusava a posição nova. Clóvis teve de domá-lo a golpes de creme rinse. Mas, ao ver a trilha no lado direito, arrepiou-se de horror e enfiou-se na cama. No dia seguinte, foi trabalhar com o velho cabelo de mamã. Passaram-se semanas, até Clóvis tomar uma atitude. Acordou cedo e penteou o cabelo para a esquerda com decisão. Entrou no clube com o peito estourando de ansiedade. O que os outros diriam? Mas, para sua profunda decepção, ninguém notou. Clóvis sentou-se atrás da sua mesa sem que um único colega fizesse uma só observação. Conversavam com ele, tomavam café com ele, falavam de tudo, menos do seu cabelo. Nem sequer olhavam para o seu cabelo. E ela, Tríssia... ela mal o encarou.
Clóvis estava decepcionado. Mais: estava magoado. Com todos os que se diziam seus amigos, mas sobretudo com ela. Ela não sabia nada dele. Ninguém sabia nada dele. Naquele dia, Clóvis compreendeu como um homem pode ser solitário. No final da tarde, já pensava em pedir demissão, em ir embora dali, em nunca mais ver nenhum deles, quando ela, Tríssia, parou de pé ao seu lado. Clóvis levantou a cabeça com o cabelo repartido da direita para a esquerda e foi neste cabelo, nesta peça harmônica e flamante de engenharia capilar, que Tríssia pousou sua pequena mão e o afagou suavemente e amassou um tufo e ciciou, enfim:
- Eu gostei.
Depois ela sorriu. E Clóvis sorriu. E viu que, sim, o mundo pode ser bom.
[Blog do David Coimbra - www.clicrbs.com.br/blogdodavid]
[Fonte: Arte Zero Hora]Imagine um cabelo bem repartido. Na verdade, o cabelo mais bem repartido da cidade. O cabelo do Clóvis. A trilha que dividia o cabelo do Clóvis abria-se à altura do canto externo do olho esquerdo e seguia, reta e lisa como o caminho da virtude, para desaguar lá atrás, nas barrancas da nuca. Como o Clóvis fazia tal trilha, eis o mistério. Com régua, talvez. O certo é que nenhum vento, nenhuma intempérie, nada desmanchava aquela preciosidade da simetria.
Clóvis era supervisor de clube de futebol. Chegava cedo, batia o ponto e ia para sua mesa. Sentava-se sisudo debaixo da trilha perfeita. Alguém mais observador olharia para a trilha e pensaria: como ele consegue?... Mal sabia, esse alguém, que o Clóvis estava insatisfeito com a repartição do seu cabelo. Todas as noites, ele se olhava no espelhinho do banheiro e conjeturava como ficaria se repartisse o cabelo da direita para a esquerda. Seria uma revolução. Clóvis lembrava-se precisamente do dia em que, pela primeira vez, seu cabelo fora repartido da esquerda para a direita. Obra de sua querida mãezinha havia muitos anos. Clóvis ia estrear no pré-primário. Até então, jamais supusera que um cabelo pudesse ser repartido. Mas, naquele dia, sua mamã o colocou diante do espelho do quarto e, com amor infinito, dividiu-lhe o cabelo macio de menino da forma como ele repetiria todos os dias, todos os meses, todos os anos, pelo resto da vida.
Porque Clóvis não esqueceu jamais aquele gesto materno. Foi um gesto de proteção, preparando-o para a vida lá fora. Para o mundo adulto. Clóvis mirou a trilha impecável no espelho e gostou do resultado. Foi para a escolinha sentindo-se acalentado pela afeição da mãe. Nenhum garoto, por agressivo que fosse; nenhuma menina, por coquete que se apresentasse; nenhuma pergunta capciosa da professora; nada abalaria a confiança de Clóvis, uma vez que tivesse na cabeça a trilha imaculada de sua genitora. Foi assim que Clóvis enfrentou os percalços da existência a partir daquele dia, sabendo que, sobre seu ser, havia um cabelo sem pecha, símbolo de uma cabeça organizada, de uma vida planejada, coordenada eternamente por sua mãe, ainda que ela estivesse ausente.
Por isso, Clóvis prezava a repartição de seu cabelo e jamais a alterou.
Mas um dia surgiu Tríssia.
Foi contratada para trabalhar na secretaria. Jovem, 25 anos. Pequena, mas não baixinha. E o melhor: tratava-se de um legítimo exemplar de falsa magra. Tríssia tinha um corpo bem formado, firme como a defesa do Grêmio. Andava empinadinha pelo escritório. Clóvis a admirava em segredo. E a desejava... Não achava que pudesse ter sucesso com ela. Porém, no final de uma tarde de inverno, restavam apenas eles dois no escritório, e Tríssia comentou, espreguiçando-se feito uma gata no sofá:
- Ah, hoje eu queria beber um chope...
Só de brincadeira, sem nenhuma pretensão, Clóvis disse:
- Vamos?
Ela se empertigou na cadeira:
- Vamos!
Seu coração quase saltou boca afora. Sairia com Tríssia! O mundo era bom.
Menos de meia hora mais tarde, sentado no bar, Clóvis ouvia Tríssia falar. Os olhos dela faiscavam de excitação. Não por estar com ele. Pela vida. Tríssia dizia que queria sair por aí, viajar, conhecer o mundo.
- Quero botar uma mochila nas costas e ir para a Europa!
Toda aquela ânsia de liberdade tocou Clóvis. Emocionou-o. Tríssia, sentada a sua frente, significava a amplitude da vida. Era o sentido da existência. De que importava o futebol? A política? A economia? De que importavam os jornais, a televisão, os bons empregos, os carros velozes e o dinheiro dos nababos? Tríssia estava ali, dizendo-lhe o que realmente importava - a liberdade!
Ao deixá-la no edifício onde morava, Clóvis sentia o peito oprimir-se de tanta liberdade. A liberdade de Tríssia. Que o envolvia, derramava-se por sua corrente sangüínea e alterava-lhe a substância da alma. Antes de sair do carro, ela... ela beijou-o na boca. Foi um beijo ao mesmo tempo voraz e manso, que, ao mesmo tempo, o excitou e o comoveu. Tríssia se foi, e Clóvis voltou para casa angustiado. Ele também queria ser livre. Ele também queria viver.
Foi assim que decidiu mudar a repartição do cabelo. Naquela noite, Clóvis experimentou penteá-lo para o outro lado. Acostumado com uma vida deitado para a direita, o cabelo se rebelou. Recusava a posição nova. Clóvis teve de domá-lo a golpes de creme rinse. Mas, ao ver a trilha no lado direito, arrepiou-se de horror e enfiou-se na cama. No dia seguinte, foi trabalhar com o velho cabelo de mamã. Passaram-se semanas, até Clóvis tomar uma atitude. Acordou cedo e penteou o cabelo para a esquerda com decisão. Entrou no clube com o peito estourando de ansiedade. O que os outros diriam? Mas, para sua profunda decepção, ninguém notou. Clóvis sentou-se atrás da sua mesa sem que um único colega fizesse uma só observação. Conversavam com ele, tomavam café com ele, falavam de tudo, menos do seu cabelo. Nem sequer olhavam para o seu cabelo. E ela, Tríssia... ela mal o encarou.
Clóvis estava decepcionado. Mais: estava magoado. Com todos os que se diziam seus amigos, mas sobretudo com ela. Ela não sabia nada dele. Ninguém sabia nada dele. Naquele dia, Clóvis compreendeu como um homem pode ser solitário. No final da tarde, já pensava em pedir demissão, em ir embora dali, em nunca mais ver nenhum deles, quando ela, Tríssia, parou de pé ao seu lado. Clóvis levantou a cabeça com o cabelo repartido da direita para a esquerda e foi neste cabelo, nesta peça harmônica e flamante de engenharia capilar, que Tríssia pousou sua pequena mão e o afagou suavemente e amassou um tufo e ciciou, enfim:
- Eu gostei.
Depois ela sorriu. E Clóvis sorriu. E viu que, sim, o mundo pode ser bom.
[Blog do David Coimbra - www.clicrbs.com.br/blogdodavid]
► Provérbio do dia - 4
"Conquistar uma mulher fútil? Barbada! Mas uma relação destas é superficial, falta conteúdo! Alguns amassos e página virada, situação efêmera no máximo gera um capítulo, sem desdobramentos e nem perspectiva de novos personagens!
Uma historinha banal, quando acaba muitos casos são esquecidos, não merecendo registro! As verdadeiras histórias são complicadas, difíceis, vários obstáculos, empecilhos e adversidades! Cada linha para ser escrita são diversas tentativas, folhas de rascunhos e foras! Quando enfim se consegue a sintonia, o livro começa a ganhar forma, as letras se atraem, viram palavras e essas em sincronia contam os fatos." - Daniel Boucinha
Uma historinha banal, quando acaba muitos casos são esquecidos, não merecendo registro! As verdadeiras histórias são complicadas, difíceis, vários obstáculos, empecilhos e adversidades! Cada linha para ser escrita são diversas tentativas, folhas de rascunhos e foras! Quando enfim se consegue a sintonia, o livro começa a ganhar forma, as letras se atraem, viram palavras e essas em sincronia contam os fatos." - Daniel Boucinha
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